Douglas Costa figura entre os principais jogadores brasileiros da década, mas sempre com uma impressão de que seu potencial não é aproveitado ao máximo. O ponta teve bons momentos na carreira, sobretudo com o Shakhtar Donetsk e com o Bayern de Munique, mas as lesões tantas vezes atravancaram o seu momento. Nesta terça-feira, o Players’ Tribune publicou uma conversa com o gaúcho, em que ele comenta a maneira como lida com a realidade. Não escondeu que o pensamento de encerrar a carreira já passou por sua cabeça, mas também apresenta uma enorme força de vontade para resolver seus problemas e seguir em frente.

“Estava brincando com o Alex Sandro e disse: ‘Cara, tenho mais ressonâncias que presenças em campo’. O pessoal fala que o Douglas tem potencial para ser um dos melhores do mundo, mas as lesões atrapalham. Isso me incomoda, de fato. Você tem o potencial para ser um cara gigantesco e, por culpa minha ou não, não sei te dizer hoje, acaba não conseguindo estar no topo. Isso às vezes me incomoda”, contou Douglas Costa. “Tem momentos em que você se pergunta: eu deveria mesmo jogar esse esporte? Porque joga e machuca, joga e machuca… Aí depois você olha na TV, olha aquela paixão antiga e fala: ‘Se ele faz aquilo ali, eu também faço’. É isso o que me mantém vivo. Porque tenho a possibilidade de fazer isso. Muitas vezes quando você bate, bate, bate, se machuca…. uma hora fala chega. A questão não é mais financeira, não é ter o triplo de fama. A questão é fazer aquilo que tu gosta com prazer, era basicamente aquilo”.

Segundo Douglas Costa, a mudança do Bayern de Munique à Juventus foi um ponto de virada também para a sua carreira. Diante dos problemas físicos que seguiu enfrentando na Velha Senhora, passou a investir uma parte maior de seu tempo em descobrir o que estava acontecendo.

“Tive um 2017 que eu considero bom. O Bayern foi o top da minha carreira, todas as coisas que eu pensava em fazer dentro de campo eu consegui fazer. Era tudo com extrema facilidade. E aí depois, vindo para cá [a Juventus], os primeiros seis meses foram difíceis porque tive que me readaptar a um futebol que gosta de marcar, gosta de sair ao contra-ataque. Em 2018, eu tive muitas lesões e ninguém sabia o caso. No desenrolar de tudo, a gente soube que eu entrava várias vezes não machucado, mas não totalmente cicatrizado. Isso atrapalhou muito meu rendimento em campo. Eu voltava, achava que estava muito bem e sentia de novo”, afirmou.

“E quando as lesões apareciam eu me perguntava o que estava fazendo de errado. Ficava me perguntando por que não estava rendendo, por que não conseguia ter sequência. Isso acabava me machucando e eu procurei vários tipos de ajuda. Eu comecei com coach mental, depois fiz radiografia de tudo – de boca, de dente, porque através do dente pode trazer lesões… Fui pesquisando sobre tudo. E quando usava muito personal trainer por fora, queria saber se não tinha me afetado depois, se não pagava por isso. Foram diversas pesquisas, fui em doutores de alimentação. Consegui achar várias respostas, também com descanso, investir em recuperação, e acabei fazendo tudo isso”, complementou.

Douglas Costa também considera o exemplo de seus companheiros como algo fundamental para seguir em frente e procurar seu caminho: “Eu tenho exemplos positivos no meu clube, o Cris [Cristiano Ronaldo], o Dybala, as pessoas que vêm dando certo, vêm há muito tempo dando certo. Então o feedback deles é positivo e a gente acaba copiando. Escuto também os dois falando em pular um treino e não pular um jogo. Se não está bem, sai do treino e descansa. Acaba tendo umas malícias que pra eles dão certo e pra você também pode dar certo”.

“As ajudas que eu venho buscando têm dado resultado. Independente de todo mundo querer uma coisa imediata. Você fala: ‘Eu quero mudar de vida agora’. Mas as coisas com o tempo vão se ajeitando. A minha vida mudou assim [estala os dedos], talvez financeiramente ou a toda a minha família, mas no campo a gente continua com aquele passo devagar, somos humanos, não tem outro segredo. Não tem como eu comprar a forma física”, comentou.

Além disso, Douglas apresenta uma mente aberta em que seu foco é mesmo buscar o prazer dentro de campo. “Depois, de um tempo pra cá, eu falei: eu só tenho que relaxar. Desfrutar da minha vida, desfrutar do futebol. E tentar voltar, lutar, chegar até o final e dizer que eu dei meu máximo pra isso. Dizer que do início ao fim eu não fui meia boca, não fiz mais ou menos. Dei meu máximo, se o meu destino é ser isso, é isso”, analisa. “Aprendi a estar sempre alerta, o futebol não aceita nenhum desaforo. O futebol me ensina muito e me ensina todos os dias”.

O ponta cita até mesmo o jejum da Juventus na Champions League como um fator a mais em sua motivação diária: “A Juventus faz 25 anos que não ganha uma Champions League. Foi por isso que eu escolhi vir para a Juventus, porque quando eu estava saindo do Bayern de Munique tinha outras oportunidades também. Eu escolhi a Juventus porque seria um momento que entraria para a história”. Assim, apesar dos temores e do natural cansaço, segue em frente.

Na atual temporada, Douglas Costa disputou 18 partidas pela Juventus. Foi titular em apenas sete delas, embora com algumas atuações decisivas, a exemplo da vitória sobre o Napoli na segunda rodada da Serie A e da classificação sobre a Roma nas quartas de final da Copa da Itália. Potencial existe. Aos 29 anos, o ponta espera em breve uma sequência.