A última quinta-feira entrou para a história do futebol de Luxemburgo. O pequeno país de 600 mil habitantes garantiu sua primeira participação na fase de grupos de uma competição europeia. A façanha foi protagonizada pelo Dudelange, fundado em 1991 a partir da fusão de diferentes clubes. Força dominante do país neste século, com 14 títulos nacionais a partir de 2000, os nanicos já acumulavam alguns bons resultados além das fronteiras. Mas nada comparado ao que aconteceu nas preliminares desta Liga Europa. Depois de caírem para o MOL Vidi na primeira etapa da Liga dos Campeões, foram repescados ao torneio secundário e eliminaram Drita, Legia Varsóvia e Cluj (todos também campeões nacionais em 2018 e provenientes da Champions) para chegar mais longe do que nunca. Os resultados contra poloneses e romenos, aliás, foram enormes. A vitória sobre o Legia aconteceu em Varsóvia, enquanto foram dois triunfos sobre o Cluj. Na etapa principal, pegarão Milan, Betis e Olympiacos. Entram como azarões, mas querendo mais.

A epopeia do Dudelange é um brilhante momento ao futebol de Luxemburgo, mas não o único nos últimos anos. Basta lembrar que o Progrès Niederkorn aprontou na Liga Europa nas últimas duas temporadas. Ou então que a seleção nacional segurou a França em Saint-Denis pelas Eliminatórias, em um resultado gigantesco diante daqueles que seriam campeões do mundo poucos meses depois. E se o otimismo impera, vale comparar também o que os resultados significam ao passado do esporte no Grão-Ducado. Mesmo sendo saco de pancadas, os luxemburgueses possuem os seus lampejos nestes mais de 100 anos em que o campeonato local e a seleção existem.

Inserida no cenário competitivo desde a década de 1920, e já postulante nas Eliminatórias da Copa a partir dos anos 1930, a seleção de Luxemburgo concentra as melhores histórias. Momentos em que os nanicos peitaram gigantes ou mesmo sonharam com as fases mais agudas de competições importantes, por mais raras que fosse suas vitórias. Em 117 anos de existência da equipe nacional, são apenas 32 triunfos oficiais, mas alguns bem marcantes. Os clubes, por sua vez, viveram algumas surpresas no início de suas participações nas copas europeias, embora na maior parte do tempo sejam meros sparrings. E há nomes célebres no Grão-Ducado. Jogadores que construíram carreira de relativo sucesso em grandes ligas, sobretudo na Alemanha, na Bélgica e na França – além de alguns expatriados que eternizaram os seus nomes.

A aparição do Dudelange na fase de grupos da Liga Europa é um orgulho do futebol de Luxemburgo. Abaixo, entre feitos da seleção, dos clubes ou de jogadores, relembramos outros 24 que reconstroem a história do esporte no país. Confira:

A primeira vitória

A França foi a primeira adversária de Luxemburgo, em 1911. Bateu os adversários por 4 a 1. Meses depois, no reencontro, aplicou uma impiedosa goleada por 8 a 0. Mas no terceiro encontro, os luxemburgueses mostrariam sua evolução. Foi uma partida eletrizante no Grão-Ducado. Os anfitriões abriram o placar, mas os Bleus viraram e terminaram o primeiro tempo vencendo por 3 a 1. Já na segunda etapa, Jean Massard chamou o jogo para si. O atacante luxemburguês, que já havia feito o primeiro tento, anotou uma tripleta nos 45 minutos finais. Zenon Bernard também deu sua contribuição. Ao final, o placar por 5 a 4 consagrava o primeiro triunfo internacional dos Leões Vermelhos. Demoraria 25 anos para conquistarem uma vitória novamente contra seleções principais. Além disso, o próximo jogo sem derrota para os Bleus só aconteceria 103 anos depois, no 0 a 0 de 2017.

Superando o Terceiro Reich

Não disse que foram 25 anos para a segunda vitória de Luxemburgo? Pois bem, ela teria grande valor. Em fevereiro de 1939, o Grã-Ducado encarou a Alemanha. Sob as ordens de Adolf Hitler, o Terceiro Reich já aplicava sua política de tentar comprovar a teoria ariana dentro de campo, assim como as anexações fortaleciam o elenco comandado por Sepp Herberger. Três anos antes, inclusive, haviam goleado os Leões Vermelhos por 9 a 0 na primeira fase das Olimpíadas. Não foi isso que intimidou os nanicos. Os germânicos contavam com uma equipe de jogadores renomados, a começar pelo capitão Reinhold Münzenberg, presente nas duas Copas do Mundo anteriores. Enquanto isso, vários jovens eram alinhados pelo Grão-Ducado. E os anfitriões levaram à loucura os 7 mil presentes nas arquibancadas em Differdange. Aos 25 anos, Léon Mart foi o herói da ocasião. O atacante do Fola Esch anotou os dois gols na vitória por 2 a 1, a primeira desde 1914. Ao longo dos anos, ele se consagraria como o maior artilheiro da história da seleção, com respeitáveis 16 tentos em 24 partidas. Já em maio de 1940, Hitler ordenou a invasão de Luxemburgo.

Julien Darui, o melhor goleiro francês do Século XX

Em 1999, o jornal L’Equipe escolheu os melhores jogadores do futebol francês no Século XX. E o goleiro eleito não era Fabien Barthez, Joël Bats ou qualquer outro nome mais badalado. O escolhido foi Julien Darui, reserva na Copa de 1938 e que fez carreira na década de 1940. Um francês por destino, mas luxemburguês de nascimento. O arqueiro veio ao mundo em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial. Descendente de portugueses e italianos, nasceu em Oberkorn, mas se mudou à vizinha Lorena ainda na infância, onde seus pais abriram um café. Mesmo baixo, com 1,69 m, foi considerado um revolucionário na posição por seus saltos espetaculares e sua mobilidade dentro da área. Rodou por diferentes clubes da França, incluindo o Lille e o Red Star, embora seu auge tenha ocorrido no Roubaix Tourcoing, com o qual conquistou a Ligue 1 em 1947. Neste mesmo ano, integrou a seleção da Europa que disputou um amistoso contra a seleção do Reino Unido em Glasgow. Pelos Bleus, disputou 25 jogos entre 1939 e 1951.

A geração perdida dos anos 1940

O futebol mundial é um grande “e se…” nos anos 1940, a década perdida na Europa por conta da Segunda Guerra Mundial. E, mesmo sem Julien Darui, não é exagero acreditar que Luxemburgo poderia aprontar algo nas Eliminatórias da Copa do Mundo. O Grão-Ducado não conseguiu fazer frente a Bélgica e Holanda no qualificatório do Mundial de 1938, mas mostrou sua evolução nos anos seguintes. Além da vitória sobre a Alemanha em 1939, bateu a Holanda por 5 a 4 em amistoso disputado em 1940, goleou a Bélgica por 3 a 1 em maio de 1945 e venceu também a Noruega por 3 a 2 em 1946. Um sorteio benevolente poderia ajudar os luxemburgueses. Eram anos, afinal, de grandes jogadores a serviço do país. Léon Mart é o melhor exemplo. Além disso, havia ainda outros atletas que se consagraram no futebol francês, com menção especial aos atacantes Gustave Kemp e Camille Libar. Em meados de 1949, os luxemburgueses viam a geração envelhecida, mas ainda assim venderam caro para a Suíça as derrotas nas Eliminatórias da Copa de 1950.

Os artilheiros da Ligue 1

Gustave Kemp e Camille Libar, aliás, merecem mais destaque. Ambos os atacantes tiveram uma carreira sólida no Campeonato Francês depois da Segunda Guerra. O primeiro brilhava com a camisa do Metz, após iniciar a carreira no Progrès Niederkorn. Gusty aportou na França aos 28 anos e empilhou gols nos três anos em que atuou no país. Foram 63 tentos em 97 partidas, com o desempenho mais expressivo em 1947/48, quando balançou as redes 30 vezes e terminou como vice-artilheiro da competição. Tragicamente, sua história seria interrompida um ano depois, vitimado por um acidente automobilístico. Libar, por sua vez, jogou por grandes clubes franceses, depois de ser goleador do Dudelange. Primeiro passou pelo Strasbourg, antes de se juntar ao Bordeaux, que então militava na segunda divisão.  Ajudou os girondinos a conquistarem o acesso com 41 gols na temporada e ainda ficaria mais um ano no clube. Também passou por Metz e Toulouse no período.

Na década de 1950, Vic Nuremberg (que terá sua história contada adiante com mais detalhes) manteve a regularidade para superar a marca de 100 gols na Ligue 1. Já nos anos 1960, quem despontou foi Johny Léonard. Três vezes artilheiro do Campeonato Luxemburguês com o Union Luxembourg, acumulou 29 gols em duas temporadas nas quais defendeu o Metz. Havia ainda Ady Schmit, notável meio-campista do Sochaux, que chegou aos 70 tentos em oito anos na equipe, entre 1962 e 1970. Na década de 1970, o sucessor foi o atacante Nico Braun. Com passagem pelo Schalke 04, onde faturou a Copa da Alemanha, chegou ao Metz em 1973, assinalando 96 gols em 170 partidas disputadas pela Ligue 1. Chegou a fazer quatro num jogo contra o Saint-Étienne, potência do período, e em duas temporadas passou dos 20 tentos, ficando em terceiro na artilharia em 1973/74 (28 anotações) e em 1976/77 (23).

Já nos anos 1980, a referência foi Robby Langers. O atacante rodou por diversos clubes da primeira e da segunda divisão, incluindo o Olympique de Marseille e o Cannes. O melhor momento aconteceu com a camisa do Nice. Foi artilheiro da segundona em 1988/89, ajudando no acesso das Águias. Já em 1989/90, terminou em terceiro na tábua de goleadores da Ligue 1, com 17 tentos. Permitiu aos rubro-negros se segurarem na elite, com direito a quatro tentos na goleada por 6 a 0 sobre o Strasbourg, em plenos playoffs contra o descenso. Era nome frequente na seleção luxemburguesa.

Vic Nuremberg, a carreira mais condecorada

Formado pelo Progrès Niederkorn, Victor Nuremberg tinha 20 anos quando recebeu uma proposta para se profissionalizar. Já um sinal de seu talento: o interessado em sua contratação era o Nice, campeão francês naquele mesmo ano. Vic logo se mudou à Côte d’Azur e, mais do que integrar o célebre time das Águias nos anos 1950, que fazia frente ao poderoso Stade de Reims, o luxemburguês se tornou uma das grandes referências daquele período. Conquistou três títulos da Ligue 1 e outros dois da Copa da França. Além disso, anotou 111 gols, que o mantém ainda hoje como segundo maior artilheiro da história da agremiação. Os mais importantes vieram em uma das vitórias mais emblemáticas dos rubro-negros no período. Pela Champions de 1959/60, o Nice chegou a derrotar o Real Madrid por 3 a 2, com uma tripleta do atacante. Uma pena que a vaga nas semifinais tenham ficado com os merengues, dando o troco com uma goleada por 4 a 0. Nuremberg permaneceu no elenco até 1960, passando depois por Sochaux, Lyon e Bastia. Pela seleção, disputou apenas 19 jogos, mas fez parte dos sucessos nas Olimpíadas de 1952 e na Eurocopa de 1964.

Os Jogos Olímpicos de 1952

Luxemburgo participou das três edições das Olimpíadas na década de 1920, mas sempre acabou eliminado com apenas um jogo disputado. A primeira vitória aconteceu em 1948, goleando o Afeganistão por 6 a 0, antes de ser atropelado pela forte Iugoslávia por 6 a 1 nas oitavas de final. A melhor campanha, de qualquer forma, aconteceu em Helsinque, nos Jogos de 1952. Treinados pelo austríaco Adolf Patek, que posteriormente faria carreira em grandes clubes alemães, como Eintracht Frankfurt e Bayern de Munique, os luxemburgueses contavam com bons valores. Entre seus destaques estavam Vic Nuremberg e Léon Letsch, este último já experimentado no futebol francês, embora a base fosse formada majoritariamente por jogadores em atividade no país.

O primeiro desafio não era nada tranquilo. Luxemburgo encarava a seleção amadora do Reino Unido, com vários jogadores que estourariam depois. O craque era Jim Lewis, ponta talentoso que surgia no Walthamstow Avenue. No ano seguinte, ele se tornou o principal responsável pela eliminação do Manchester United na FA Cup, calando Old Trafford. E se transferiria ao Chelsea, embora tenha mantido o status como amador, disputando ainda outras duas Olimpíadas. Seu emprego como representante de vendas oferecia uma estabilidade maior que o futebol, então ele seguiu no trabalho enquanto jogava pelos Blues. Fez parte do elenco que conquistou o Campeonato Inglês em 1954/55, com seis gols em 17 partidas. Além disso, outros daquele time se profissionalizaram. Derek Saunders também foi campeão com o Chelsea em 1955. George Robb largou a carreira de professor para disputar mais de 200 jogos pelo Tottenham e esteve no Inglaterra 3×6 Hungria de 1953. Já Bill Slater virou lenda no histórico Wolverhampton dos anos 1950, presente na Copa de 1958 e eleito o melhor do país em 1960.

O favoritismo óbvio era do Reino Unido. E a equipe até saiu em vantagem em Lahti, gol de Robb. Contudo, Luxemburgo reagiu. Empatou o duelo no segundo tempo, com Joseph Roller, forçando a prorrogação. Então, os 30 minutos finais guardaram uma verdadeira insanidade. Roller, duas vezes, e Letsch, anotaram três gols para o Grão-Ducado em sete minutos. Slater descontou, mas Julien Gales anotou o quinto dos nanicos, até que Lewis fechasse a contagem. Com a inimaginável vitória por 5 a 3, os luxemburgueses avançaram. Só não teriam vida fácil, cruzando com o Brasil nas oitavas.

Se o status amador ainda era necessário, a Seleção contava com uma equipe essencialmente jovem, composta por jogadores saídos de clubes cariocas. Mas muitos realmente vingaram no futuro. O sistema defensivo contava com Zózimo, bandeira do Bangu e bicampeão do mundo. Do Madureira vinha Evaristo de Macedo, pouco antes de se transferir ao Flamengo. Humberto Tozzi jogava pelo São Cristóvão, seguindo seu rumo ao Palmeiras e à Lazio. Larry era promessa do Fluminense e se consagraria anos depois como ídolo no Internacional, enquanto Milton Pessanha fez o mesmo trajeto até o Grêmio. Por fim, o mais jovem do grupo era Vavá, que aos 17 anos trocava o Sport pelo Vasco, anos antes de se tornar essencial na Copa do Mundo.

O Brasil conquistou a classificação, mas teve trabalho. Mesmo sendo superior, só conseguiu abrir o placar no final do primeiro tempo, com Larry. Já na segunda etapa, Humberto ampliou. Apesar disso, a acomodação dos brasileiros criou certos riscos quando, aos 41 do segundo tempo, os luxemburgueses descontaram em cobrança de pênalti de Julien Gales. Ao apito final, a derrota por 2 a 1 acabou sendo significativa ao Grão-Ducado, que deixava a competição muito acima do que se esperava. Os brasileiros seriam eliminados pela Alemanha, treinada por Sepp Herberger. Aquelas Olimpíadas, aliás, marcariam o melhor desempenho de Luxemburgo no quadro de medalhas. Ganharam o ouro (seu único até hoje) nos 1500 metros do atletismo, com Josy Barthel, que depois daria nome ao principal estádio do país.

Spora Luxembourg x Borussia Dortmund

O Spora Luxembourg foi o primeiro representante do país nas competições europeias. O clube participou da segunda edição da Copa dos Campeões, em 1956/57. E ficou muito próximo de provocar uma zebra logo em seu primeiro confronto. O desafio da equipe não era nada simples, contra o Borussia Dortmund. No jogo de ida, os luxemburgueses chegaram a ficar duas vezes em vantagem no placar, mas tomaram a virada e perderam por 4 a 3 na Alemanha Ocidental. Já a volta contou com o troco dos nanicos, que bateram os aurinegros por 2 a 1. O tento decisivo foi anotado por Léon Letsch, capitão da equipe. Contudo, a regra dos gols fora ainda não valia na época e o Spora foi obrigado a disputar um jogo-desempate. No duelo realizado no próprio Estádio Rote Erde, casa do BVB na época, os alemães-orientais não tiveram piedade: golearam por 7 a 0 e avançaram às quartas de final. O Spora disputou mais dez edições de competições europeias, antes de se fundir em 2005 e dar origem ao atual Racing Union Luxembourg.

Os primórdios do Jeunesse d’Esch na Champions

Se o Spora foi o pioneiro de Luxemburgo, o principal representante do país nos primeiros anos de Copa dos Campeões era o Jeunesse d’Esch. Foram 17 participações na Champions entre 1958/59 e 1988/89. Em 1959/60, os alvinegros se tornaram o primeiro clube luxemburguês a avançar em uma fase eliminatória do torneio. Na primeira fase etapa, superaram os poloneses do Lodzki por 6 a 2 no placar agregado, com direito a uma goleada por 5 a 0 no Grão-Ducado. Todavia, deram o azar de cruzar com o tetracampeão Real Madrid nas oitavas, tomando goleadas por 7 a 0 e 5 a 2 – neste segundo jogo, com grande atuação do goleiro Poli Steffen para os anfitriões. Na Champions 1963/64, o Jeunesse d’Esch voltou a alcançar as oitavas. Sua maior façanha aconteceu na fase inicial do torneio, ao reverter a goleada por 4 a 1 que sofreu do Haka, na visita à Finlândia, aplicando 4 a 0 em seus domínios. Já na etapa seguinte, os nanicos bateram o Partizan Belgrado de Milan Galic em Luxemburgo por 2 a 1, mas sucumbiram com a goleada por 6 a 2 na viagem à Iugoslávia. Por fim, outro episódio honroso aconteceu em 1973/74. Recebendo o Liverpool de Bill Shankly no Grão-Ducado, o Jeunesse conseguiu arrancar o empate por 1 a 1, com um gol aos 43 do segundo tempo. Cairia em pé com a derrota por 2 a 0 em Anfield, mesmo com o forte time de Kevin Keegan e Emlyn Hughes do outro lado.

A vitória sobre o esquadrão de Portugal

A partir dos Jogos Olímpicos de 1952, Luxemburgo enfrentou um incômodo jejum. A seleção contava com jogadores de relevo, mas passou um longo período sem vencer jogos oficiais. O Grão-Ducado geralmente era relegado aos times B das seleções principais e acumulava poucos amistosos, enquanto servia de saco de pancadas nas Eliminatórias da Copa. Não parecia diferente quando os Leões Vermelhos foram sorteados na mesma chave que Inglaterra e Portugal no qualificatório para o Mundial de 1962. Os primeiros jogos não trouxeram surpresas. Na visita ao pequeno país, os ingleses aplicaram uma goleada por 9 a 0, ainda hoje a maior sofrida pelos nanicos, ao lado dos 9 a 0 da Alemanha em 1936. Bobby Charlton e Jimmy Greaves conseguiram um hat-trick cada. Depois, 6 a 0 para os lusitanos no Jamor, com uma tripleta de Yaúca. E a visita a Londres até saiu em conta, com os 4 a 1 dos Three Lions.

Quando recebeu Portugal em sua casa, Luxemburgo não tinha muitas perspectivas. Jogava pela honra, enquanto a Seleção das Quinas ainda tinha chances de classificação, após empatar com os ingleses em Lisboa. Bastava apenas superar os nanicos para decidir em Wembley. Pois o milagre se concretizou naquele 8 de outubro de 1961. A base portuguesa era formada pelo Benfica de Béla Guttmann, campeão europeu pela primeira vez meses antes. O técnico dos tugas, Fernando Peyroteo, lendário atacante do Sporting, tinha à sua disposição uma porção de talentos, mesmo que tenha barrado alguns veteranos na surpreendente escalação. Mário Coluna, José Águas, Cavém e Costa Pereira estavam entre os titulares na partida. Aquele jogo ainda marcava a estreia pela seleção de um atacante de 19 anos que despontava no Benfica, pouco depois de chegar de Moçambique, e impressionava pela potência física aliada à técnica. Um tal de Eusébio.

Luxemburgo tinha sua base formada por jogadores da liga local, alguns com tarimba nas competições continentais através de Spora Luxembourg e Jeunesse d’Esch. Apenas o defensor François Konter atuava fora do país, ao se transferir ao Anderlecht naquela temporada. Herói nas Olimpíadas de 1952, Léon Letsch seguia firme no time. O destaque na ocasião, todavia, seria um jovem: Ady Schmit, meio-campista de 21 anos, que então militava nas fileiras do Fola Esch e trabalhava como chaveiro para seu sustento.

Schmit abriu o placar a Luxemburgo durante o primeiro tempo, já uma grande surpresa. E na segunda etapa, completaria a sua tripleta, combinando velocidade e precisão nos arremates. Desencontrado, Portugal não era frágil na defesa e só reagiu aos 37 do segundo tempo, quando Eusébio anotou seu primeiro gol pela seleção. Tarde demais. Nicolas Hoffmann faria o quarto para o Grão-Ducado. Já Yaúca, pouco efetivo desta vez, fecharia a conta em 4 a 2 para os anfitriões. Festa dos amadores pelo feito sem tamanho. Eliminado, Portugal cumpriria tabela com nova derrota na visita à Inglaterra. Já Ady Schmit aproveitou a visibilidade. Na temporada seguinte, aos 22 anos, transferiu-se ao Sochaux. Permaneceu oito anos no clube, com cerca de 250 partidas disputadas. Eusébio, ao menos, teve também sua chance de se reerguer.

A Euro 1964

Depois da vitória sobre Portugal, a seleção de Luxemburgo permaneceu um tempo inativa. Disputou um amistoso contra a União Soviética em 1962, derrotada por 3 a 1, e foi só. Os próximos compromissos oficiais só aconteceriam pelo qualificatório da Eurocopa de 1964. Era a estreia do Grão-Ducado no torneio continental, ausente na primeira edição. Cruzaria-se com a Holanda, conhecida de outras ocasiões. Os países haviam disputado seis jogos até então, com a marcante vitória dos luxemburgueses por 5 a 4 em 1940, diante da torcida holandesa em Roterdã.

Luxemburgo já tinha se dado bem no sorteio, ao cair no “chapéu” durante a primeira fase eliminatória. Assim, na segunda etapa (equivalente às oitavas de final, em época na qual a Euro se disputava apenas em mata-matas) a Holanda surgiu no caminho, após eliminar a Suíça. Ainda não era a Oranje do Futebol Total, mas o futebol local se fortalecia com a adoção do profissionalismo e a ascensão dos principais clubes no cenário continental. A espinha dorsal da seleção era formada por jogadores do Feyenoord, semifinalista da Champions em 1962/63. Disputaram o primeiro duelo contra Luxemburgo alguns ídolos que faturariam o título europeu sete anos depois, como o goleiro Eddy Pieters Graafland e o talentoso ponta Coen Moulijn. Além disso, também compunham o grupo jogadores que contribuíram à transformação do Ajax, como o artilheiro Klaas Nuninga e o venerado Sjaak Swart. E o moral da seleção andava elevado, sobretudo depois de vencer o Brasil bicampeão do mundo em maio. Triunfo por 1 a 0, com Pelé do outro lado.

A seleção luxemburguesa, por sua vez, também contava com alguns jogadores profissionais, o que auxiliava na ocasião. Louis Pilot, François Konter e Camille Dimmer atuavam no futebol belga, enquanto Ady Schmit já havia se transferido à França. Todavia, era um time que mal possuía tempo para treinar, se juntando apenas três dias antes do compromisso. Para piorar, o Estádio Josy Barthel não estava apto para o duelo e as duas partidas acabaram realizadas na Holanda.

O “jogo de ida” aconteceu no Estádio Olímpico de Amsterdã, em 11 de setembro de 1963. Os holandeses até cogitaram a possibilidade de usar um time B para o compromisso, mas escalaram força máxima. E logo aos cinco minutos, as arquibancadas já vibraram com o tento de Nuninga. Contudo, em uma atuação morna da Oranje, Luxemburgo conseguiu arrancar o empate antes do intervalo. Após cobrança de escanteio, Paul May emendou de cabeça para as redes. Depois disso, os visitantes seguraram o placar. Surgiram rumores de que a postura frouxa dos anfitriões se dava pelo interesse em manter a disputa aberta, atraindo assim mais público para o reencontro em Roterdã. Um mês depois, a teoria caiu por terra.

Diante do bom resultado no primeiro jogo, Luxemburgo deu um jeito de driblar as limitações. A federação negociou com os clubes locais para manter os jogadores em intenso período de treinamentos, sob as ordens do alemão Robert Heinz. A “volta” aconteceu em 30 de outubro, no Estádio De Kuip, em Roterdã. Técnico da Holanda, Elek Schwartz promoveu algumas mudanças na equipe, entre elas a inclusão de Piet Keizer, lendário ponta que surgia no Ajax. Mas alguns dos outros astros deixados de lado desta vez acabaram fazendo falta, diante do que ocorreu naquela noite.

Tudo parecia sob controle à Holanda quando a equipe carimbou o travessão logo no início da partida. No entanto, quem abriu o placar foi o Grão-Ducado, aos 20 minutos, num belo tento de Dimmer – um engenheiro de profissão que atuava na segundona belga, pelo Molenbeek. A pressão da Oranje aumentou e Piet Kruiver empatou aos 35. No entanto, o drama aumentava. A pressão dos holandeses era infrutífera, graças ao goleiro Nico Schmitt, acumulando milagres. Já aos 25 do segundo tempo, aconteceu o golpe fatal. Dimmer balançou as redes novamente e decretou a vitória por 2 a 1. Nos minutos restantes, Schmitt se consagrou de vez como herói, encerrando a partida com o ombro deslocado por conta de uma trombada. A torcida estupefata via a Holanda ser eliminada.

Nas quartas de final, a Dinamarca surgia como desafio. Outro adversário tradicional, embora ainda não adotasse o regime profissional em seu futebol. O primeiro jogo, enfim, pôde acontecer no Estádio Josy Barthel. E foi uma partidaça. Louis Pilot abriu o placar a Luxemburgo, mas Ole Madsen empatou aos dinamarqueses. Jean Klein, considerado um dos atacantes mais rápidos da Europa, voltou a botar o Grão-Ducado à frente, até Madsen aparecer com mais dois tentos, virando a partida. Já no início do segundo tempo, Klein fecharia o placar em 3 a 3, com os Leões Vermelhos ainda vivos.

Seis dias depois, o reencontro aconteceu em Copenhague, no famoso Idraetsparken. Ady Schmit e Johny Léonard anotaram os gols dos luxemburgueses, mas Ole Madsen estava inspirado novamente e fez os dois tentos da Dinamarca, fechando o empate em 2 a 2. Por fim, em 18 de dezembro de 1963, aconteceu o jogo-desempate em Amsterdã. A Dinamarca venceu por 1 a 0 e o gol decisivo, adivinhem, foi anotado por Ole Madsen. O atacante recusaria uma proposta do Barcelona no ano seguinte, após participar da fase final da Euro 1964, mas depois se transferiria ao Sparta Roterdã em 1965, onde foi ídolo. A caminhada dos luxemburgueses entre os oito melhores da Europa, lutando tanto pelos resultados, já representava demais.

Louis Pilot, o maior de todos

Em 2004, durante as comemorações pelos seus 50 anos de existência, a Uefa realizou uma eleição de melhor jogador a cada um de seus países filiados. Louis Pilot terminou como o escolhido em Luxemburgo. Nascido em Esch-sur-Alzette, o meio-campista deu os seus primeiros passos no Fola Esch, mas aos 20 anos seguiu ao Standard de Liège. Era uma das referências no time que conquistou quatro títulos do Campeonato Belga e chegou às semifinais da Copa dos Campeões e da Recopa Europeia na década de 1960. Pelo clube, o luxemburguês disputou 337 partidas e anotou 36 gols, antes de seguir ao Royal Antuérpia após 11 anos de serviços prestados. Já na seleção, era um dos cérebros na campanha da Euro 1964, ajudando a ditar o ritmo no meio-campo do time histórico. Foi eleito o jogador do ano no país em quatro oportunidades e em outras duas o esportista do ano, prêmio raro entre os futebolistas de Luxemburgo.

Antoine Kohn, o melhor técnico do país

Atacante de talento, Antoine Kohn rodou pela Europa em seus tempos de jogador. Começou no Jeunesse d’Esch, ganhou duas vezes a Copa da Alemanha com o Karlsruher, defendeu o Basel, passou por vários clubes da Holanda. Até mesmo acumulou sete jogos pela seleção luxemburguesa entre 1953 e 1965. Ainda assim, suas maiores marcas aconteceram à beira do campo, como técnico. “Spitz” se aposentou no Twente e por lá assumiu a prancheta. Campeão da Copa da Holanda de 1977, manteve os alvirrubros nas cabeças da Eredivisie e alcançou a final da Copa da Uefa de 1975, derrotado pelo excelente Borussia Mönchengladbach após deixar a Juventus pelo caminho. Seu moral era tamanho na época que foi cotado a substituir Rinus Michels no Barcelona, o que não se concretizou. Deixou Enschede em 1979 e passou por outras equipes até desembarcar no Ajax em 1984, com assistente de Aad de Mos. Com os Godenzonen, ajudou a desenvolver diferentes talentos, além de trabalhar também com Johan Cruyff e Leo Beenhakker, em período marcado principalmente pela conquista da Recopa Europeia em 1987.

 

 

Daniele Zoratto, o luxemburguês azzurri

Daniele Zoratto é uma das faces de Luxemburgo feita por imigrantes. Sua família tinha origens italianas, mas mudou-se ao país em busca de uma oportunidade de vida. Seu pai era operário e a mãe trabalhava em um bar quando Daniele nasceu, em 1961, na cidade de Esch-sur-Alzette. Depois de nove meses, o bebê foi mandado para a casa de uma tia na Itália, para crescer em suas raízes. O futebol logo se tornou um caminho e o meio-campista passou por diversos clubes das divisões de acesso, até se destacar na década de 1980, sobretudo com o Brescia. Em 1989, se transferiu ao Parma e auxiliou no acesso inédito dos gialloblù à Serie A. Disputou mais de 100 jogos pelo clube, dando experiência à meia-cancha do time que conquistou a Recopa Europeia e a Copa da Itália na primeira metade dos anos 1990 – titular em ambas as finais. Também foi convocado à seleção por Arrigo Sacchi, disputando um jogo contra a Suíça nas Eliminatórias para a Copa de 1994. Depois de se aposentar, virou técnico e desde 2010 treina as seleções de base da Itália, com passagens por diferentes categorias.

Guy Hellers, a bandeira de um clube

A década de 1980 teve resultados relativamente modestos à seleção de Luxemburgo. Tirando as vitórias sobre Tailândia e Coreia do Sul em um torneio amistoso na Ásia em 1980, o Grão-Ducado acumulou pancadas. Uma rara exceção aconteceu em outubro de 1989, quando os luxemburgueses foram capazes de empatar por 1 a 1 contra a Bélgica em Bruxelas, pelas Eliminatórias da Copa – seu primeiro ponto desde a vitória sobre Portugal em 1961. Do outro lado, estavam estrelas do calibre de Enzo Scifo, Jan Ceulemans e Michel Preud’Homme. Uma noite prazerosa a um personagem em especial: o meio-campista Guy Hellers, autor do gol dos visitantes, aos 43 do segundo tempo. Então com 25 anos, o luxemburguês construiu uma das carreiras mais respeitáveis entre os atletas de seu país. Começou no Metz, mas em 1983 seguiu ao Standard Liège. Permaneceu 17 anos defendendo o clube belga, até 2000. O momento compreendeu uma das maiores secas dos Rouges, que conquistaram apenas uma Copa da Bélgica no período. Mesmo assim, Hellers está entre os maiores ídolos da agremiação, com 477 partidas disputadas e a braçadeira de capitão no final da carreira. Depois, seria ainda técnico da seleção entre 2006 e 2010.

A Euro 1996

Demorou mais de três décadas para Luxemburgo voltar a ganhar um jogo de eliminatórias da Eurocopa. Entre a histórica campanha na Euro 1964 e o novo momento às vésperas da Euro 1996, os luxemburgueses até acumularam alguns resultados honrosos, empatando com Polônia (1967), Iugoslávia (1971), Suécia (1979) e Escócia (1987), ou mesmo perdendo por 3 a 2 diante da Alemanha tricampeã mundial em outubro de 1990. Ainda assim, não eram vitórias. O Grupo 5 no caminho ao torneio que seria realizado na Inglaterra poderia ser dividido em dois pelotões: os candidatos à classificação e aqueles que não tinham qualquer chance. O Grão-Ducado, obviamente, estava no segundo, acompanhado por Belarus e Malta. Por outro lado, se engalfinhariam pelas duas vagas República Tcheca, Holanda e Noruega.

O começo da campanha de Luxemburgo foi bem ruim. Perdeu os dois jogos para a Holanda, os dois para a Noruega, o primeiro para Belarus. Uma ponta de alegria aconteceu em fevereiro de 1995, quando Manuel Cardoni anotou o gol da vitória por 1 a 0 sobre Malta, em Ta’ Qali, encerrando um hiato de 15 anos sem triunfos do Grão-Ducado. Já na sexta rodada, em junho de 1995, os Leões Vermelhos recebiam a República Tcheca sem muitas perspectivas. Apesar do vexatório empate com Malta fora de casa, os tchecos chegaram a somar quatro pontos contra os holandeses e se aproximavam da classificação. Até que o Estádio Josy Barthel, diante de parcas 1.030 testemunhas, sediasse outro milagre.

Os anfitriões seguraram o forte time adversário, que tinha nomes como Tomas Skuhravy, Pavel Kuka e Patrik Berger no setor ofensivo. O gol da vitória por 1 a 0 saiu aos 44 do segundo tempo. Em um lance de raça, no campo enlameado pela chuva pesada que caía, o veterano Guy Hellers se infiltrou na área e bateu na saída do goleiro Petr Kouba. Ao apito final, rolou até mesmo uma invasão de campo, com torcedores abraçando os jogadores e se enlouquecendo com o resultado. Era a primeira vitória de Luxemburgo em seu território desde 1973. Uma espera de 22 anos que valeu a pena. Depois, no reencontro em em Praga, os tchecos venceram por 3 a 0 e asseguraram a primeira colocação do grupo, o que forçou a Holanda à repescagem e deixou a Noruega fora da Euro por conta do saldo de gols. Com a adição de jovens como Karel Poborsky e Pavel Nedved, a equipe de Dusan Uhrin seria vice-campeã continental. Já os luxemburgueses ganhariam o terceiro jogo nas eliminatórias, algo histórico. No reencontro com Malta, a vitória por 1 a 0 veio graças ao tento de Luc Holtz, o atual técnico da seleção.

Paul Philipp, o cara que mais simboliza a seleção

A trajetória de Paul Philipp como jogador já seria suficiente para torná-lo representativo. O meio-campista, que fez a maior parte da carreira na Bélgica, defendeu a seleção de Luxemburgo por 14 anos. Disputou 54 partidas e anotou quatro gols, um deles na vitória sobre o México em 1969. Três anos depois de se aposentar, virou técnico, assumindo a equipe nacional em 1985. E o veterano permaneceu por 16 anos na direção dos luxemburgueses, registrando a campanha histórica nas eliminatórias da Euro 1996. Em 2001, deixou a prancheta. Ainda assim, não conseguiria se afastar do futebol local. Virou presidente da federação local em 2004, ocupando o cargo até hoje. Somando as três passagens, já dedicou 44 de seus 67 anos de vida à seleção.

Jeff Strasser, o homem das marcas

Nascido em Mondorf-les-Bains, Jeff Strasser era um zagueiro de presença física e inteligência em seu trabalho. Não à toa, tornou-se um dos jogadores luxemburgueses mais regulares da história. Começou no Metz, onde foi vice-campeão francês em 1998. A boa forma o levou ao Kaiserslautern, onde permaneceu como titular por três temporadas, até atrair o interesse do Borussia Mönchengladbach. Então, tornou-se um símbolo dos Potros, superando as 100 partidas disputadas na Bundesliga com o clube. Depois disso, rodou. Mas se manteve importante à seleção de Luxemburgo e, com 17 anos de convocações, alcançou as 98 partidas disputadas, estabelecendo o recorde do país – igualado recentemente por seu pupilo, Mario Mutsch. Apesar de suas funções defensivas, Strasser anotou três gols. Depois de se aposentar, virou técnico do Fola Esch e também teve uma passagem pelo Kaiserslautern.

A vitória sobre a Suíça

A maioria absoluta dos resultados positivos de Luxemburgo aconteceu em seus domínios. E, neste século, o triunfo mais expressivo fora de casa veio em setembro de 2008, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Os luxemburgueses viajaram até Zurique para encarar a Suíça. Ottmar Hitzfeld não contava com todos os seus principais jogadores, mas escalou um time respeitável, com Diego Benaglio, Hakan Yakin, Alexander Frei, Gokhan Inler e outras referências. Sucumbiram diante dos nanicos, treinados pelo velho ídolo Guy Hellers. O primeiro gol foi anotado por Jeff Strasser, aos 27 minutos, cobrando falta. Pouco antes do intervalo, Blaise Nkufo empatou. Já aos 42 do segundo tempo, a apoteose veio com Alphonse Leweck, definindo a vitória por 2 a 1. Em nova cobrança de falta, Strasser enganou todo mundo ao lançar o companheiro, que saiu de frente para o gol e não perdoou. Era só o começo da competição, mas a comemoração ensandecida parecia a de quem iria à África do Sul. Foi a terceira vitória de Luxemburgo na história das Eliminatórias da Copa, a primeira desde 1972, quando havia superado a Turquia. Uma seca de 36 anos que falava por si, ainda mais por concentrar míseros dois empates (Bélgica, em 1989, e Islândia, em 1993) neste intervalo todo. No fim das contas, apesar dos pontos perdidos, os suíços foram ao Mundial e até aprontaram na estreia contra a Espanha.

Miralem Pjanic, o luxemburguês esquecido

Luxemburgo, assim como outros países da Europa Central, recebeu diversos refugiados durante a Guerra dos Bálcãs. Miralem Pjanic foi um desses. De origem muçulmana, o garoto nasceu em Tuzla, cidade bósnia na então Iugoslávia. Com o estouro dos conflitos, a família se mudou à pequena nação. E por lá o talentoso meio-campista encontrou um caminho para se integrar através do futebol. Passou pelas categorias de base do Dudelange, até ser recomendado ao Metz. Já aos 16 anos, fez parte da seleção sub-17 de Luxemburgo. O país recebeu o Campeonato Europeu da categoria e o maestro anotou o único gol da equipe na competição. Também ficaria famoso por fazer quatro tentos num empate por 5 a 5 com a Bélgica. Pjanic chegou a atuar ainda pela seleção luxemburguesa sub-19, mas, no nível principal, optou pela Bósnia. Quando marcou um belo gol de falta contra a antiga equipe, em amistoso realizado em 2016, não comemorou em respeito ao local que o acolheu.

Dudelange corta as asas do Red Bull Salzburg

Nesta temporada de 2018/19, o Red Bull Salzburg completou 11 tentativas frustradas de se classificar à fase de grupos da Liga dos Campeões. E uma das eliminações mais emblemáticas aconteceu pelas mãos do próprio Dudelange. Foi em 2012/13, pela segunda fase preliminar. O representante de Luxemburgo já tinha enfiado uma sapatada no Tre Penne de San Marino na etapa anterior, quando surpreendeu os Touros Vermelhos no Estádio Jos Nosbaum. O implacável Aurélien Joachim, um dos maiores artilheiros da seleção, anotou o gol da vitória por 1 a 0. Mas emoção maior ficou guardada para a Red Bull Arena. Os luxemburgueses saíram em vantagem, tomaram a virada e, no início do segundo tempo, deram o troco para retomar a dianteira no placar. Então, os austríacos passaram a pressionar e protagonizaram a terceira virada da noite, com mais dois gols. Ainda assim, a vitória por 4 a 3 era insuficiente, com os tentos fora classificando os visitantes. Os anfitriões tinham vários jogadores que figuraram na seleção austríaca durante os últimos anos. Na etapa seguinte, contudo, o Dudelange seria eliminado pelo Maribor.

O Progrès Niederkorn apronta na Liga Europa

O feito do Dudelange em 2018 acaba eclipsando outro clube de Luxemburgo que fez excelentes campanhas nas duas últimas edições da Liga Europa. O Progrès Niederkorn não chegou tão longe, mas teve a honra de derrubar gigantes. Em 2017, os aurinegros foram os responsáveis por despachar o Rangers, que voltava aos torneios continentais após cinco anos, desde sua falência. Apesar da vitória por 1 a 0 em Glasgow, os Teddy Bears foram derrotados por 2 a 0 no Grão-Ducado. A surpresa seria eliminada na fase seguinte, contra o AEL Limassol. Já nesta Liga Europa 2018/19, o Progrès começou superando o Gabala, de campanhas recentes na fase de grupos. Depois, mais peso ao mandar para casa o tradicionalíssimo Honvéd, antiga potência da Hungria. E venderia caro a eliminação para os russos do Ufa, com uma derrota por 2 a 1 e um empate por 2 a 2. Curiosamente, se passasse, faria o jogo dos playoffs decisivos justamente contra o Rangers.

Os ídolos do Metz

Percebeu a menção recorrente ao Metz nos trechos acima? Pois os grenás se tornam enormes incentivadores ao futebol em Luxemburgo. A cidade na região de Moselle é o centro mais importante nas proximidades do Grão-Ducado e fica a cerca de 60 quilômetros da capital do pequeno país. Assim, torna-se natural que a equipe busque os talentos luxemburgueses ou mesmo os leve para evoluir em suas categorias de base. A lista de jogadores representativos que passaram pela agremiação é imensa: Nico Braun, Guy Hellers, Robby Langers, Johny Léonard, Jeff Strasser, Carlo Weis, Fernand Jeitz, Mario Mutsch – todos eles com trajetórias respeitáveis na seleção local. A aposta mais recente é em Vicente Thill. O meia se tornou o primeiro jogador nascido em 2000 a atuar na Ligue 1. Aos 18 anos, já soma 16 partidas pela seleção. Nesta temporada, foi emprestado ao Pau, da terceirona francesa. Seus irmãos mais velhos, aliás, também são profissionais e participaram das campanhas recentes do Progrès Niederkorn na Liga Europa. Olivier Thill, o do meio, foi levado pelo Ufa e disputará o Campeonato Russo, aos 21 anos.

O 2017 mágico da seleção

Até pouco tempo, Luxemburgo nunca tinha conquistado mais de três vitórias em uma mesma década. Um sinal de suas pretensões baixíssimas que mudou a partir de 2011. Independentemente dos encontros serem mais frequentes, a sequência é ótima. A equipe bateu Eslováquia (Amistoso, 2011), Albânia (Eliminatórias da Euro, 2011), Macedônia (Amistoso, 2012), Lituânia (Amistoso, 2013), Irlanda do Norte (Eliminatórias da Copa, 2013), Macedônia (Eliminatórias da Euro, 2015) e Grécia (Amistoso, 2015), além de ter no cartel o empate por 1 a 1 com a Itália de Gianluigi Buffon, Andrea Pirlo e outras estrelas às vésperas da Copa de 2014. Isso até viver a uma temporada excepcional em 2017. Pela primeira vez, foram três triunfos em um mesmo ano. O primeiro deles aconteceu em junho, em amistoso contra a Albânia. Dois meses depois, despacharam Belarus nas Eliminatórias da Copa. Já em novembro, mais um amistoso bem sucedido contra a Hungria. O resultado mais lembrado, de qualquer forma, não rendeu vitória, mas valeu mais do que essas outras.

Diante do Stade de France lotado, o Grão-Ducado segurou o empate por 0 a 0 contra a França. O time de Didier Deschamps estava completo, com seis jogadores que seriam titulares na conquista da Copa do Mundo de 2018. O que soou como desastre aos Bleus foi comemorado como um título pelos nanicos. Os franceses acertaram a trave com Antoine Griezmann e Paul Pogba, enquanto Gerson Rodrigues também carimbou o poste de Hugo Lloris – além de ter um lance perigosíssimo anulado por um impedimento mal marcado. Já o grande herói foi o goleiro Jonathan Joubert, veteraníssimo da equipe, capaz de várias defesas decisivas. Ao apito final, a comemoração gloriosa dos visitantes emocionou.

E, se não terá uma França pela frente, é bem possível que o aproveitamento de 2018 supere 2017. Luxemburgo venceu dois dos quatro jogos que disputou no primeiro semestre, contra Malta e Geórgia, além de ter perdido para a Áustria e empatado com Senegal. Considerando o modelo acessível da Liga das Nações, em que o Grão-Ducado encara um grupo com Moldávia, San Marino e Belarus, dá para ir além muito além das três vitórias no ano e sonhar com as fases finais do novo torneio – quem sabe, uma vaguinha na Euro 2020 também. O vento sopra a favor.

Se a fase dos clubes e os resultados recentes oferecem confiança, a atual seleção de Luxemburgo possui uma mescla interessante. O elenco treinado por Luc Holtz conta com diversos jogadores atuando em ligas razoáveis da Europa. Há atletas espalhados por Bélgica, Polônia, Suíça, Suécia, França e Rússia. O campeonato local ainda é a base principal, e a experiência continental dos times pesa a favor. Além disso, há jovens despontando mesmo nas divisões de acesso da Alemanha e da Inglaterra.O alto número de migrantes, sobretudo com origens lusitanas ou de países do leste europeu, auxilia a oferecer o pé de obra entre aqueles que veem o futebol como um elemento de integração. Não é diferente do processo que impulsiona outros países da região. A diferença é que, considerando os patamares nunca antes atingidos pelos luxemburgueses, o salto evolutivo dessa integração pode ser ainda mais perceptível. A lista de 25 orgulhos pode engrossar.