Didier Drogba se afastara do futebol de elite fazia um tempo. Desde sua importante passagem pelo Galatasaray e do breve retorno ao Chelsea campeão, o marfinense quis se aventurar por novos cantos. Passou duas temporadas no Montreal Impact e, desde o último ano, se juntou ao Phoenix Rising – inexpressivo clube da USL, do qual é um dos donos. Exceção feita a um lampejo ou outro, o final de carreira do centroavante não tinha a mínima relevância. E sua trajetória nos gramados se encerrou nesta quinta-feira, com o vice-campeonato na USL. Ocaso que não pode limitar os aplausos a quem foi um dos maiores goleadores deste século, mas muito além disso.

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A grandeza de Drogba, afinal, não se mede apenas por aquilo que realizou dentro das quatro linhas. Sua carreira sempre será exaltada pelos gols que empilhou na Ligue 1, na Süper Lig, na MLS e, sobretudo, pelo Chelsea. O centroavante ajudou os Blues a mudarem de patamar com os 177 gols que anotou, sobretudo nas frequentes finais que decidiu. Conquistou quatro títulos da Premier League e quatro da Copa da Inglaterra. E o que fez naquela campanha da Liga dos Campeões de 2011/12, carregando os londrinos em momentos decisivos, sobretudo na decisão com o Bayern de Munique, merece a gratidão eterna da torcida. O espírito de liderança se uniu ao faro de gol do atacante para nutrir os sonhos em Stamford Bridge.

A grandeza de Drogba também pode ser medida por seus feitos individuais, mas não apenas por isso. O centroavante por duas vezes foi o artilheiro da Premier League. Foi eleito o jogador do ano na Turquia, além de entrar em diferentes momentos para o time da temporada na Inglaterra. Concorreu seriamente à Bola de Ouro no final da década passada, chegando a ocupar a quarta colocação em 2007. E, sobretudo, figurou entre os maiores atletas africanos de todos os tempos, não apenas pelos prêmios que acumulou, mas pela maneira como alimentou o orgulho de seus conterrâneos. É uma pena que a Copa Africana de Nações nunca tenha sido erguida pelo craque, mesmo com todas as suas participações históricas no torneio continental. A taça veio justamente depois que ele havia se aposentado dos Elefantes.

A grandeza de Drogba, afinal, é dada por seu exemplo de vida. Pela história de quem superou muitas dificuldades para se tornar jogador de futebol. O garoto deixou Abidjan quando tinha apenas cinco anos, para morar com o tio Michel Goba, jogador profissional na França. O guri já se preparava à carreira naquele momento. Sentiu saudades de casa e voltou à Costa do Marfim três anos depois, mas logo seria enviado novamente à França, quando seus pais ficaram desempregados. A família imigrou à Europa pouco depois e, com 15 anos, Didier voltou a morar com eles nos subúrbios de Paris. Neste momento, já começava a estourar em pequenas equipes locais, até dar o seu salto profissional depois da transferência ao Le Mans.

O passado ajudou Drogba a reconhecer o valor de sua figura como jogador profissional e, sobretudo, o seu exemplo a outros jovens africanos. Sua história já seria eterna em 2005, quando liderou a seleção marfinense à sua primeira Copa do Mundo e, ao mesmo tempo, se uniu aos outros jogadores para clamar a paz no país, que vivia uma guerra civil. A festa pela classificação acabou em trégua nos tiroteios e, meses depois do Mundial, os Elefantes entrariam de maneira triunfal em na capital rebelde para disputar uma partida, algo impensável durante o conflito. A responsabilidade social seguiu com um senso aguçado do artilheiro. seja como embaixador da ONU, seja com as iniciativas de caridade. O maior exemplo veio com o projeto para construir hospitais na Copa do Marfim, bancados com seu próprio dinheiro.

Assim, quando os vídeos de gols do passado ajudarem a relembrar Drogba, eles não devem apenas expor um centroavante implacável e dono de um chute poderoso. Também podem lembrar o homem que existia além disso, por tudo o que realizou e por tudo o que refletiu em outras pessoas. É essa aura que fica, diante de sua aposentadoria, aos 40 anos.