O Estádio Monumental “U” possui uma arquitetura imponente, que se mistura com seu entorno para compor a grandiosidade da construção. Atualmente o maior estádio sul-americano em capacidade, a casa do Universitario possui arquibancadas para 60 mil torcedores e um paredão de camarotes para mais 20 mil espectadores. Já do lado de fora, dá para ver a cordilheira se erguendo ao fundo. Em tempos de “modernas arenas”, é uma praça esportiva que preserva traços de outros tempos, mesmo inaugurada em 2000. É o território que pode ser considerado sagrado a River Plate ou Flamengo a partir do próximo sábado.

A final única da Libertadores ainda deveria gerar muitos questionamentos. É bacana ver a mobilização rumo a Lima, sobretudo dos rubro-negros em sua ânsia pela decisão que não vivem desde 1981. Mas ainda dá um aperto no peito saber que o Maracanã e o Monumental não poderão viver esta oportunidade com suas festas tradicionais. Entre aquilo que não é possível mudar, cabe lidar com o destino. Aos flamenguistas, restou iniciar uma peregrinação que deverá se alongar durante os próximos dias e levará milhares de pessoas à capital peruana.

E não será apenas o campeão que se agigantará no terreno do Monumental. O estádio também viverá ali o grande evento de sua história. A cancha serviu de casa à seleção peruana em algumas partidas, mas seu campo tradicional é o Estádio Nacional. Além disso, até por ser relativamente novo, o “U” nunca recebeu uma competição internacional nestes estágios. Nem mesmo a Copa América de 2004 aconteceu por lá. Assim, a final da Libertadores de 2019, por esses descaminhos do destino em meio à convulsão social em Santiago, acabará eternizando a praça esportiva no imaginário do futebol continental. Certamente, com um grande campeão.

Abaixo, recontamos um pouco da história do Monumental e de seus arredores em breves pílulas:

O patrono da casa

Se você viu imagens recentes das arquibancadas vazias do Monumental, certamente avistou um grande rosto em preto e branco por lá, reconstruído nas próprias cadeiras. É a imagem de Teodoro Fernández, considerado um dos maiores jogadores da história do futebol peruano. E a homenagem não para por aí. Na entrada do estádio, há também uma estátua dourada de ‘Lolo’. Nascido em 1913, o atacante nunca vestiu outra camisa em sua carreira. Foram 23 anos na equipe principal crema, de 1930 e 1953, recusando propostas do exterior. Conquistou seis títulos do Campeonato Peruano e foi artilheiro da competição sete vezes. Além disso, é também o maior artilheiro da história do clube.

Lolo foi o primeiro grande ídolo nacional do futebol peruano. Afinal, o craque também brilhou pela seleção. Em 1936, ele representou o país nos Jogos Olímpicos e anotou cinco gols em duas partidas. Já o maior feito aconteceu em 1939, quando liderou a Blanquirroja ao título do Campeonato Sul-Americano (a atual Copa América), anotando sete tentos no torneio – que não contou com as presenças de Brasil e Argentina, entretanto. Ainda hoje o atacante permanece como o terceiro maior goleador da competição continental. Após pendurar as chuteiras, Lolo seguiu vinculado ao Universitario como funcionário do clube. Uma lenda.

O outro estádio do Universitario

Vale dizer que Lolo também batiza a antiga casa dos merengues. O Estádio Lolo Fernández foi inaugurado em 1952 e se tornou a primeira cancha particular de um clube peruano. O próprio artilheiro tratou de comandar a festa na primeira partida do local, com três gols no triunfo por 4 a 2 sobre a Universidad de Chile. As arquibancadas chegara a ter 15 mil lugares à disposição, mas o estádio caiu em desuso com o tempo. Por lá, costumam acontecer atualmente as partidas de vôlei do clube.

Um detalhe interessante é que as cinzas de um dos maiores treinadores da história do Universitario foram jogadas por lá. Roberto Scarone geralmente tem seu nome associado ao Peñarol, com o qual conquistou as duas primeiras edições da Libertadores já como técnico. No entanto, ele também fez trabalhos expressivos em Lima. Foram duas passagens pelos cremas, a mais importante entre 1969 e 1974, quando foi bicampeão nacional e vice da Libertadores, além de formar diversos craques à seleção. Pois, segundo o filho do uruguaio, um de seus últimos desejos era de que seus restos mortais repousassem sobre o gramado do clube onde foi mais feliz. O ato aconteceu em 2010, 16 anos após o falecimento do comandante.

Um longo projeto

O Estádio Monumental “U” passou mais de uma década sendo gestado. O projeto do Universitario ganhou o papel pela primeira vez em 1989 e sua pedra fundamental foi lançada em 1991. Todavia, seriam nove anos de obras, em processo que se alongou inclusive pela demora a comprar a totalidade do terreno, o que só ocorreu em 1994. A inauguração aconteceu em 2 de julho de 2000, durante um duelo contra o Sporting Cristal pelo Campeonato Peruano. E o local serve em vários aspectos aos cremas. Por lá também funciona a sede administrativa, a concentração do profissional, há instalações às categorias de base, campos de treinamento anexos e até mesmo outras estruturas poliesportivas. Um dos sustentáculos que viabilizaram as obras foram os amplos camarotes, que correspondem a um quarto da capacidade.

O anjo do Monumental

Em 2013, uma imagem fotografada no Estádio Monumental rodou o mundo por toda a força que representava. Nela aparecia um garoto respirando com a ajuda de um tubo, ainda assim presente nas tribunas. Era Ángel Cruz Sánchez, um pequeno torcedor de sete anos. Nascido com seis centímetros a menos de esôfago, ele também sofria de uma fibrose pulmonar e precisava respirar com o auxílio de um cilindro de oxigênio. Mesmo com o problema de saúde, o menino continuou frequentando os jogos com a ajuda de seus pais.

A situação mobilizou o país inteiro. O caso promoveu uma rara união entre torcedores de Universitario e Alianza, que juntaram dinheiro para o tratamento do menino. Jogadores e dirigentes também o ajudaram. Em 2015, Angelito passou por uma delicada operação que durou 11 horas. Voltou ao estádio dois meses depois, novamente com seu tubo de oxigênio, embora a recuperação tenha o afastado das arquibancadas até 2018. Aos 13 anos, permanece como um símbolo do futebol peruano. Por conta de outras complicações decorrentes da doença e da cirurgia, o garoto segue com algumas dificuldades e necessita de doações. Conta com a solidariedade que nasceu no Monumental.

Os jogos da seleção

O Peru não possui tantas partidas no Monumental. São 18 compromissos nestes 19 anos, o primeiro deles em 2001, numa derrota para o Equador pelas Eliminatórias da Copa. O local foi utilizado principalmente na campanha de qualificação ao Mundial de 2010, quando abrigou oito dos nove compromissos da Albirroja enquanto o Estádio Nacional passava por uma ampla reforma no gramado. Já nesta década, a casa do Universitario abrigou apenas três partidas dos Incas, só uma oficial. O Brasil jogou duas vezes por lá, nas Eliminatórias das Copas de 2006 e 2010, ambas com empates por 1 a 1. Rivaldo e Kaká anotaram os gols brasileiros.

Nada de Copa América

É estranho pensar que o maior estádio do continente não recebeu a Copa América em 2004, apenas quatro anos após a sua inauguração. O Estádio Nacional foi o único palco de Lima, com sete partidas – incluindo as semifinais e a final. O Monumental estava nos planos da competição, e a princípio deveria ser utilizado pela seleção peruana, assim como na decisão. Entretanto, uma confusão danada impediu sua utilização às vésperas do pontapé inicial.

Era maio de 2004. Faltavam dois meses para o começo da Copa América. Pelo Campeonato Peruano, o duelo entre Universitario e Cienciano terminou em cenas lamentáveis. Cinco jogadores merengues e mais o técnico Marcelo Trobbiani foram expulsos pelo árbitro. Então, o indignado com a situação, o presidente do clube limeño ameaçou não ceder o estádio se a federação peruana não punisse o juiz. A organização do torneio não gostou nada do tom de ameaça e decidiu abrir mão do Monumental, reprogramando os duelos para o Nacional. O lendário gol de Adriano mudou de local.

As outras finais da Libertadores em Lima

Esta será apenas a quarta vez que a decisão da Copa Libertadores acontecerá no Peru. O Monumental fará a sua estreia. Somente uma vez o Estádio Nacional serviu de campo neutro aos jogos de desempate no antigo formato das finais. Isso aconteceu em 1971, quando os uruguaios do Nacional evitaram o tetra do Estudiantes e ergueram a taça pela primeira vez. No ano seguinte, o mesmo palco veria o empate entre Universitario e Independiente, antes da consagração dos argentinos em Avellaneda. Já em 1997, a visita foi realizada pelo Cruzeiro. Sob a proteção de Dida, os mineiros arrancaram o empate por 0 a 0 contra o Sporting Cristal na ida, primeiro passo até consumarem o título no Mineirão.

O palco da final da Libertadores Sub-20

Em 2011, quando a Conmebol criou a versão sub-20 da Copa Libertadores, o Estádio Monumental serviu de sede nas duas primeiras edições, ambas realizadas no Peru. A final inaugural consagrou os donos da casa, o Universitario. Estrelados por Edison Flores e Andy Polo, os cremas derrotaram o Boca Juniors nos pênaltis para ficar com a taça. Curiosamente, o Flamengo também disputaria um jogo daquela campanha no estádio, quando empatou por 0 a 0 com o Millonarios. O goleiro César é o único remanescente no elenco atual. Já em 2012, embora a decisão tenha acontecido em outro local, foi lá que o River Plate viveu parte de sua campanha vitoriosa no torneio de base. Os argentinos foram campeões sobre o Defensor com um gol de Augusto Solari, enquanto Juan Cazares brilho pelo clube e terminou eleito o melhor jogador do torneio.

Os títulos marcantes do Universitario

A inauguração do Monumental também simbolizou vitórias marcantes ao Universitario. Em 2000, o clube consumou o tricampeonato nacional logo durante os primeiros meses da nova casa. Além disso, por lá os cremas venceram duas finais sobre os rivais do Alianza Lima. Em 2002, abriram as decisões do Apertura com o triunfo por 1 a 0. O clube ficaria com a conquista, embora o torneio semestral não referendasse os merengues como campeões nacionais daquele ano. Já em 2009, o interminável Norberto Solano garantiu o triunfo por 1 a 0 na finalíssima do Descentralizado, que encerrou um jejum de nove anos do Universitario. Por questões de deslocamento e segurança, os clássicos não costumam acontecer no Monumental. Foram apenas dez nestes 19 anos.

As vitórias brasileiras

As campanhas breves do Universitario nas competições continentais não garantiram muitos jogos internacionais no Estádio Monumental. Clubes brasileiros foram raros por lá. Ainda assim, há algumas vitórias. O Paysandu foi o primeiro a ganhar na cancha, ao bater os merengues por 2 a 0 na fase de grupos da Libertadores de 2003. Em 2010, o São Paulo empatou por 0 a 0, mas eliminou os peruanos nas oitavas de final da Libertadores. Já em 2014, o Athletico Paranaense saiu com os três pontos de lá ao superar os anfitriões por 1 a 0, também pela fase de grupos. Quem não teve a mesma sorte foi o River Plate. Em 2008 e 2009, foram duas derrotas no estádio, em visitas ao Universidad San Martín de Porres – que mandou os seus compromissos por lá no período.

Uma casa da música (e do rock)

Assim como outros estádios pelo mundo, grandes eventos musicais também ocorreram no Monumental “U”. Foram cinco festivais com artistas latinos por lá, além de concertos pesados com bandas internacionais – sobretudo do rock’n roll. A lista de astros que estremeceram as estrutural do gigante de concreto inclui Rolling Stones, Paul McCartney, Roger Waters e Guns N’ Roses. Fito Páez, Alejandro Sanz, Maluma, Maná e Orishas são outros que passaram pelo campo do Universitario. Já a esplanada ao lado do estádio conta com uma lista mais extensa de shows. Entre os roqueiros, há Megadeth, Aerosmith, Sting, Ozzy e Rod Stewart. De qualquer maneira, a lista eclética possui Plácido Domingo, 50 Cent, Cypress Hill, Ricky Martin, Backstreet Boys, Beyoncé, Britney Spears, entre outros.

Homenagem a Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa é sinônimo de literatura no Peru. E o escritor torce avidamente pelo Universitario. Crescido em Lima, passou a frequentar os jogos do clube por influência de um tio e chegou a tentar a sorte nas categorias de base. Se o meio-campista não vingou, Vargas Llosa seguiria atrelado aos cremas de outras maneiras. Sócio vitalício da agremiação, desde 2011 ele dá nome ao palco presidencial do Monumental – em homenagem ocorrida logo após ganhar o Nobel de Literatura. De vez em quando, ainda pinta nas tribunas.