A Ponte Preta anunciou no seu site que o técnico da equipe, Doriva, pediu demissão do clube porque aceitou uma proposta do São Paulo. Uma notícia que pegou muita gente de surpresa. O técnico estava só há dois meses no cargo. É um bom nome, mas Doriva chega em um péssimo momento do São Paulo, de turbulência política, desmandos com um presidente politicamente isolado e sucedendo um técnico que tem um estilo muito diferente não só do futebol brasileiro, mas também dele, particularmente. Isso não significa que o trabalho não pode ser bem sucedido. O treinador terá a chance justamente de se adaptar a um elenco que é bem diferente dos que trabalhou até aqui. É, porém, uma mudança grande de estilo e de trabalho que não terá muito tempo para ser assimilada.

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Doriva mostrou que é um bom técnico. O estilo do técnico se mostrou muito diferente de Juan Carlos Osorio no São Paulo, tanto no Ituano, em 2014, quando foi campeão Paulista, quanto no Vasco, em 2015, quando foi campeão carioca. Fez bons jogos também no comando da Ponte Preta, como os 3 a 1 sobre o Santos. Aliás, o histórico recente do técnico contra o clube da Baixada Santista foi um dos motivos para a sua contratação, segundo o Globoesporte.com.

A carreira do treinador ainda é curta. O seu primeiro trabalho foi justamente no Ituano, em 2014. Depois, foi para o Atlético Paranaense no mesmo ano, mas acabou demitido depois de só oito jogos. Em 2015, estava acertado com o Botafogo de Ribeirão Preto, mas deixou o clube antes mesmo da estreia depois de um convite do Vasco. Pediu demissão do clube por causa do péssimo início no Campeonato Brasileiro. Assumiu a Ponte Preta em agosto. Na Ponte, foram 15 jogos, com seis vitórias, cinco empates e quatro derrotas.

O que caracterizou Doriva em seus times, especialmente Ituano e Vasco, os mais bem sucedidos, foi a organização defensiva. No Ituano, com uma equipe tecnicamente inferior aos adversários, conseguiu fechar espaços e trabalhar bem a bola no ataque para levantar a taça na final contra o Santos, depois de eliminar o Palmeiras – e de vencer o próprio São Paulo no Morumbi, ainda na primeira fase. No Vasco, com um time um pouco melhor, mas ainda atrás dos rivais em termos técnicos, também teve muita competência ao se defender. Foi a grande característica dos dois times, ainda que o Vasco não fosse uma equipe que atuasse baseado apenas na defesa, como era o Ituano.

Na Ponte, apesar do pouco tempo, teve momentos de muita força ofensiva, como nos jogos contra o Santos, 3 a 1 em Campinas, e no empate por 2 a 2 com o Corinthians. No São Paulo, Doriva terá à sua disposição um elenco que não tem como principal característica jogadores que marcam forte, que se caracterizam por fechar bem os espaços. Ao contrário, o time sofre na sua defesa. Conseguiu alguma estabilidade mais recentemente com Rodrigo Caio e Lucão. No meio-campo, o time tem mais jogadores para jogar com a bola do que sem. A defesa mais eficiente do São Paulo tem sido ficar com a bola. Um defeito, aliás, que não era uma característica só do time de Osorio. Com Muricy, o time também sofria com tudo isso.

Osorio sofreu para implantar ideias bastante diferentes no futebol brasileiro e alternou grandes atuações com derrotas desastrosas. Apesar disso, havia certa empolgação com o trabalho do colombiano, que conseguiu extrair bastante de jogadores desacreditados, como Lucão, zagueiro que se firmou, e até de Lyanco, que teve que ser titular quando faltaram opções. Sem falar em Breno, que voltou a jogar com o técnico, e de volante. Pato, que vinha de muitos altos e baixos, passou a ser mais regular com o técnico. E até Ganso passou a render melhor, sendo regular e é um dos melhores do time há uns dois meses. Doriva tem uma característica diferente, mas não terá tempo para testar jeitos novos de jogar. Terá que ajustar o time à sua maneira no tempo que for possível, tudo isso nas 10 rodadas finais do Campeonato Brasileiro e nas semifinais da Copa do Brasil. Será um desafio para o técnico.

Há ainda um fator que merece ser discutido. Doriva deixa a Ponte Preta na mão em uma fase final de campeonato, e escolher um técnico a essa altura é sempre complicado. Quando um time demite o técnico nesta mesma altura do campeonato, em geral, é criticado. E justamente. Então, Doriva, pela segunda vez, abandona o time, como foi com o Botafogo de Ribeirão. Claro que o São Paulo é uma grande oportunidade para ele, em um clube pelo qual atuou como jogador e teve uma passagem importante. É claro que são todos profissionais, que todo mundo tem direito de pensar em si. Só perde a razão de reclamar quando os clubes fazem o mesmo.

Doriva é um bom nome para o São Paulo, mas em um momento ruim. Não terá tempo para mudar uma filosofia que o time vinha se acostumando com Osorio. Terá um caldeirão ao seu redor, com a efervescência política do clube à sua volta. Não terá paciência de um presidente que já mostrou que não é confiável. Tem uma torcida impaciente, esperando que o time conquiste o título inédito da Copa do Brasil e consiga ficar entre os quatro primeiros no Campeonato Brasileiro. São muitos objetivos importantes em pouco tempo. Nesse sentido, Diego Aguirre teria sido uma transição menos turbulenta, porque tem um estilo mais parecido com o de Osorio, um jeito de jogar mais próximo ao que o técnico colombiano fazia.

Doriva sofrerá mais para implantar seu estilo. Tem potencial e poderá mostrar, neste curto período que terá à frente do São Paulo neste fim de 2015, que pode armar times de estilos diferentes e segurar a bomba que será estar à frente do time, à beira do campo, enquanto os bastidores do Morumbi fervem. Dá para dizer que Doriva é o cara certo para o São Paulo na hora errada. Se sobreviver a essa turbilhão do fim do ano, poderá começar 2016 com mais calma, trabalhar preparando melhor o time para ter o seu estilo e desenvolver um bom trabalho.