* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Imagine que a Liga dos Campeões seja disputada apenas pelos campeões nacionais – o que já simulamos por aqui, pensando nesta temporada. Agora pense que o sorteio da primeira fase coloque frente a frente em um mata-mata dois dos maiores favoritos ao título. Algo pouco comum nos dias de hoje, em que os clubes mais fortes da Liga dos Campeões se classificam diretamente para a fase de grupos e são alocados como cabeças de chave, estes confrontos de gigantes logo no primeiro “round” já aconteceram algumas vezes no torneio. Tempos em que não havia qualquer restrição no sorteio. Relembramos aqui 12 dos mais memoráveis.

Everton x Inter de Milão (1963-64)

O primeiro grande duelo, curiosamente, foi um confronto de estreantes na Copa dos Campeões. E entre dois clubes que escreveriam histórias bem diferentes na competição nas décadas seguintes. A Inter de Milão, treinada por Helenio Herrera e contando com craques do quilate de Sandro Mazzola, Facchetti, Burgnich, o brasileiro Jair da Costa e o espanhol Luís Suárez, dispensa apresentações.

Já o Everton era dirigido pelo ex-atacante do clube Harry Catterick, considerado um dos maiores técnicos pouco badalados do futebol inglês, e vivia grande momento. Entre 1963 e 1970, levantou dois campeonatos ingleses e uma FA Cup, além de ter sido uma vez vice da copa e terminado entre os quatro primeiros na liga durante praticamente todo o período. Entre os resultados mais memoráveis, é lembrado por um 4×0 imposto ao Liverpool em Anfield Road no dérbi de setembro de 1964. Era um time ofensivo e toque de bola, ao contrário da rigidez do catenaccio da Inter de Herrera.

Mas foi exatamente a força defensiva da Inter que acabou prevalecendo no duelo. Os italianos seguraram o empate sem gols em Goodison Park na partida de ida e depois venceram pelo placar mínimo, gol suado de Jair da Costa, no jogo da volta, no Giuseppe Meazza. Foi o mata-mata mais dramático para os neroazzurri, que na sequência passariam sem sustos por Monaco, Partizan Belgrado, Borussia Dortmund e Real Madrid antes de levantarem seu primeiro troféu da Champions. O Everton só disputaria outras duas edições da competição, sem fazer grande papel.

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Ajax x Real Madrid (1967-68)

Embora não esbanjasse qualidade, ao contrário de suas equipes vencedoras da Copa dos Campeões em temporadas anteriores, o Real Madrid de 1967-68 contava com nomes de peso em sua história, como o curinga Pirri, que jogava com igual desenvoltura na zaga ou no meio-campo, e os pontas Amancio e Gento – o primeiro mais criativo e o segundo, velocista e grande driblador.

Já seu adversário na primeira fase da competição, o Ajax, ainda que não fosse então considerado favorito ao título, não era mais um clube desconhecido no futebol europeu. Afinal, na temporada anterior, já havia eliminado o Liverpool com goleada de 5 a 1 em Amsterdã nas oitavas de final da competição. Contando com uma geração bastante talentosa, fez um duelo equilibrado, mesmo tendo do outro lado uma camisa que já conquistara seis vezes o torneio. No time holandês, o iugoslavo Velibor Vasovic (o líbero que possibilitou a moldagem do futebol total por Rinus Michels) reencontraria os merengues pouco mais de um ano depois de ser derrotado por eles na final da Champions de 1966, quando defendia o Partizan. Mas o grande talento da equipe estava no ataque: aos 20 anos, Johan Cruyff já mostrava o futebol de técnica, velocidade e inteligência que marcaria sua carreira.

E foi ele quem abriu o placar para o Ajax no jogo de ida, logo aos 17 minutos, num chute da entrada da área, contando com a colaboração do goleiro Junquera. Mas o Real não se abalou e chegou ao empate ainda no primeiro tempo com Pirri. No fim, os holandeses tiveram um gol bem anulado de Nuninga. A partida de volta, no Santiago Bernabéu, foi igualmente equilibrada. Depois de um primeiro tempo sem gols, os donos da casa abriram o placar com um chute de fora da área de Gento. Mas o Ajax não se intimidou e empatou dez minutos depois, com Groot testando fora do alcance de Junquera uma bola alçada para a área em cobrança de falta.

O novo empate em um gol no tempo normal levou a decisão para a prorrogação. E, depois de ambas as equipes desperdiçarem chances claras – Junquera andou fazendo alguns milagres para se recuperar do frango no jogo de ida – o meia Veloso acertou uma bomba de fora da área no ângulo de Bals e deu a classificação aos madridistas, que, na sequência, eliminariam o dinamarquês Hvidovre e o Sparta Praga antes de caírem nas semifinais diante do Manchester United.

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Bayern de Munique x Saint-Etienne (1969-70)

Hegemônico no futebol francês do fim dos anos 60, o Saint-Etienne treinado por Albert Batteaux foi tetracampeão da liga entre 1967 e 1970 e chegou a fazer a dobradinha em 1968 e 1970. Mas na Copa dos Campeões não teve muita sorte, muito por conta de enfrentar pedreiras logo no na primeira rodada. Em 1968-69, caiu diante do Celtic de Jock Stein, campeão dois anos antes. Em 1970-71, seria eliminado pelo surpreendente Cagliari, de Gigi Riva, base da Itália vice-campeã mundial no México. E entre as duas eliminações, conseguiu superar um promissor Bayern de Munique.

Os bávaros, dirigidos por Branko Zebec, já contavam com a espinha dorsal do grande esquadrão tricampeão europeu de meados dos anos 70: Sepp Maier, Beckenbauer, Schwarzenbeck, Roth e Gerd Müller. Já os Verts, que tinham Aimé Jacquet no meio-campo, contavam ainda com jogadores da seleção francesa que fracassara na Copa de 1966 (o goleiro Carnus, Bosquier e Herbin) e outras revelações recentes (Larqué, Bereta). Na frente, o destaque ficava com a dupla formada pelo malinês Salif Keita – primeiro vencedor do prêmio de Jogador Africano do Ano, instituído em 1970 pela France Football – e o jovem goleador Hervé Revelli.

Na ida, no Olympiastadion de Munique, o Bayern dominou e venceu fácil por 2 a 0, com gols de Brenninger e Roth. Na volta, Revelli abriu o placar para o Saint-Etienne logo no primeiro minuto, e os franceses passaram a acreditar na virada. Na etapa final, o mesmo Revelli ampliou após cobrança de escanteio aos 18 minutos, e Keita, a nove minutos do fim, novamente de cabeça após um córner, deu a classificação aos Verts, que, no entanto, cairiam logo na fase seguinte diante do Legia Varsóvia.

Olympique de Marselha x Juventus (1972-73)

O domínio do Saint-Etienne no futebol francês foi encerrado com o bicampeonato do Olympique de Marselha em 1971 e 1972 (com dobradinha no segundo ano). Curiosamente, Carnus e Bosquier, ambos ex-Verts, agora defendiam o OM, ao lado de outro remanescente da França de 1966, Joseph Bonnel e do experiente meia Gilbert Gress. Mas os grandes astros eram dois estrangeiros: o ponta-direita driblador Roger Magnusson, apelidado “Garrincha sueco”, e o centroavante iugoslavo Josip Skoblar, Chuteira de Ouro da Europa em 1971, com espantosos 44 gols na liga francesa.

Do outro lado, no entanto, estava uma fortíssima Juventus, que se preparava para dominar o futebol italiano por uma década e meia (nove escudetos em 15 temporadas do Calcio, entre 1972 e 1986). Era a base das futuras seleções italianas: Zoff, Capello, Causio, Anastasi, Bettega, Spinosi, Morini, Cuccureddu, Furino, além do alemão Haller e do brasileiro Altafini (o nosso Mazzola).

Para azar do Olympique, Skoblar desfalcaria a equipe na partida de ida, disputada não no Vélodrome (suspenso pela Uefa), mas no estádio Gerland, em Lyon. Com a Juve na defensiva (Bettega começou no banco, e o defensor Cuccureddu em seu lugar), os marselheses pressionaram, mas não conseguiram fazer mais que 1 a 0, gol de Bonnel no segundo tempo. Na volta, em Turim, a Vecchia Signora decidiu a parada logo na primeira etapa, com dois gols de Bettega e outro de Halle. Nem mesmo a entrada no intervalo de Magnusson, que começara no banco, ajudou o Olympique a reagir.

Nottingham Forest x Liverpool (1978-79)

Provavelmente um dos três maiores exemplos de duelo de titãs antecipado em um mata-mata da Copa dos Campeões até os anos 90, este é um confronto que explica esta lista: os dois clubes ingleses conquistaram cinco títulos consecutivos da Champions no período, além de travarem batalhas épicas nas competições nacionais. E, no meio disso, calharam de se encontrar logo na primeira fase da edição 78-79.

O contexto pode ser resumido assim: era uma vez o Liverpool de Kenny Dalglish e Graeme Souness, clube mais temido do continente, bicampeão europeu (além da conquista da Copa da Uefa em 1976), e também já colocando em marcha um longo domínio nacional. Até que, de onde menos se espera, surge um adversário duríssimo, disposto a ameaçar a hegemonia do time de Bob Paisley: o recém-promovido Nottingham Forest de Brian Clough, campeão inglês debaixo do nariz dos Reds em 1978, e igualmente candidato ao título europeu.

E o Forest não poderia ter tido estreia melhor na principal competição da Europa: jogando no City Ground, dominou amplamente as ações ofensivas – inclusive com de lances de muita categoria e, quando era atacado, podia contar com a segurança de Peter Shilton sob as traves. Até que aos 27 minutos de jogo, o placar foi aberto quando Woodcock recebeu passe nas costas da defesa e rolou para Birtles completar. E no fim, deu mostras de resiliência e inteligência no contragolpe, quando o lateral Colin Barrett bloqueou duas vezes a mesma tentativa de lançamento, antes de passar a Birtles na ponta-esquerda. O camisa 9 foi à linha de fundo, centrou para Woodcock e este ajeitou de cabeça para o sem pulo mortal do próprio Barrett que iniciara a jogada.

Para o jogo da volta, o Liverpool apostava na atmosfera de Anfield Road para tentar reverter a boa vantagem do Forest, mas não contava com uma atuação magistral de Shilton. E os visitantes ainda tiveram um pênalti não marcado, quando Phil Thompson interrompeu com a mão uma jogada de Viv Anderson dentro da área. Por fim, rei morto, rei posto: o time de Brian Clough eliminava o bicampeão europeu no pontapé inicial para seu próprio bicampeonato da Champions – que seria encerrado com outro título dos Reds.

Porto x Milan (1979-80)

Campeão italiano depois de 11 anos, o Milan voltava à Copa dos Campeões buscando repetir as campanhas dos títulos conquistados nos anos 60. No entanto, teria que superar duas partidas importantes: a do técnico sueco Nils Liedholm, ídolo do clube também como jogador, mas que havia topado o desafio de tornar a Roma uma grande força do calcio; e a do craque Gianni Rivera, o “Bambino D’Oro”, que depois de nada menos que 19 temporadas defendendo o rossonero em campo, havia pendurado as chuteiras.

Mesmo assim, havia talento e experiência em Milão – a começar pelo veterano goleiro Enrico Albertosi, vice-campeão do mundo pela Azzurra em 1970, e agora perto de completar 40 anos de idade – combinados à juventude de talentos que surgiam, como os zagueiros Fulvio Collovatti e Franco Baresi, de apenas 19 anos. No lugar de Liedholm, o comandante era Massimo Giacomini, ex-técnico da Udinese, com a qual vinha de dois acessos consecutivos da Série C para a Série A.

Porém, após um empate sem gols na ida, no antigo Estádio das Antas, o Porto surpreendeu e venceu no San Siro por 1 a 0, gol de falta do brasileiro Duda (revelado pelo Sport, mas com carreira feita em Portugal), justamente em falha do experiente Albertosi. No fim do jogo, o Milan ainda teve o azar de ver uma bola chutada por Alberto Bigon carimbar a trave e correr por toda a linha de gol, sem ninguém aparecer para concluir. O Porto cairia logo na próxima fase, diante do Real Madrid. Mas para o Milan, a temporada traumática estava apenas começando: terceiro colocado ao final da disputa da Série A, o clube acabou rebaixado por envolvimento no escândalo do Totonero. Depois disso, só voltaria a disputar a Liga dos Campeões na temporada 1988-89, na qual aí sim teria sucesso, com o título conquistado pelo elenco estelar comandado por Arrigo Sacchi e bisado no ano seguinte.

Bordeaux x Athletic Bilbao (1984-85)

Pouco mais de dois meses após as seleções de França e Espanha decidirem a Eurocopa de 1984 em Paris, seus campeões nacionais, Bordeaux e Athletic Bilbao, mediam forças logo na primeira fase da Copa dos Campeões. No comando dos dois times, curiosamente, dois treinadores que futuramente dirigiriam por longo tempo as equipes nacionais: Aimé Jacquet e Javier Clemente, respectivamente.

O Bordeaux, estreante em Champions, possuía um time mais técnico, que incluía vários jogadores rodados, de seleção francesa, ponteados pelo baixinho genial Alain Giresse,  além do goleiro Dropsy, o lateral Battiston, o volante Girard, o centroavante Bernard Lacombe e o atacante alemão Dieter Müller. Já o Athletic, bicampeão espanhol e eliminado nas oitavas pelo Liverpool na edição anterior, apostava na raça e na velocidade para ir mais longe. De experientes, contava com o duríssimo zagueiro Goikoetxea, o lateral Urkiaga, o ponta Dani e o centroavante Sarabia – os dois últimos, opções de banco no jogo de ida. E dois jovens talentos despontavam: o goleiro Zubizarreta e o atacante Julio Salinas.

Na primeira partida, no Parc Lescure, o Bordeaux saiu na frente, com Dieter Müller, e Endika empatou para os bascos logo depois. Na etapa final, Battiston pôs os franceses novamente na frente e Salinas tornou a empatar. Mas Lacombe, a dez minutos do fim, aproveitou bom lançamento da defesa para dar a vitória ao time da casa. Na volta, no San Mamés, o Athletic frustrou sua fanática torcida ao não conseguir sair do 0 a 0 e deu adeus precocemente mais uma vez. Já o time de Giresse chegaria às semifinais, caindo para a Juventus de Platini – exatamente o jogador que levara a França ao título da Eurocopa.

Porto x Ajax (1985-86)

Em meados dos anos 80, o Porto começou a despontar não apenas como principal rival do Benfica no cenário nacional como também no papel de força continental. Em 1984, havia chegado à sua primeira final europeia, contra a Juventus na Recopa. E em 1987, conquistaria pela primeira vez a Liga dos Campeões, batendo o Bayern de Munique na decisão. Entre uma decisão e outra, houve este duelo contra Ajax.

O time holandês, dirigido pelo recém-aposentado Johan Cruyff, buscava retornar à sua época de glórias continentais do início dos anos 70, e tinha talento de sobra para a empreitada, ancorado na trinca formada por Frank Rijkaard, Ronald Koeman e Marco Van Basten. Em torno deles, giravam neste novo carrossel o veterano Arnold Muhren e jovens talentos como Sonny Silooy, Gerald Vanenburg, John Van’t Schip e o “goleiro-líbero” Stanley Menzo.

Do lado português, apesar de contar com o promissor meia Paulo Futre, o experiente goleador Fernando Gomes e o rápido atacante brasileiro Juary, o ponto alto da equipe era a força do sistema defensivo (nas duas temporadas anteriores da liga lusa, sofrera apenas 22 gols em 60 partidas). Curiosamente, os gols da vitória por 2 a 0 na partida de ida, no Estádio das Antas, foram marcados por defensores: o lateral-esquerdo Laureta abriu o placar logo aos seis minutos e o zagueiro brasileiro Celso (ex-Vasco e Bahia) fez o segundo, aos 14 da etapa final. Na volta, mais uma vez, a defesa portista garantiu o resultado: parou novamente Van Basten e segurou o 0 a 0 que valeu a passagem para as oitavas. Nesta fase, porém, não foi possível repetir a façanha diante do Barcelona, com a eliminação dos portugueses.

PSV x Bayern de Munique (1986-87)

Se o Ajax daquela segunda metade de anos 80 possuía um elenco de nível internacional, o do PSV não ficava atrás. Além de ter tirado, de uma temporada para a outra, Ronald Koeman e Gerald Vanenburg do rival, ainda contava com os experientes holandeses Hans Van Breukelen, Berry Van Aerle, René Van Der Gijp e Willy Van Der Kerkhof. E não ficava só nisso. Havia ainda a qualidade importada dos dinamarqueses Ivan Nielsen, Frank Arnesen e Jan Heintze e do lateral belga Eric Gerets. No elenco, havia até mesmo espaço para o atacante norueguês Hallvar Thoresen e o zagueiro canadense Randy Samuel, que ficaram no banco.

Mas o talento mais explosivo do time de Eindhoven não pôde entrar em campo contra o Bayern, na primeira fase da Copa dos Campeões: o meia Ruud Gullit. Ficou assim adiado por algumas temporadas o aguardado confronto clubístico entre o craque rasta e o meia Lothar Matthäus, maestro dos bávaros.

Em que pese toda a categoria de Matthäus e de muitos outros do elenco do time de Munique, especialmente do setor defensivo (o goleiro belga Pfaff, os defensores Pflügler, Eder, Brehme e Augenthaler), quem decidiu a classificação foi um jogador bem menos badalado: o atacante Reinhold Mathy, autor dos dois gols da vitória do Bayern (2 a 0) em Eindhoven, na partida de ida. Na volta, os comandados de Udo Lattek desperdiçaram inúmeras chances, mas como um empate sem gols servia, avançaram sem maiores sustos. Enquanto o Bayern acabou com o vice naquela temporada, derrotado pelo Porto, o PSV faturaria o único euopeu de sua história em 1988.

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Real Madrid x Napoli (1987-88)

Diego Maradona teria uma parada duríssima em seu primeiro confronto de Copa dos Campeões. Pelo Napoli, campeão italiano de 1987, enfrentaria logo na primeira rodada nada menos que o Real Madrid de Butragueño, Michel e Hugo Sánchez, que, naquele final da década de 80, era um dos poucos times europeus que jogavam de igual para igual com os principais da estelar Serie A – tanto que no ano anterior já havia eliminado a Juventus, com Platini e tudo, nas oitavas de final da competição continental.

Para a primeira partida, no Santiago Bernabéu, o desfalque do Napoli seria o brasileiro Careca. O Real Madrid, por sua vez, não teria Hugo Sánchez e… o público, já que a partida seria disputada com portões fechados, por punição da Uefa. Mesmo assim, o domínio merengue foi total. A rigor, o Napoli teve apenas duas chances de gol em todo o jogo (ambas perigosas, porém): uma com Giordano, que isolou com o gol vazio após Buyo caçar borboletas em um cruzamento, e outra com Sola, que acertou o travessão. Mesmo com muita qualidade do meio para a frente, quem decidiu o jogo a favor do Real foram os zagueiros. No primeiro gol, Sanchís desceu pela direita como um ala e só parou na área, derrubado pelo napolitano Renica. Pênalti, que o meia Michel converteu com categoria. No segundo, já aos 31 minutos da etapa final, Tendillo apanhou um rebote de escanteio e bateu para o gol.

Na volta, no San Paolo, com as equipes completas e torcida vibrante (aliás, cerca de 84 mil pessoas), foi a vez de o Napoli pressionar desde o início e abrir o placar logo aos dez minutos, com o lateral Francini, que teve de tentar duas vezes para vencer Buyo. O arqueiro espanhol ainda operaria dois milagres em chances de Careca – uma delas na pequena área – antes de, lá na frente, o zagueiro Sanchís dar um passe digno de Maradona para Butragueño tocar de leve, por cima de Garella, e empatar o jogo no último minuto do primeiro tempo.

Precisando de três gols em 45 minutos, o Napoli não teve forças para reagir, e o Real avançou com méritos. Dali em diante os merengues só teriam pedreiras na sequência: eliminariam Porto e Bayern de Munique – nada menos que o campeão e o vice do ano anterior – antes de caírem nas semifinais diante do futuro vencedor PSV, pelos gols fora de casa, após dois empates. Seria a chance mais lamentada entre as desperdiçadas pela Quinta del Buitre de levantar a Champions. Maradona, por sua vez, voltaria a jogar o torneio com o Napoli na temporada 1990-91, caindo nas oitavas diante do Spartak Moscou nos pênaltis.

Glasgow Rangers x Bayern de Munique (1989-90)

Este duelo envolveu metade da seleção alemã-ocidental e metade da seleção… inglesa. O Rangers, comandado por Graeme Souness, contava com o goleiro Chris Woods, o lateral Gary Stevens, o zagueirão Terry Butcher, e os meias Ray Wilkins e Trevor Steven, todos do English Team. Após a proibição dos clubes ingleses nos torneios continentais, a equipe do norte da Grã-Bretanha tinha se tornado um chamariz. Além disso, tinha ainda bons valores da seleção escocesa, como o zagueiro Richard Gough e os atacantes Mo Johnston e Ally McCoist (que ficou de fora dos confrontos).

Já o Bayern, dirigido por Jupp Heynckes, tinha cinco jogadores (Augenthaler, Reuter, Pflügler, Thon e o goleiro reserva Aumann) que conquistariam a Copa do Mundo na Itália dali a alguns meses, além do bom atacante Roland Wolfarth, do meia Thomas Strunz e – ironicamente – do atacante escocês Alan McInally, ex-Celtic e Aston Villa.

Na ida, em Ibrox, o time escocês abriu o placar com o ponta Mark Walters (outro inglês), cobrando pênalti do zagueiro norueguês Erland Johnsen em Mo Johnston. Mas a vantagem começou a ruir apenas dois minutos depois, quando Kögl acertou um bonito chute cruzado, empatando a partida. No segundo tempo, logo no primeiro minuto, o meia Olaf Thon deu lindo chapéu em Butcher e levou o tranco de Gary Stevens na área. Pênalti que ele próprio converteu. E aos 21, o Bayern se aproximou ainda mais da vaga com um balaço de Augenthaler da intermediária que morreu no ângulo de Chris Woods.

Em Munique, na volta, o Bayern apenas administrou a vantagem de dois gols, enquanto assistia ao adversário perder pelo menos duas chances claras, com Butcher e Mo Johnston, uma em cada tempo. Nove meses depois, vários jogadores presentes neste duelo se reencontrariam na semifinal da Copa do Mundo entre Alemanha Ocidental e Inglaterra. E outra vez os alemães venceram.

Stuttgart x Leeds (1992-93)

Mesmo com a criação de uma fase de grupos, na temporada 1991-92, nos primeiros anos todos os clubes disputavam as etapas eliminatórias anteriores. E, da mesma forma, o sorteio do mata-mata continuou a ser feito sem a distribuição de cabeças de chave, o que colocou, no ano seguinte, o campeão alemão e o campeão inglês frente a frente logo na fase de 16-avos de final.

O Leeds, de Howard Wilkinson – último inglês a fatura a liga de seu país – ambicionava conquistar o troféu que o havia escapado em sua era de ouro nos anos 60 e 70, comandada por Don Revie. Para isso, contava com jogadores de primeiro nível do futebol britânico, entre eles Gary McAllister, Gary Speed, Gordon Strachan, Steve Hodge, David Rocastle e David Batty, além do atacante francês Eric Cantona – que dali a menos de dois meses embarcaria para o Manchester United em transferência milionária. Já o Stuttgart de Christoph Daum, contava com jogadores com experiência de seleção, como o zagueiro Guido Buchwald e o goleiro Eike Immel, além do goleador Fritz Walter, homônimo do capitão da Alemanha campeã mundial em 1954. E parecia ter definido a classificação no primeiro jogo, quando aplicou 3 a 0 nos ingleses, com dois gols de Walter e um de Andreas Buck.

Nem mesmo a goleada aplicada pelo Leeds na partida de volta (4-1, com Speed, McAllister, Cantona e Lee Chapman marcando para o United e de novo Andreas Buck descontando para os alemães) tiraria a vaga, conquistada nos gols fora de casa. Mas aí veio a trapalhada de Daum. Sem notar que o Stuttgart já tinha três jogadores não-alemães em campo (o islandês Sverrisson, o iugoslavo Dubajic e o suíço Knup, que acabara de entrar), o treinador colocou um quarto estrangeiro, o zagueiro Jovica Simanic, também iugoslavo, o que contrariava a regra da Uefa.

Alertada pelos próprios alemães, a entidade levou a decisão aos tribunais e decidiu anular o resultado, decretando o Leeds vencedor do jogo de volta pelo placar de 3 a 0, e marcar uma terceira partida para campo neutro, em Barcelona, com as duas equipes disputando a vaga do zero. E desta vez deu Leeds, 2 a 1. O gol da vitória no Camp Nou veio por meio do reserva Carl Shutt, que tinha entrado em campo um minuto antes, no lugar de Cantona.