Nesta onda de treinadores estrangeiros que invadem o futebol brasileiro, o Atlético Mineiro apostou em um dos nomes mais promissores do continente – depois de sondar outras tantas alternativas. Rafael Dudamel alavancou a seleção venezuelana nos últimos anos e conquistou excelentes resultados, sobretudo ao arrematar a formação de jogadores na base da Vinotinto. Ainda é um técnico inexperiente, que pela primeira vez deixará o seu país. Mas que recebeu grande apoio da torcida atleticana em seu desembarque, tomando as rédeas neste momento de reconstrução que vive o clube. Vem com contrato de dois anos.

Dudamel possui apenas dois trabalhos como treinador de clubes, ambos no próprio Campeonato Venezuelano. Dirigiu o Estudiantes de Mérida e o Deportivo Lara, com resultados modestos, sem passar de um vice na Copa Venezuela de 2015. Muito mais notável é o que realizou na seleção venezuelana, principalmente ao longo do período em que conciliou o time principal e o sub-20. Vice-campeão no Mundial Sub-20 de 2017, o comandante pôde moldar a base que estaria a seu serviço no nível adulto. Promoveu promessas e formou uma equipe competitiva, que terminou em alta as Eliminatórias da Copa de 2018. Além do mais, por duas vezes alcançou as quartas de final da Copa América, em 2016 e 2019.

Por aquilo que tinha em mãos na Venezuela, Dudamel se preocupava muito mais em formar um time que fizesse frente aos oponentes do que propriamente em exibir um futebol vistoso. Durante sua passagem pela Vinotinto, o comandante conseguiu formar um sistema defensivo sólido e uma equipe vertical no ataque, que funcionava assim especialmente contra os adversários mais cascudos. Diversos jogadores talentosos floresceram sob as ordens do ex-goleiro, com o protagonismo compartilhado entre o centroavante José Salomón Rondón e o goleiro Wuilker Fariñez. Todavia, alguns bons nomes também não tiveram o espaço aguardado nos últimos meses, sem um encaixe ideal na proposta do comandante.

Acima disso, Dudamel indicara certos atritos com o comando do futebol no país, inclusive pelo uso político dos resultados – insatisfeito com os diferentes atores envolvidos na intrincada situação venezuelana, oposição ou não. Ainda assim, se mostrava comprometido com o projeto rumo ao Mundial de 2022. Já na última sexta-feira, o treinador publicou uma carta encerrando sua passagem de quase quatro anos pela Vinotinto, reafirmando as relações deterioradas, mas acreditando que deixou boas condições ao seu sucessor. O Atlético Mineiro, além disso, se colocava como um desafio atrativo.

Em Belo Horizonte, Dudamel poderá se provar em uma liga forte no continente e em um clube de massa. A situação do Galo ainda se mostra arenosa, diante das vendas realizadas pela diretoria e de uma reposição que por enquanto não está à altura. O venezuelano vem para ser a principal cabeça neste projeto, que se pautará nos jovens. Resta vez qual será a paciência do comando com seu novo treinador, caso os resultados não sejam imediatos. Ao confiar em Dudamel, os atleticanos desejam ideias novas e também uma valorização dos pratas da casa. Ambas as missões dependem de garantias e tranquilidade.

O técnico não será a única solução ao Atlético, sobretudo pelas lacunas que o elenco evidenciou durante os últimos meses. Os mineiros viram seu plantel definhar desde a eliminação precoce na Libertadores e terminaram o ano de maneira frustrante – em temporada só atenuada pela crise imensurável nos rivais. Não é isso que deve aliviar as críticas em algumas escolhas realizadas pela direção, ao bancar alguns jogadores que não deram certo e que estavam presentes apenas por nome. O mesmo vale à questionável decisão de bancar Levir Culpi mais uma vez, diante dos muitos problemas da equipe.

Taticamente, Dudamel pode agregar ao Atlético Mineiro. O coletivo da Venezuela se saía muito bem e apresentava seu encaixe. Também será um treinador para tirar o melhor de alguns jogadores, principalmente os mais jovens. Mas o respeito que o ex-goleiro possuía no futebol venezuelano, por sua grande história dentro de campo, não fará o mesmo efeito em Belo Horizonte. Da mesma forma, a adaptação à cultura de futebol no Brasil e ao próprio estilo de jogo podem demandar tempo. Não encontrará a calmaria que possuía na rotina de seleção – longe disso, até pelo calendário caótico da CBF.

O Atlético Mineiro indica compreender tudo isso, ao menos com o contrato de dois anos a Dudamel. O tempo se sugere como um voto de confiança e uma proteção às intempéries destes primeiros meses, quando o Campeonato Mineiro poderia se colocar como uma pressão desnecessária. O vínculo, de qualquer maneira, não é suficiente. O clube precisa oferecer também reforços e blindagem ao comandante neste início de caminhada, caso aposte mesmo em suas virtudes. A diferença entre as verdadeiras intenções ou uma mera tentativa de agradar a torcida virá com o tempo. Dudamel depende disso, arregaçando também as mangas para comprovar as suas credenciais.