Um jogo de futebol tem 90 minutos como tempo regulamentar. Em nenhum deles o Borussia Dortmund esteve classificado. Aliás, em nenhum deles o Dortmund mereceu a vaga. Fez um jogo igual ao Málaga, mas não teve o ímpeto de outros jogos e iria jogando uma campanha espetacular na Liga dos Campeões pelo ralo. Mas os acréscimos, esses bandidos, também fazem parte do jogo. E quando sai um golzinho ali na base do abafa, a festa é bonita, mas relativamente comum. Se saem dois, é a catarse, o êxtase. Quase um orgasmo coletivo.

O gol sepultou o discurso de qualquer babaca que compra em qualquer esquina: o do “Amarelão”. Essa tese vagabunda, simplista e de fácil acesso, utilizada com a devida canalhice e oportunismo sempre com atletas brasileiros em Jogos Olímpicos,  e que pode ser colada em qualquer time derrotado. E já foi com o Dortmund. Jamais uma equipe boa pode ser imatura, azarada, ou mesmo inferior a um adversário vistoso tecnicamente. É amarelão e pronto.

Mas o Dortmund mostrou que, de amarelo, só tem a camisa. Por mais esforço que tenha feito Mario Götze para jogar a classificação por terra com seus 800 gols perdidos. Por mais problemas de lesão que o time teve durante a temporada, sobretudo com Hummels e Blaszczykowski. Em suma, o time tirou as fraldas da imaturidade. Fez uma primeira fase brilhante e, mesmo que perdesse para o Málaga, já havia mostrado que era capaz de coisas espetaculares. Em caso de derrota, a forma como ela aconteceu seria muito mais negativa do que o saldo da campanha em si.

Falar do “dedo do treinador” nesse momento é outro clichê fácil de comprar. Jürgen Klopp colocou Nuri Sahin em campo e o turco entrou muito bem. Meteu também Felipe Santana de centroavante e o brasileiro decidiu o jogo. Aliás, se há alguma conclusão lógica a ser feita nessa partida é a de que Felipe Santana é melhor do que Schieber, o inoperante e caro reserva do ataque aurinegro. E é superior como centroavante, posição na qual o cidadão não precisa saber jogar bola, e sim fazer gols.

Klopp, no entanto, não fez nenhuma mágica. Agiu no desespero e foi ajudado pela sorte. Em 99% dos casos, essa tática de ir para o desespero dá errado e não surte efeito quando o time precisa só de um gol. No caso da necessidade ser de dois gols, a coisa é ainda pior. Tudo bem, algum bitolado qualquer pode dizer que Santana, como centroavante, “acabou com a sobra” da defesa do Málaga, e que isso foi fundamental para que os dois gols acontecessem.

Mas é óbvio que o fundamental para a virada foi o time jamais ter deixado de acreditar. Correr feito um louco nos minutos finais e conseguir dois gols em duas bolas jogadas na área. É bem verdade que o último foi impedido, assim como o segundo do Málaga foi marcado em impedimento. Mas é claro que nenhum árbitro do mundo marcaria alguma irregularidade num lance daqueles. Se fosse na Libertadores, sairia escoltado por uns 200 policiais até o aeroporto e ainda assim correria perigo.

No fim, a classificação foi merecida. Pela reação, pela raça, por tudo. É a recompensa chegando para um time que encantou a Alemanha nos últimos três anos e foi capaz de enfrentar o Bayern Munique durante dois deles. E mesmo sendo azarão na Europa, pode surpreender e beliscar sua segunda Liga dos Campeões.