Por Bruno Bonsanti

Muitos técnicos e analistas gostam de dizer que só entra para a história o time que vence, mas sabemos que não é exatamente verdade. As Copas de 1954, 1974 e 1982 estão aí para provar. A Champions League e a Copa dos Campeões também. Há equipes que fizeram campanhas marcantes, mas perderam a decisão para adversários melhores, para o acaso ou para seus próprios demônios.

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Às vésperas de mais uma final europeia, em que o Real Madrid ficará pela quarta vez na segunda posição, ou o Atlético de Madrid será vice pela segunda vez em três anos, selecionamos 12 times que não conquistaram a Champions League mas fizeram campanhas de respeito.

Primeiro Kopa, depois Fontaine – Stade Reims (1956-1959)

O clube da região de Champagne, na França, dominava o futebol do seu país naquela época: foram seis títulos franceses entre o final da década de quarenta e início da década de sessenta. O Stade Reims aproveitou esse sucesso e o começo da Copa dos Campeões da Europa para chegar duas vezes à decisão – e em ambas perder do Real Madrid.

No primeiro encontro, em 1956, no Parque dos Príncipes de Paris, o craque do time era Raymond Kopa, mas o Stade Reims foi derrotado por 4 a 3. Kopa impressionou tanto o Real Madrid que Santiago Bernabéu o contratou imediatamente. Com o dinheiro da venda, os franceses foram ao mercado e compraram três jogadores. Entre eles, Just Fontaine, futuro artilheiro da Copa do Mundo da Suécia.

Nice e Saint-Étienne foram campeões franceses nos anos seguintes, e o Stade Reims só voltaria a disputar a Copa dos Campeões na temporada 1958/59. Batendo o Ards (Irlanda do Norte), o HPS (Finlândia), o Standard Liège (Bélgica), e Young Boys (Suíça), chegou novamente à decisão.

Agora, o craque do time era Fontaine, e Kopa estava no outro lado, formando o ataque do Real Madrid com Di Stéfano, Gento, Rial e Mateos. O Stade Reims perdeu por 2 a 0, teve que engolir outro vice-campeonato e nunca mais retornaria à decisão europeia.

No embalo do primeiro scudetto – Fiorentina (1957)

A Fiorentina não se arrependeu de contratar um dos melhores jogadores brasileiros da década de cinquenta. Julinho Botelho levou o clube toscano ao seu primeiro scudetto logo na sua temporada de estreia, com cinco rodadas de antecedência. A Viola seria vice-campeã italiana nos quatro anos seguintes, em dois deles, ainda com o futuro jogador do Palmeiras no elenco.

A sina do segundo lugar seria estendida para a Copa dos Campeões. A Fiorentina passou por Norrköping (Suécia), Grasshopper (Suíça) e Estrela Vermelha (Sérvia), antes de se encontrar com o Real Madrid na decisão. O agravante: a partida seria realizada no Santiago Bernabéu.

Os italianos resistiram quase 70 minutos, mas Di Stéfano abriu o placar, de pênalti. A Fiorentina reclama que a falta teria ocorrido fora da área, e o lance é mesmo duvidoso. Gento fechou o caixão, cinco minutos depois, e deu o segundo título para o Real Madrid.

A Fiorentina, porém, foi o primeiro time italiano a chegar a uma final de Copa dos Campeões. Alguns anos depois, em 1961, venceu o Rangers na decisão da Recopa Europeia e levantou seu tão desejado troféu continental.

A primeira chance – Barcelona (1961)

Quem assiste às grandes campanhas recentes do Barcelona em competições europeias nem sempre acredita que o time demorou três décadas e meia para conquistar sua primeira Copa dos Campeões. Antes do título de 1992, porém, os catalães tiveram duas chances de levantar o troféu e fracassaram em ambas.

A primeira foi em 1961. Após cinco finais seguidas – com cinco vitórias -, o Real Madrid finalmente não estava na decisão. Mas o adversário do Barça era tão assustador quanto os merengues: o Benfica de Béla Guttman e Mário Coluna, ainda sem Eusébio. Os catalães também tinha um timaço. Contavam com Evaristo de Macedo, Luis Suárez e os húngaros Kocsis e Czibor.

Não foi o bastante para derrotar os portugueses, que fariam cinco finais de Copa dos Campeões na década de sessenta, com dois títulos. Kocsis ainda abriu o placar, mas Águas, Ramallets (contra) e Coluna montaram o placar de 3 a 1 a favor do Benfica. Czibor descontou no fim, e o grande esquadrão do Barcelona ficou com a medalha de prata.

Quem para o carrossel? – Juventus (1973)

Nas suas quatro finais em cinco edições da Copa dos Campeões, o Ajax enfrentou os três gigantes italianos. Perdeu do Milan, em 1969, e selou o bicampeonato europeu contra a Internazionale, três anos depois. Em 1973, a adversária seria a Juventus, que tinha Dino Zoff protegendo a meta, o brasileiro Mazzola no ataque e Fabio Capello na meia esquerda.

A Juventus acabara de vencer o primeiro scudetto dos sete que conquistaria nos 11 anos seguintes, quando Mazzola chegou do Napoli para ser a cereja do bolo. O brasileiro foi importante com dois gols na vitória por 3 a 1 sobre o Derby County, nas semifinais da Copa dos Campeões, mas nada pode fazer contra o Ajax de Cruyff. Rep, aos 5 minutos do primeiro, fez o único gol da decisão, em Belgrado, que consagrou os holandeses como tricampeões europeus.

Bicampeã italiana, a Juve teve outra chance de alcançar a glória continental em 1973/74, mas sucumbiu logo na primeira rodada diante do Dynamo Dresden, da Alemanha Oriental.

Divisor de águas – Atlético de Madrid (1974)

Depois de três decisões com o Ajax, a final da Copa dos Campeões recebeu duas novidades: Atlético de Madrid e Bayern de Munique tiveram a primeira chance de alcançar a glória continental no Estádio Heysel, de Bruxelas. E a dramática decisão, a primeira que precisou ser decidida com jogo extra depois da igualdade até mesmo na prorrogação, acabou servindo de divisor de águas para os dois clubes.

O Atlético de Madrid era um dos principais times do seu país e foi o único que conseguiu impedir o Real Madrid de vencer todas as edições do Campeonato Espanhol na década de sessenta, com os títulos de 1966 e 1970. A conquista nacional de 1973, que valeu vaga na Copa dos Campeões, foi a sétima dos colchoneros, apenas uma atrás do Barcelona naquela altura da história.

A campanha do Atlético de Madrid rumo à decisão deixou para trás pesos-pesados como o Estrela Vermelha e o Celtic. O adversário na Bélgica seria o Bayern de Munique. Depois de um 0 a 0 no tempo normal, o craque do time Luis Aragonés fez 1 a 0, aos 9 minutos do segundo tempo da prorrogação. Mas Schwarzenbeck, sem grandes qualidades ofensivas, arriscou um chute despretensioso de longa distância, que foi aceito pelo goleiro Miguel Reina, a sete segundos do fim.

O jogo desempate foi realizado dois dias depois, e a superioridade técnica do Bayern de Munique pesou contra o cansaço do Atlético de Madrid. Uli Hoeness e Gerd Müller marcaram duas vezes cada um na goleada por 4 a 0 dos bávaros, que partiram desse título para se firmarem como grandes na Europa. Os colchoneros, por outro lado, viram o começo do ocaso do último grande times que tiveram até Diego Simeone assumir o banco de reservas.

Hegemonia alemã – Borussia Monchengladbach (1977)

O Bayern de Munique conquistou dois importantes tricampeonatos nos anos setenta, na Bundesliga e na Copa dos Campeões, mas o grande time da década no Campeonato Alemão foi o Borussia Monchengladbach. Entre 1970 e 1978, conquistou cinco títulos, ficou duas vezes em segundo lugar e uma em terceiro.

A equipe era liderada pela lenda Udo Lattek, justamente o técnico que havia vencido os únicos títulos nacionais que o Gladbach não conseguira nesse período, comandando o Bayern. O ataque tinha Jupp Heynckes e Allan Simonsen.

A participação na Copa dos Campeões era a segunda seguida. Na temporada anterior, havia caído para o Real Madrid nas quartas de final. Mas desta vez a campanha seria quase impecável, eliminando Áustria Vienna, Torino, Club Brugge e Dínamo Kiev na trajetória rumo à decisão no Estádio Olímpico de Roma.

No entanto, Bob Paisley estava preparado para conquistar seu primeiro título europeu pelo Liverpool. Os ingleses abriram o placar no primeiro tempo, mas Simonsen empatou, no começo do segundo. O Gladbach teve duas grandes chances para virar, mas as desperdiçou. Em um escanteio, Tommy Smith fez 2 a 1 para os Reds, e Phil Neal, de pênalti, fechou o placar.

No ano seguinte, o Gladbach tricampeão alemão voltaria à Copa dos Campeões e seria mais uma vez eliminado pelo Liverpool, desta vez nas semifinais.

O rei de Roma, mas não da Europa – Roma (1984)

Falcão chegou à Itália em 1980 com duas missões: abrir o mercado do país para outros brasileiros, depois de muitos anos em que os clubes italianos não puderam contratar estrangeiros, e mudar a Roma de patamar. Foi muito bem sucedido em ambas. Depois de um vice-campeonato e um terceiro lugar, levou o time da capital ao primeiro scudetto em 41 anos.

A temporada seguinte poderia ter sido ainda mais histórica porque a Roma teve a chance de conquistar a Tríplice Coroa: venceu a Copa Itália, brigou pelo título do Campeonato Italiano e alcançou a decisão da Copa dos Campeões, que por acaso seria no Estádio Olímpico. Ou seja, em casa.

A Roma marcou dez gols e sofreu apenas quatro nas três primeiras fases da competição europeia, com Falcão jogando o fino. Uma lesão no joelho o impediu de disputar a primeira semifinal contra o Dundee United. Ele esteve em campo meio baleado no jogo de volta, e a Roma passou. Mas o brasileiro sentiu novas dores.

Na decisão, ainda com problemas físicos, Falcão não foi o mesmo, mas a equipe de Toninho Cerezo e Bruno Conti enfrentou a de Kenny Dalglish e Ian Rush de igual para igual. Depois do empate por 1 a 1, o título seria decidido nos pênaltis. Falcão recusou-se a bater. Conti e Graziani erraram, e o Liverpool conquistou seu quarto título europeua.

A Roma ficou a dois pontos da líder Juventus e também não conseguiu ganhar o Campeonato Italiano, e a temporada que poderia ser perfeita acabou um pouco decepcionante.

Final antecipada? Que nada – Bayern de Munique (1987)

O Bayern de Munique estava na metade de mais um tricampeonato alemão quando se encontrou com o Real Madrid nas semifinais da Copa dos Campeões. Eram dois grandes times. De um lado, Pfaff, Matthäus e Rummenigge. Do outro, Hugo Sánchez e Brutagueño. Com uma goleada por 4 a 1 no Estádio Olímpico, e derrota por apenas 1 a 0 na Espanha, os bávaros passaram à decisão.

O adversário seria o Porto, em sua primeira final. Desde 1968, um time português não decidia a taça. O Bayern era favorito, mas os portugueses estavam com a bola toda: haviam eliminado o forte Dínamo de Kiev nas semifinais. E não pararam por aí.

Ludwig Kögl abriu o placar para o Bayern de Munique, aos 25 minutos do primeiro tempo, e deixou os alemães próximos da vitória. Mas, em um intervalo de três minutos, o argelino Rabah Madjer decidiu a parada. Empatou, de calcanhar, aos 34 do segundo tempo, e deu uma assistência para o brasileiro Juary virar a partida, aos 36.

Foi o primeiro título europeu do Porto, e o Bayern de Munique só retornaria à decisão em 1999, quando levou uma virada ainda mais dramática nos minutos finais.


1987 (May 27) Porto (Portugal) 2-Bayern Munich… por sp1873

Duas vezes na trave – Benfica (1988 e 1990)

O Benfica de dois títulos e cinco finais na década de sessenta resgatou um pouco da sua tradição no final dos anos noventa. Os Encarnados revezavam-se nas conquistas dos títulos portugueses naquela época com o Porto e aproveitaram muito bem as chances que tiveram na Copa dos Campeões.

Campeão nacional em 1986/87, o Benfica fez uma boa campanha continental na temporada seguinte, com o zagueiro brasileiro Mozer na defesa e Rui Águas marcando muitos gols. Eliminou o Anderlecht nas quartas de final. A decisão contra o PSV de Guus Hiddink e Ronald Koeman terminou 0 a 0, e nem nos pênaltis os times pareciam propensos a decidir o confronto. A primeira cobrança desperdiçada foi a de António Veloso, a 12ª. Os holandeses levaram a taça.

Em 1990, o Benfica vinha credenciado pelo título português de 1988/89 e por mais uma campanha sólida nas fases anteriores. Agora, o artilheiro era o sueco Mats Magnusson, e a defesa tinha Aldair e Ricardo Gomes. O time era treinado pelo também sueco Sven-Göran Eriksson, mas o adversário da decisão era de outro nível.

O Milan de Arrigo Sacchi completaria seu bicampeonato europeu (o último da história da competição), com um gol de Frank Rijkaard, na metade do segundo tempo. E o Benfica, que nunca mais chegaria à final da Copa dos Campeões, teria que lidar com o gosto amargo de dois vice-campeonatos em três anos.

Contra o time dos sonhos – Sampdoria (1992)

Até daria para dizer que a final da Copa dos Campeões de 1992 era o canto do cisne de Toninho Cerezo, aos 37 anos, mas o volante ainda seria bicampeão mundial pelo São Paulo. Naquela ocasião, era um dos mais experientes jogadores da Sampdoria, que tinha Giatnluca Pagliuca no gol e Roberto Mancini e Gianluca Vialli no ataque.

A Sampdoria havia conseguido ser campeã italiana na temporada anterior, superando o Milan, que acabara de vencer duas vezes seguida a Copa dos Campeões. Também conquistara a Recopa Europeia de 1990, batendo o Anderlecht na final, com dois gols de Vialli, na prorrogação.

Eliminou o Rosenborg e o Honvéd no caminho até o quadrangular semifinal, no qual prevaleceu no grupo que tinha Estrela Vermelha, Panathinaikos e Anderlecht. O adversário da decisão, em Wembley, seria o Barcelona de Cruyff, Koeman, Guardiola, Laudrup e Stoichkov.

A partida foi mais difícil do que se imaginava para o time que viria a ser chamado de Dream Team, e o primeiro título europeu dos catalães saiu apenas na prorrogação. Koeman marcou a oito minutos da disputa de pênaltis.

O crepúsculo dos Invencíveis – Arsenal (2006)

Arsène Wenger colocou em campo, em Paris, a base da lendária esquadra que havia sido campeã invicta da Premier League dois anos antes. Fàbregas substituiu Patrick Vieira, Eboué ganhou a vaga de Lauren e Alexander Hleb deixou no banco Dennis Bergkamp, relacionado pela última vez na carreira para um jogo profissional.

O time do Arsenal nunca foi tão espetacular quanto naquela temporada 2003/04, mas o título europeu não veio. Caíram para o Chelsea de Claudio Ranieri nas quartas de final, e a oportunidade apareceria apenas em 2006, quando os Invencíveis já se aproximavam do fim. Nos anos seguintes à final, o elenco seria totalmente reformulado.

Ainda havia muita coisa boa, porém. Fàbregas começava a dar sinais de ser especial, Gilberto Silva era um gigante no meio-campo e Henry decidia tudo praticamente sozinho na frente. O problema é que do outro lado havia o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Ou de Henrik Larsson? O sueco entrou no segundo tempo, e com dois belos passes, decidiu a virada dos catalães, sacramentada com um gol do brasileiro Belletti.

O regresso – Borussia Dortmund (2013)

Campeão europeu de 1997, o Borussia Dortmund passou por graves problemas financeiros no começo do atual século e ficou longe dos grandes duelos europeus durante muito tempo. Mas o trabalho de reconstrução atingiu o seu auge na temporada 2012/13, quando o time europeu voltou à decisão da Champions League, dezesseis anos depois.

Foi talvez a melhor versão do time de Jürgen Klopp, que conseguiu o bicampeonato da Bundesliga nos dois anos anteriores. Hümmels e Subotic estavam sólidos na defesa. Götze, Reus e Lewandowski voavam no ataque. O Real Madrid ficou para trás, nas semifinais, com direito a 4 a 1 no primeiro jogo, diante da Muralha Amarela.

O adversário da decisão, em Wembley, não poderia ser mais simbólico. O grande rival doméstico Bayern de Munique vinha babando para conquistar o título, depois de dois vice-campeonatos em três anos. Götze, machucado e já negociado com os bávaros, não jogou.

Mandzukic abriu o placar, aos 15 minutos do segundo tempo, e Gündogan, de pênalti, empatou pouco depois. O jogo caminhava para a prorrogação, mas, aos 44 da etapa final, Robben fez o gol decisivo para o Bayern de Munique.

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