Nada como dois sentimentos fortes e um jogo de futebol para deixar os nervos à flor da pele e levar a provocação futebolística ao limite da agressão física. O dor dos argentinos por terem perdido a final da Copa do Mundo para a Alemanha, e desperdiçado a chance de quebrar um jejum de 24 anos sem títulos mundiais na casa do Brasil, aliou-se ao alívio dos brasileiros pela derrota dos rivais no Maracanã. O resultado foi um clima quente na saída dos torcedores após a partida deste domingo.

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Ou talvez tenha sido apenas o resultado de raiva reprimida. A alegria de quem ficou de cabeça baixa, por causa da humilhação sofrida há menos de uma semana, e finalmente viu um motivo para comemorar, mesmo que o sucesso seja de um terceiro, em contraste com a reação de quem não entende a audácia de provocar o finalista da Copa do Mundo dias depois de perder uma semifinal em casa por 7 a 1.

De qualquer jeito, o clima esquentou, com provocações e exageros dos dois lados. Os brasileiros cutucaram a onça com vara curta. Contavam até 32, o número mínimo de anos que a Argentina vai ficar sem títulos mundiais, e depois entoavam “Parabéns para você”. Comparavam o número de Copas do Cafu com os do país vizinho, e a única resposta sensata dos argentinos era lembrar a goleada da Alemanha.

Um apartamento na rua adjacente ao Maracanã foi até mais longe e colocou marchinhas de carnaval, como aquela que pergunta à jardineira o motivo de tanta tristeza. A provocação, a 15 metros de altura, era muito segura, mas nas ruas o punho do torcedor em prantos tem todas as condições de acertar o rosto do torcedor em júbilo. Isso chegou bem perto de acontecer pelo menos quatro vezes.

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Ainda dentro do estádio, a confusão começou no banheiro. Um gordo e caricato argentino, com um chapéu e vários mililitros de álcool no sangue, respondia às provocações com audácia. Encarava os interlocutores, a centímetros de distância, gritando muito rápido em castelhano. Um pouco exagerado, mas quem acabou passando do limite foram os brasileiros. Primeiro, um botafoguense o empurrou com as duas mãos. Em seguida, um homem sem camisa repetiu o gesto com o ombro. O argentino ficou possesso e resolveu tirar satisfação. Dificilmente, continuaria apenas encarando. Mas os voluntários, esses bravos heróis que não recebem nada para colocarem os seus corpos entre dois bêbados malucos, apartaram a briga.

Já no lado de fora, foi a vez de os argentinos perderem a cabeça. Um deles não aguentou a provocação dos brasileiros e estapeou a pilha de copos que este levava para casa como recordação. As coisas esquentaram e a polícia apareceu para apartar. Só que o torcedor canarinho, talvez precisando cumprir uma cota de provocações antes de chegar em casa, manteve a hostilidade. O resultado foi um pouco cômico porque o argentino chamou o policial e disse “ele está me provocando!”, como se o oficial fosse o diretor da escola, e o brasileiro, o aluno chato que senta na parte de trás da classe e fica atirando bolinhas de papel.

Quase ao mesmo tempo, outras confusões eclodiam ao redor do Maracanã. Um argentino seguia em frente, tentando fugir da briga, e o brasileiro, naquela articulação argumentativa que poucos conseguem alcançar, bradava: “Na minha terra, tem que falar a minha língua”. Que a diferença linguística não tenha sido o estopim da briga.

A situação era muito bizarra porque nenhum deles estava feliz por causa dos seus próprios méritos. Os brasileiros comemoravam a vitória da Alemanha, e os argentinos, a goleada que o Brasil sofreu do mesmo adversário. E os alemães, espertos, ficaram quietos e foram em busca de um lugar para tomar cerveja e celebrar. Esses, sim, têm muitos motivos para ficarem felizes na noite deste domingo no Rio de Janeiro.