“Tirei um peso das costas”. Depois de dois meses se preparando para voltar a jogar, a grande contratação do Botafogo na temporada voltou a campo na segunda-feira à noite, no jogo contra o Avaí, que fechou a 10ª rodada do Campeonato Brasileiro. Foram só seis minutos em campo. Montillo sentiu novamente a lesão e foi substituído. Saiu de campo, tirou a camisa e foi direto para o vestiário, de cabeça baixa. Era o fim. Não falou com ninguém na terça-feira. Na quarta, tomou a decisão: pediu rescisão de contrato com o Botafogo. Decidiu encerrar a carreira, aos 33 anos.

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Jogador que surgiu no San Lorenzo em 2002, quando conquistou o seu primeiro título, a Copa Sul-Americana daquele ano pelo clube argentino. Foi o único clube do seu país que defendeu. Jogou pelo Morelia, por empréstimo, em uma temporada. Depois, foi para a Universidad de Chile em 2008, onde brilhou. Foi lá, vestindo a camisa 10, que chamou a atenção do Cruzeiro.

A Raposa o levou para Belo Horizonte em 2010. Tornou-se ídolo, foi um dos melhores do Brasileirão naquele ano. Chegou a jogar pelo Santos, em 2013 e 2014, antes de ir para o Shandong Luneng, da China. Ficou dois anos e meio na Ásia, sempre especulado para voltar. O Botafogo finalmente conseguiu trazê-lo de volta em 2017.

Como Camilo era dono da camisa 10, que usava no Cruzeiro e no Santos, vestiu a 7, um número histórico no clube de General Severiano. Mal sabia ele que seria o seu último. Depois de 18 jogos e só um gol – na sua estreia, em um amistoso contra o Rio Branco, do Espírito Santo –, o jogador que encantou o Brasil se despedia dos gramados da maneira como nenhum jogador gostaria: por problemas físicos que ele não consegue resolver.

“Fiquei com vergonha. Mas não quero ter vergonha. Consegui muita coisa na minha carreira, além do futebol. Mas senti vergonha que nunca tinha sentido. Posso jogar mal ou bem, mas não assim. Ninguém quer machucar. Sei que criei uma expectativa muito grande. Foi o último soco que tomei. Não vou alimentar uma morte lenta. Pronto, acabou. O jogador de futebol morreu. Que apareçam muitos mais Montillo”, afirmou o argentino, emocionado, em uma coletiva de imprensa convocado para esta quinta-feira, no estádio Nilton Santos.

Montillo veio como a cereja do bolo de um Botafogo que se moldou na dificuldade. Um time que entrou em 2016 pensando em não ser rebaixado no Brasileirão, depois de voltar da Série B. Conseguiu ir além, terminar em quinto lugar e ir à Libertadores. Já era mais do que o esperado. Mas fez muito mais ainda. O Botafogo, com Montillo, derrubou campeões na primeira vez que a Libertadores teve três fases preliminares.

O Botafogo superou o Colo-Colo, com participação muito importante de Montillo. Depois, passou pelo Olimpia. Na fase de grupos, ficou em primeiro lugar em um grupo cheio de pedreiras: Atlético Nacional, Estudiantes e Barcelona do Equador. Montillo, porém, mal jogou. Lesionado, o argentino não conseguia entrar em campo muitas vezes. Duas, três, quatro, cinco lesões seguidas. Cobrança de alguns torcedores em suas redes sociais, o acusando de nunca jogar por fazer corpo mole, o levaram a pedir para não receber enquanto não se recuperar. O Botafogo foi digno e não aceitou.

“Não foi vaidade ou sacanagem. Eu tentei. Mas não deu. Peço desculpas pode não ter correspondido à expectativa dos torcedores. Fiz de tudo para voltar, mas com 3 minutos senti de novo. Nunca fiquei numa maca esperando algo acontecer. Sempre foi trabalhando e jogando bola. Dessa vez, cinco lesões em seis meses. Não é meu perfil. Meu perfil é estar em campo. Tenho que me reinventar e fazer outa coisa. Isso me fez dizer chega. Mais do que isso eu não posso fazer”, afirmou Montillo.

Ele foi além. “Fico muito triste porque o Botafogo acreditou muito em mim. Eu acreditei no Botafogo. Não é desculpa para ninguém. Acontece, já era. Outra coisa vem pela frente. Fui muito feliz na minha vida toda. Mas nesse momento eu estava sofrendo muito. O Botafogo não merece isso”.

O jogo contra o Avaí, nesta segunda, foi a gota d’água. A quinta lesão foi demais para Montillo. “Infelizmente, meu corpo começou a avisar que eu não ia ficar 100%. Tentei. Nessa última vez fiquei dois meses treinando. Fiz tudo para voltar e tentar ajudar. Não consegui. A genética não deixou eu fazer o que eu mais gosto. Sempre falei para minha esposa: ‘Eu vou jogar até o momento em que eu consiga dar meu máximo’. Esse momento foi agora”, declarou o agora ex-camisa 7 do Fogão.

Um adeus dado às lágrimas, já sem a roupa do clube, no estádio Nilton Santos, o palco do seu último jogo. Aos 33 anos, Montillo parecia ter futebol para muito mais. “Foram 15 anos muito bons para eu continuar uma coisa que sei que não vai dar certo. Prefiro ficar com as coisas boas que consegui no futebol, as amizades. E a melhor lembrança que fica é dos companheiros, que nos piores momentos sempre me ajudaram com uma palavra, com um sorriso. Nunca fui egoísta, mas nesse momento vou ser. Tirar esse peso das costas. Agradeço a todos pela compreensão. Sou um cara que sempre quis o melhor para mim e para minha família. E nesse momento, o melhor é parar”, disse Montillo.

“Não tenho o perfil de ficar numa maca tentando fazer uma coisa que não ia dar certo. Para o clube, e também para mim, a decisão é correta. Não vou ficar aqui cobrando um salário e esperando para ver se eu consigo jogar. Sei que não ia dar certo. Não posso treinar mais do que treinei nesses dois meses. Fiz tudo certinho e não deu certo. Chegou o momento de parar, deixar os meninos que estão vindo jogar”.

Montillo teve uma atitude rara. Decide abrir mão do contrato que tem. Não quer continuar se enganando, nem criando expectativas irreais nos torcedores ou para ele mesmo. Cinco lesões em cinco meses significa que desde o começo do ano a rotina de Montillo é de recuperação, tratamento e dor.

Atletas profissionais convivem com a dor diariamente, mas quem convive com lesões lidam com isso com ainda mais intensidade. Dor, dor, dor. Além da dor física, da recuperação muito trabalhosa e complicada, há a frustração, a destruição mental que as lesões consecutivas causam. O que Montillo relata na sua despedida é a dor emocional também. A frustração de se esforçar, de enfrentar a dor e, mesmo assim, não conseguir jogar, não conseguir render, não conseguir ser o que já foi um dia. É uma constatação dura. E é uma decisão difícil de ser tomada. Para ele mesmo, foi egoísta e só pensou em si, porque ele estava incomodado mais do que todos.

Veja um pouco do que disse Montillo na sua despedida:

Expectativa do torcedor do Botafogo

“O torcedor queria ver o Montillo bem, ajudando, jogando bem. Eu não conseguia. Ajudei no começo contra o Colo-Colo, mas não consegui ajudar do jeito que eu queria. Queria agradecer aos torcedores. Mesmo sem jogar bem, ele me respeita. E isso é algo que não se compra”.

“No momento que não sou útil, não dá mais. Esse momento foi agora. Feliz pela decisão que tomo e triste por não jogar no Botafogo o que não joguei na carreira. O clube acreditou em mim. E eu achei que fosse conseguir coisas importantes no clube. Não consegui dentro de campo. Mas fora consegui passar para os meninos um profissionalismo que vou levar para a vida toda”.

“Já falei ao Botafogo que estou à disposição. Vou ficar no Rio. Não como jogador, mas de alguma outra forma”

“Jair não concorda”

“Me falaram que eu podia ficar à vontade treinando, mas expliquei que fiquei treinando. Eu não podia mudar nada do que fiz. São 15 anos como jogador profissional. Entendo como se trabalha. Eu fiz a pré-temporada certinha. Prefiro sair. Até agora estava com cabeça para ajudar o time. Depois do último jogo, não. Não preciso disso. Tem jogadores que são muito fortes e conseguem ir além. Eu não consigo”.

“Prefiro guardar as coisas boas que fiz, conquistei, os amigos… E não com a imagem de um cara que não consegue jogar. No momento em que falei que não queria mais receber o salário, estava com a cabeça boa para treinar. O Botafogo não aceitou. Agradeço. Mas dessa vez fiquei sem força. Vi minha família sofrer muito”.

“Eu como homem da casa preciso estar com a cabeça boa. Ou a família começa a cair aos poucos. Senti que chegava em casa em todos estavam sofrendo muito. O primeiro que sofria era eu. Outro dia cheguei e os 4 começaram a chorar. Eu disse “deu”. O futebol te leva a ficar muito longe da família”.

“Ninguém morreu porque deixou de jogar futebol”

“Fiquei muito tempo fora de casa, foram 3 anos difíceis na China. Todos sabem que meu filho tem Síndrome de Down. Eles precisam de mim. Mas a maior causa não foi eles. Se eu tivesse condições de jogar, eu continuaria”.

“Meu filho Santino precisa de muito tempo. Agora vou ter um tempo para dedicar a ele. Ele precisa ser acompanhado no dia a dia. Minha esposa sempre o levava para todos os lugares. Agora vou ser um pouquinho pai. Vamos dividir. No início o descanso vai ser bom, mas depois vai ser difícil. Vou estudar algo que queria fazer. A vida continua. Ninguém morreu porque deixou de jogar futebol”.

Os números da carreira

Montillo deixa o futebol com 503 jogos na carreira, 88 gols e 116 assistências. Ele mesmo marcava cada dado da sua carreira. Os cinco títulos estão na sua história. Além da copa Sul-Americana de 2002 pelo San Lorenzo, ganhou também o Torneio Apertura do Chile em 2009 pela Universidad de Chile, o Campeonato Mineiro de 2011 pelo Cruzeiro, a Copa da China e Supercopa da China com o Shandong Luneng, em 2014 e 2015, respectivamente. Chegou quatro vezes pela seleção argentina, entre 2011 e 2013. Entrou em campo pelas Eliminatórias da Copa de 2014 duas vezes em 2013. Primeiro, contra a Venezuela. Depois, contra a Colômbia, foi titular substituindo o suspenso Lionel Messi. O técnico era Alessandro Sabella.

A camisa 7 do Botafogo foi a última que Montillo vestiu. Que honra. Logo a camisa que serpenteou pelos campos do mundo com o talento de Garrincha. Mesmo que a sua passagem não tenha sido marcante, estará na sua história. Foi a última camisa que vestiu. Uma camisa pesada. Gloriosa. Terá o seu nome com a camisa 7 eternamente marcado no seu coração.

Walter Montillo deixa o campo pelo Botafogo pela última vez (Foto: Satiro Sodré/SSPress/Botafogo)
Walter Montillo deixa o campo pelo Botafogo pela última vez (Foto: Satiro Sodré/SSPress/Botafogo)