Argélia e Senegal buscam uma importante estrela às suas seleções nesta sexta-feira, no Cairo. As duas seleções se enfrentam por um título da Copa Africana de Nações que será muito significativo, independentemente de quem for o vencedor. Os argelinos tentam sua segunda taça, a primeira desde 1990. Já os senegaleses almejam um feito inédito, em sua segunda final, após o vice-campeonato em 2002. Aproveitando a deixa, relembramos os dois momentos históricos anteriores: as Raposas do Deserto de 1990 e os Leões de Teranga de 2002, em campanhas que marcam gerações fantásticas de ambos os países.

Senegal e a afirmação na CAN 2002

A Copa do Mundo de 2002 marca o ápice do futebol de Senegal. A geração que combinava um futebol de velocidade, qualidade técnica e força física surpreendeu o planeta durante a estreia contra a França, mas não se contentou apenas com isso, ao se tornar a segunda seleção africana da história a alcançar as quartas de final do torneio. A quem acompanhara a Copa Africana de Nações meses antes, porém, aquela campanha não era uma novidade. Ele só confirmava uma equipe que parecia fadada ao sucesso, apesar do vice-campeonato continental no torneio disputado em Mali.

É verdade que o início da ascensão de Senegal era ainda anterior a isso. O país fez algumas campanhas dignas na CAN entre 1990 e 1994, chegando a uma semifinal e a duas quartas de final. Seu treinador no período era Claude Le Roy, o mesmo que faturou o título continental com Camarões em 1988. Ausente em 1996 e 1998, os Leões de Teranga retornaram à competição em 2000, para bater outra vez entre os oito melhores do continente. Ali marcou-se o fim do ciclo de Peter Schnittger, alemão que dirigia os senegaleses desde 1995. Ele passou o bastão a Bruno Metsu, o homem que realmente revolucionou a equipe nacional.

Metsu havia sido um jogador de carreira média na Ligue 1 e também não emplacou nos clubes da elite francesa como treinador. Era ele, aliás, o comandante do Valenciennes após o escândalo de manipulação de resultados que também rebaixou o Olympique de Marseille. Em 2000, teve sua primeira chance em uma seleção e passou rapidamente por Guiné, até ganhar o convite para assumir Senegal. O currículo daquele francês de 46 anos e cabelos esvoaçantes não o referendava tanto assim. Mas seria ele o responsável por mudar os senegaleses de patamar, especialmente porque entendeu o futebol local.

Desde sua chegada, Metsu contribuiu para melhorar as estruturas da seleção de Senegal. E ele assumiu riscos. Começou a chamar de volta para os Leões de Teranga vários jogadores que haviam sido afastados por indisciplina, bem como apostou em novatos. O melhor exemplo desta política seria El Hadji Diouf. O atacante começava a despontar na Ligue 1, mas já acumulando problemas por seu gênio. O treinador seria responsável por bancá-lo na seleção e ofereceu a primeira convocação ao atacante. Viraria a estrela de um elenco que começava a construir sua história internacional.

“Metsu quis saber imediatamente como trabalhávamos, conhecer a mentalidade dos senegaleses. Tinha princípios muito simples: ele nos deu liberdade real, de ação e de fala. Bruno havia entendido que era inútil nos trancar em uma estrutura muito rígida. Estávamos fazendo festa, sim, e às vezes com ele. Costumávamos ficar acordados até tarde nos quartos para conversar, mas havia regras e horários a seguir. Ele gritava quando necessário. Bruno encontrou a dosagem certa”, contou o defensor Ferdinand Coly, ao site Jeune Afrique. “O ambiente às vezes era explosivo. O elenco tinha guerreiros e artistas, um pouco imprevisíveis, como Diouf. Nos treinos, tivemos brigas verbais e até físicas”.

Senegal encontrou um caminho relativamente fácil para se classificar à CAN 2002. Em um grupo acessível, precisou de apenas uma vitória para carimbar seu passaporte. O primeiro sinal concreto da ascensão sob as ordens de Metsu veio ao longo das Eliminatórias para a Copa de 2002. Os Leões de Teranga superaram Benin na preliminar, antes de serem sorteados em um grupo duríssimo contra Marrocos, Egito, Argélia e Namíbia. Apenas o líder do pentagonal se classificaria. Pois os senegaleses conseguiram prevalecer. Enquanto a defesa sofreu apenas dois gols em oito compromissos nesta fase, Diouf contribuiu com oito gols. Apesar disso, a classificação seria apertada. Dependeu da vitória por 1 a 0 no confronto direto com os marroquinos, além da goleada por 5 a 0 contra os namibianos na rodada final. A vaga inédita no Mundial foi garantida graças ao saldo de gols.

Neste momento, a consideração de Metsu em Senegal era imensa. Mesmo reintegrando jogadores intempestivos, ele não precisava ser disciplinador para manter a ordem. Conseguia o respeito através de sua sensibilidade e de seu conhecimento, enquanto mantinha a união em busca de um ideal maior. “Trabalhamos tão duro quanto qualquer time no mundo, mas você não precisa ser um grande técnico para mandar a equipe no 4-4-2, no 4-3-3 ou sei lá o que, porque qualquer um pode fazer isso. Em contrapartida, canalizar a energia e a força na mesma direção, isso é mais difícil. Motivar os jogadores, dar a eles confiança, torná-los mentalmente mais fortes… O futebol não é apenas sobre táticas e algumas pessoas tendem a se esquecer disso”, declarou Metsu em 2012, um ano antes de sua morte, a uma rádio senegalesa. “Acredito muito nos valores humanos. Se você não ama seus jogadores, não consegue os resultados. É sobre os pequenos detalhes que um treinador pode trazer, o impulso que você dá aos jogadores e o que eles entregam a você”.

A primeira oportunidade de apresentar esse algo a mais em um grande cenário seria a Copa Africana de 2002, realizada no Mali. O único jogador acima dos 30 anos era Amara Traoré, atacante veterano das boas campanhas continentais no início da década de 1990. A espinha dorsal seria formada por atletas na casa de seus 25 anos, com alguns talentos abaixo disso. Além do mais, a experiência no futebol francês contava bastante, com 19 atletas jogando nas divisões principais do país, enquanto outros dois vinham do Campeonato Suíço. A exceção ficava por conta de Omar Diallo, o goleiro reserva, em atividade no Marrocos. Além disso, embora 20 convocados houvessem nascido no território senegalês, muitos deles fizeram parte da geração que se mudou à França ainda na infância ou na adolescência. O comandante teve o mérito de agregar estes futebolistas.

O sucesso na CAN 2000 não seria tão bem aproveitado assim por Metsu. Dos 22 jogadores, somente sete haviam participado daquela caminhada até as quartas de final. A maioria absoluta tinha recebido a primeira convocação ou ao menos uma sequência maior na seleção a partir da chegada do treinador francês. Ele observava bem o rendimento dos senegaleses no Campeonato Francês e, assim, pinçou futuras estrelas dos Leões de Teranga. Também se viu beneficiado pela ascensão de alguns atletas em clubes importantes, como Tony Sylva e Souleymane Camara (Monaco), Aliou Cissé (PSG) e Khalilou Fadiga (Auxerre). Já a maior contribuição vinha do Lens, que cumpria ótima campanha na Ligue 1 e seria vice-campeão nacional. Lá atuavam El Hadji Diouf, Pape Sarr, Ferdinand Coly e Papa Bouba Diop.

Como de praxe a tantas seleções na África, Senegal teve seus problemas quanto ao acerto das premiações pagas as jogadores. A insatisfação com os valores oferecidos pela federação atrapalhou a preparação, mas houve um acordo antes do embarque a Mali, em negociações encabeçadas pelo meio-campista Salif Diao. E os Leões de Teranga não eram exatamente favoritos em seu grupo na CAN 2002, sorteados ao lado de seleções mais tradicionais na competição. Pegariam Egito, Tunísia e Zâmbia. Teriam que se impor jogo a jogo, especialmente por sua qualidade defensiva e pela força de seu meio-campo.

A vitória por 1 a 0 sobre o Egito na estreia se tornou um alívio. Essam El-Hadary ia segurando o resultado, mas falhou em um cruzamento e permitiu que Lamine Diatta marcasse o gol da vitória aos 37 do segundo tempo. O roteiro se repetiu no segundo encontro, diante de Zâmbia. Souleymane Camara, de 19 anos, era uma aposta de Metsu. O garoto saiu do banco e garantiu outro triunfo por 1 a 0, desta vez aos 45 do segundo tempo. Assim, o empate por 0 a 0 com a Tunísia bastou não apenas para a classificação às quartas de final, como também para garantir a liderança do grupo.

A sequência de Senegal na competição guardou o embate contra a República Democrática do Congo, que via seus talentos eclodirem especialmente no ataque, onde despontavam Lomana LuaLua e Shabani Nonda. Este, porém, desfalcaria os Leopardos nas quartas de final. Melhor aos Leões de Teranga, que conseguiram se impor com a vitória por 2 a 0. A partida começou em um ritmo intenso e, por isso, foi importante que Salif Diao abrisse o placar aos 30 minutos. Durante o segundo tempo, os congoleses pressionaram bastante e o goleiro Tony Sylva precisou se agigantar sob os paus. Até que, aos 41, Souleymane Camara puxasse o contragolpe para Diouf confirmar a contagem.

Aparecer nas semifinais já era um feito histórico a Senegal. E os Leões de Teranga seriam azarões contra a Nigéria, que já não possuía a força de anos antes, mas continuava com um elenco respeitável. Dirigida por Shaibu Amodu, a equipe possuía a experiência de Jay-Jay Okocha, George Finidi, Nwankwo Kanu, Sunday Oliseh, Taribo West e Victor Ikpeba, ao mesmo tempo em que via a eclosão de Joseph Yobo, Julius Aghahowa e Yakubu. Também classificadas a mais uma Copa do Mundo, as Super Águias ainda carregavam o selo de algozes dos senegaleses, após a classificação na Copa Africana de 2000.

No entanto, Senegal havia mudado bastante desde então. E os dois times proporcionaram um jogo de alta voltagem, o melhor daquela edição da CAN. Durante os primeiros minutos, as traves de ambos os lados já tinham sido carimbadas. Já aos 35, a situação pareceu se complicar aos senegaleses, com a expulsão de Pape Sarr. Apesar do domínio da Nigéria a partir de então, os Leões de Teranga levavam perigo nos contragolpes puxados por Diouf. Conseguiram sair em vantagem aos nove minutos do segundo tempo, graças a um escanteio que Papa Bouba Diop completou. Só que as Super Águias também sufocaram e, apesar da resistência de Tony Sylva, Aghahowa aproveitou um desleixo da defesa para empatar a dois minutos do fim. A definição seguiu à prorrogação.

Então, os contragolpes de Senegal fizeram a diferença. Salif Diao roubou a bola, tabelou com Diouf e anotou o gol que garantiu a vitória por 2 a 1 no sétimo minuto do primeiro tempo extra. Mas não que as provações tenham acabado por aí. No 117° minuto da partida, a Nigéria teve um pênalti marcado a seu favor. Tony Sylva não achou a bola, mas Wilson Oruma carimbou o poste. A briga pelo rebote ainda rendeu a expulsão de Aghahowa. A partir daquele instante, as esperanças de uma reação nigeriana estavam dizimadas. Pela primeira vez na história, os Leões de Teranga alcançavam a final da Copa Africana de Nações.

A decisão guardava o encontro com outro peso pesado da Copa Africana de Nações. Camarões havia conquistado o título em 2000, assim como preservou boa parte da geração que levara o ouro olímpico em Sydney. Samuel Eto’o era a grande referência de uma equipe que também contava com Rigobert Song, Geremi Njitap, Marc-Vivien Foé e outros notáveis dos Leões Indomáveis. Para sorte de Senegal, a lesão de Patrick M’Boma trazia melhores perspectivas aos azarões na peleja de Bamako.

A velocidade dos ataques não conseguia superar a solidez das defesas e o placar zerado se arrastava. Durante o segundo tempo, Pius Ndiefi teve uma chance de ouro para dar a vantagem a Camarões, mas carimbou a trave. O desgaste físico pesava e, após 120 minutos em que o 0 a 0 perdurou, a definição ficaria para os pênaltis. A sorte parecia sorrir a Senegal, quando Tony Sylva pegou a cobrança de Pierre Womé e Ferdinand Coly deixou o time em vantagem. Patrick Suffo e Khalilou Fadiga marcaram na sequência. Porém, a imprecisão pesou contra os Leões de Teranga. Lauren e Geremi botaram os camaroneses em vantagem, depois que Amady Faye e El Hadji Diouf desperdiçaram seus chutes. A esperança brotou outra vez quando Sylva espalmou o arremate de Rigobert Song, o quinto de Camarões. O que pouco valeu quando Aliou Cissé, capitão senegalês, partiu à marca da cal e fechou a série. Bateu fraco, a meia altura, e permitiu que o goleiro Alioum Boukar defendesse com as pernas. Com o triunfo por 3 a 2, os Leões Indomáveis confirmavam mais um título continental.

A decepção dos senegaleses estava evidente em seus rostos. Muitos jogadores choraram em campo, diante da derrota. Entretanto, não seria isso que os tornaria párias. Muito pelo contrário, os jogadores seriam tratados como heróis no desembarque em Dacar. Metsu seguia adorado. E o prestígio se tornaria importante para que Senegal causasse tamanho impacto quatro meses depois, quando disputou a Copa do Mundo. Todos os 22 jogadores presentes na Copa Africana também viajaram ao Mundial. A caminhada até as quartas de final valeria o reconhecimento àquela geração fantástica. E o antigo capitão Aliou Cissé, técnico que conduziu os Leões de Teranga de volta à Copa em 2018, agora terá a chance de se redimir em uma nova decisão de CAN, 19 anos depois.

Argélia e o prêmio à geração dourada na CAN 1990

Pela qualidade de seus jogadores, muitos deles atuando no futebol francês, a Argélia sempre teve potencial para aparecer entre as melhores seleções da África. No entanto, esta afirmação demorou a acontecer. Apesar da importância do time dos anos 1950 na luta pela independência, disputando amistosos ao redor do mundo para conscientizar as pessoas sobre o movimento de libertação nacional, a entrada das Raposas do Deserto na Copa Africana já não coincidiu com o auge de seus craques no período. A primeira campanha no torneio aconteceu em 1968, sem que os argelinos passassem da fase de grupos. A grandeza só se tornou evidente a partir da década de 1980.

A Argélia que se classificou a duas Copas do Mundo, em 1982 e 1986, também se tornou uma potência da CAN. O primeiro sinal disso veio em 1980, na segunda participação do país no torneio continental. Ídolo do Kabylie em seus tempos de jogador, Mahieddine Khalef também ascendia como técnico do clube, um dos principais do país. Graças a isso, acumulou o comando da seleção nacional ao lado do iugoslavo Zdravko Rajkov. Tinham sob suas ordens uma geração jovem, mas extremamente talentosa, que se baseava na liga local. O capitão Ali Fergani despontava como a esteio daquele grupo. Ainda assim, a dose maior de talento se concentrava em dois jovens de 21 anos: Lakhdar Belloumi e Rabah Madjer, os craques que guiariam os sucessos ao longo da década. Belloumi já era o armador titular, enquanto Madjer costumava sair do banco.

Mesmo sem tanta tradição e desfalcada de seu jogador mais badalado, o meio-campista Ali Bencheikh, a Argélia se impôs na CAN 1980. Terminou na primeira colocação de seu grupo, que contava com Marrocos, Gana e Guiné. Já nas semifinais, os argelinos ganharam o clássico contra o Egito. Os Faraós abriram dois gols de vantagem no placar, mas as Raposas do Deserto arrancaram o empate por 2 a 2 e garantiram a classificação nos pênaltis, graças ao triunfo por 4 a 2. O desgaste, contudo, pesou na decisão contra a anfitriã Nigéria. Treinadas por Oto Glória, as Super Águias conquistaram a vitória por 3 a 0, com dois gols de Segun Odegbami e outro de Muda Lawal. Pela primeira vez, os nigerianos ergueram a taça continental. Os argelinos precisaram esperar o seu momento.

A bonança, de qualquer maneira, não demorou a se notar na Argélia. O troco sobre a Nigéria aconteceu no confronto decisivo pelas Eliminatórias da Copa de 1982, que valia a classificação. As Raposas do Deserto venceram os dois encontros, inclusive em Lagos, confirmando a classificação inédita ao Mundial. Belloumi terminaria o ano como o melhor jogador do continente e outros jogadores importantes ganhavam espaço no elenco, como os meio-campistas Mustapha Dahleb e Djamel Zidane, bem como o atacante Salah Assad. Exibindo muita qualidade técnica no setor ofensivo, tornava-se uma seleção para ficar de olho.

Novamente presente na CAN 1982, a Argélia cumpriu papel digno. Terminou na primeira colocação de seu grupo, até cair nas semifinais. Cedeu o empate no último minuto contra Gana e acabou sofrendo a derrota por 3 a 2 na prorrogação. O maior destaque às Raposas do Deserto, de qualquer maneira, aconteceria no Mundial de 1982. Mahieddine Khalef desta vez era acompanhado no comando da equipe por Rachid Mekhloufi, veterano que se eternizou como um dos jogadores mais talentosos do país nos anos 1950 e 1960, quando empilhou títulos com a camisa do Saint-Étienne e liderou a seleção que conscientizava sobre a independência da então colônia francesa. Seriam eles os mentores de uma campanha inesquecível, apesar dos pesares.

A Argélia chegou à Copa do Mundo metendo o pé na porta. Logo na estreia, derrotou a Alemanha Ocidental por 2 a 1. Madjer e Belloumi anotaram os gols em uma partida memorável em Gijón. A derrota por 2 a 0 contra a Áustria esfriou os ânimos, mas não tirou as chances de classificação. O problema viria na rodada final. Depois que Assad protagonizou a vitória por 3 a 2 sobre o Chile, austríacos e alemães ocidentais fizeram um jogo de compadres no triunfo dos bicampeões mundiais por 1 a 0. Sabiam qual resultado era necessário para classificar ambas as equipes e, diante disso, tocaram a bola descompromissadamente. Os africanos terminaram eliminados na tarde lembrada como “A Desgraça de Gijón”.

A decepção na Espanha não limitou o sucesso da Argélia ao longo da década de 1980. Alguns jogadores do país abriram portas para si no futebol europeu, com a transferência de Madjer ao Racing de Paris e de Assad ao Mulhouse. Quatro anos mais tarde, o time retornou à Copa do Mundo, atropelando a Tunísia na fase final das Eliminatórias. Não teria o mesmo impacto no México, todavia. Apesar da experiência adquirida, as Raposas do Deserto caíram em grupo difícil contra Brasil, Espanha e Irlanda do Norte, apenas arrancando um empate contra os norte-irlandeses. Novos talentos se somavam ao grupo, com menção principal ao atacante Djamel Menad. Só que também surgiram acusações de que os atletas haviam sido dopados pela comissão técnica.

E se a Argélia ascendia como uma inegável força por seu papel nos Mundiais, faltava dar um passo além na Copa Africana de Nações. Os magrebinos continuavam batendo na trave insistentemente. Em 1984, nova eliminação nas semifinais, sucumbindo nos pênaltis contra Camarões. Dois anos depois, em grupo duro contra Marrocos e Camarões, os argelinos não alcançaram os mata-matas. Já em 1988, foram necessários 22 pênaltis para que a Nigéria se impusesse contra os argelinos nas semifinais. Até parecia que a geração dourada não conseguiria se coroar no principal torneio africano. Por mais que Madjer atravessasse uma fase esplendorosa no Porto, estrelando o título da Champions em 1987, não preponderava da mesma maneira na CAN.

O sinal mais claro do declínio da Argélia surgiu em 1989. Após duas Copas consecutivas, as Raposas do Deserto não se classificaram ao Mundial da Itália. O time superou Costa do Marfim e Zimbábue na fase de grupos do classificatório, mas teria sua campanha interrompida na última fase, durante o confronto direto com o rival Egito. Hossam Hassan anotou o gol histórico diante de 120 mil no Cairo, que levou os Faraós de volta à Copa depois de 56 anos. Aquele embate ganharia a nada honrosa alcunha de “Jogo do Ódio”, por todas as confusões que o circundaram.

Revoltados com a validação do gol, que negou uma falta sobre o goleiro, os jogadores da Argélia atiraram enormes vasos de planta contra a torcida, enquanto um torcedor egípcio agrediu um atleta argelino dentro de campo. A briga tomou conta das arquibancadas e se estendeu também ao túnel. Depois da partida, em uma recepção a ambos os elencos, rolou uma nova pancadaria e o médico do Egito acabou cego de um olho, atingido por uma garrafa estilhaçada. Lakhdar Belloumi foi apontado como responsável pelo ato e, condenado a cinco anos de prisão pela justiça egípcia, entrou para a lista da Interpol. Seria o fim da carreira internacional do craque, justamente em sua centésima partida pela seleção. Segundo testemunhas, entretanto, o verdadeiro culpado era o goleiro reserva da Argélia.

A oportunidade de revanche aconteceu quatro meses depois. A Argélia sediaria pela primeira vez a Copa Africana de Nações em 1990. Teria mais uma chance de apresentar a grandeza de sua geração. A competição, todavia, apresentou os seus problemas. Temendo represálias a seus jogadores diante dos ânimos exaltados pelo Jogo do Ódio, o Egito preferiu mandar seu time B à competição e se poupar à Copa do Mundo. Os argelinos protestaram e os egípcios ameaçaram até mesmo boicotar a competição, mas acabaram entrando com o segundo quadro. Seria um desafiante a menos às Raposas do Deserto. Além do mais, com o torneio realizado em março, as seleções tiveram dificuldades para liberar seus atletas. Parte dos destaques que atuavam na Europa acabaram de fora da CAN 1990 por conta do entrave.

A Argélia, ao menos, mantinha uma equipe forte, mesmo sem Belloumi. Já atravessava uma renovação em relação aos times que disputaram as duas Copas do Mundo. De volta ao Porto após uma frustrada passagem pelo Valencia, Rabah Madjer era o craque daquele time. E vinha de bons meses com os portistas, o que auxiliou em seu embalo. Liberado pelo Nîmes, Djamel Menad contribuía na linha de frente, enquanto o goleiro Larbi El Hadi e o zagueiro Fodil Megharia eram outros remanescentes do Mundial do México.

Não que faltassem destaques entre os novatos daquela Argélia. O atacante Chérif Oudjani acumulava os seus gols no Campeonato Francês, então no Sochaux. Tahar Chérif El-Ouazzani vinha em alta e brilharia na cabeça de área. Seu parceiro na faixa central era Djamel Amani, que defendia o turco Aydinspor. Já o principal herdeiro na nova geração era o meia Moussa Saïb, que na época vestia a camisa do Kabylie, mas na sequência da década levantaria taças por Auxerre e Tottenham. O comando técnico ficava por conta de Abdelhamid Kermali, outra lenda do país nos anos 1950, auxiliado no posto pelo antigo capitão e recém-aposentado Ali Fergani. Kermaili, aliás, recontava as histórias dos tempos em que militava com a seleção pela independência para motivar os seus jogadores.

Cabeça de chave do Grupo A, a Argélia sobrou na primeira fase. A começar pela goleada por 5 a 1 sobre a Nigéria, que via o surgimento de nomes como Daniel Amokachi e Rashidi Yekini – a maioria ainda semi-profissional. Madjer arrebentou naquela estreia: anotou dois gols e participou das jogadas nos outros três. Menad e Djamel Amani completaram o passeio, que teve Emmanuel Okocha (irmão mais velho de Jay-Jay) assinalando o gol de consolação das Super Águias. Sempre lotando os estádios, a Argélia se manteve imparável. Na segunda rodada, a vítima foi a Costa do Marfim, com a vitória por 3 a 0. Madjer de novo se destacou, com sua criatividade garantindo o resultado. Menad, El-Ouazzani e Oudjani anotaram os gols. Os marfinenses sentiam o desfalque principal de Youssouf Fofana, ídolo do Monaco, que dois anos depois participaria do título dos Elefantes na CAN 1992.

Já na rodada final, nem dá para chamar de vingança o reencontro com o depenado Egito. A Argélia também poupou vários titulares, incluindo o próprio Madjer. E confirmou sua superioridade contra os Faraós, já eliminados. Amani e Saïb balançaram as redes ainda no primeiro tempo, encaminhando a vitória por 2 a 0. Com três vitórias e dez gols marcados, as Raposas do Deserto avançaram na liderança do Grupo A. Recuperada, a Nigéria acompanhava rumo aos mata-matas. O próximo desafio dos anfitriões seria Senegal.

Os senegaleses, então treinados por Claude Le Roy, tinham uma certa vantagem em relação a outros concorrentes: eles puderam convocar seus destaques na ativa por clubes europeus. Roger Mendy era uma referência no sistema defensivo, então a serviço do Monaco. O atacante Jules Bocandé fazia sucesso na França, então defendendo o Nice. Já o principal desfalque à semifinal seria Samy Sané, que precisou abandonar o torneio no meio para se reapresentar ao Nuremberg. O artilheiro, anos depois, se tornaria mais conhecido como o pai de Leroy Sané.

Mesmo sem tanta tarimba na CAN, Senegal ajudou a eliminar Camarões na fase de grupos. E faria jogo duro contra a Argélia. Aos quatro minutos, Menad abriu o placar, mas um gol contra de Abdelhakim Serrar deixou tudo igual aos 20. A vitória por 2 a 1 acabaria determinada apenas no segundo tempo, com um tento de Amani aos 17 minutos. A lesão de Bocandé logo depois atrapalhou a reação dos Leões de Teranga. Dez anos depois, os argelinos voltavam à final da CAN. Segundo a revista World Soccer da época, a torcida cantava gloriosamente, “apesar do pesado policiamento de fundamentalistas islâmicos”.

Já na decisão, a revanche no Estádio 5 de Julho seria completa, uma década depois. Diante de estimados 105 mil espectadores, sob os olhares também do presidente Chadli Bendjedid, a Argélia se reencontrou com a Nigéria e ergueu a taça pela primeira vez. A final seria bem mais disputada que a estreia. Os nigerianos começaram pressionando e criaram as primeiras chances, diante da perceptível tensão na equipe argelina. A vitória por 1 a 0 seria garantida aos 38 minutos, num lindo chute de Oudjani. O camisa 10 ajeitou e soltou a bomba de fora da área. As Raposas do Deserto adotaram uma postura mais resguardada diante da vantagem, embora as Super Águias também não tenham produzido tanto no ataque. El-Ouazzani seria essencial na condução do meio-campo, eleito o melhor em campo.

Ao final, o troféu acabou nas mãos capitão Rabah Madjer. E aquela era a despedida mais gloriosa possível à lenda. Mesmo sem brilhar tanto na final, seria eleito o melhor jogador da CAN 1990. Anunciou sua aposentadoria da seleção, aos 31 anos, somando 87 partidas e 28 gols pela equipe nacional. Ao lado de El-Ouazzani, o veterano também compôs o pódio do prêmio de melhor jogador africano do ano, faturado por Roger Milla. O ouro seria o apagar das luzes ao melhor período da história da seleção argelina, em ocaso que se explica além das quatro linhas. A partir de 1991, uma guerra civil estouraria no país entre governo e grupos islâmicos, o que afetaria também o futebol. O conflito se encerrou apenas em 2002, com a recuperação das Raposas do Deserto nos anos seguintes. Três décadas depois, a atual geração pode recobrar a grandeza com a taça que não faturam desde 1990.

* Fica o agradecimento especial ao amigo Emmanuel do Valle, que auxiliou com o material da World Soccer. Muito obrigado!