Dono de uma grande história, Sala é daqueles jogadores com os quais qualquer torcedor se identifica

Centroavante aguerrido e que enfrentou desconfianças para se firmar, o argentino atravessava a melhor fase da carreira

Emiliano Sala atravessava a grande temporada de sua carreira em 2018/19. O atacante argentino já era um dos jogadores mais importantes do Nantes, mas nunca tinha exibido um nível tão alto dentro de campo. Eficiente diante das redes, brigava pela artilharia da Ligue 1 e passou a atrair as atenções de outros clubes da Europa. Assim, mesmo lutando contra o rebaixamento, o Cardiff City surgiu como uma ótima oportunidade. A chance de apresentar suas virtudes na Premier League e, quem sabe, almejar passos maiores. O sonho poderia se sugerir tardio a um atleta na casa dos 28 anos, mas se casava perfeitamente com a história de superação do centroavante. A quem deixou a Argentina ainda jovem e rodou pelas divisões de acesso na França, o novo desafio certamente o motivava. E eis que o futuro se tornou nebuloso. Justo no dia em que Sala iniciaria o próximo capítulo de sua trajetória, sua aeronave desapareceu sobre o Canal da Mancha. As chances de ter sobrevivido são mínimas.

VEJA TAMBÉM: Aeronave que levava Emiliano Sala a Cardiff desapareceu sobre o Canal da Mancha

Emiliano Sala é daqueles jogadores com os quais qualquer torcedor costuma se identificar. Um batalhador que representa a ambição de tantos garotos pelo mundo afora, sobretudo na América do Sul. Nascido na província de Santa Fe, em um povoado de três mil habitantes, o menino de família humilde iniciou sua carreira no San Martín de Progreso. Aos 14 anos, já defendia o segundo quadro do clube, até ganhar a primeira grande oportunidade: passou a treinar com o Proyeto Crecer, uma escolinha de futebol ligada ao Mallorca e ao Bordeaux. Passou por períodos de testes no clube espanhol e no francês, mas prosperou mesmo com os girondinos.

O caráter de Sala, aliás, ficou evidente desde as primeiras peneiras. O esforço de seus pais era uma motivação a mais ao guri, que tentava recompensá-los com seu sucesso. Como contou à revista SoFoot, na edição de dezembro: “Na Argentina, o conforto e os locais para jogar futebol são piores que na França. Mas temos um temperamento muito forte. É verdade que possuímos um grande desejo, muita fome de nos tornarmos profissionais, de sermos escolhidos para jogar na Europa. Quando a peneira começa, todo mundo dá 150% de seu futebol. Meus pais sempre fizeram tudo por mim e por meu irmão mais novo, então sabíamos que eles estavam dobrando seus esforços e tínhamos que respeitar. Estava claro que eu não poderia ter o que queria, quando queria. Usava a mesma chuteira por meses”.

Dos 15 aos 20 anos, Sala seguiu atuando no Proyeto Crecer, morando longe de sua família. Todavia, a cada temporada, passava alguns meses na França para se adaptar. “Não foi nada fácil. Vinha à França, ficava por três meses, mas depois voltava à Argentina. Quase ao final deste período, eu me perguntei se realmente era o que eu queria ou se tinha que rever meu futuro, me preparar para estudar. Fiz essa pergunta várias vezes e falei com minha família, que sempre me apoiou”, contou o atacante, em entrevista ao La Nación. Aos 20 anos, enfim, assinou contrato com o Bordeaux. Porém, ainda demorou para ganhar a sua vez.

Sala chegou a ser negociado com clubes italianos, mas permaneceu na França. No time B, teve contato com lendas do futebol francês, do porte de Patrick Battiston e Marius Trésor. Fez a sua estreia pela equipe principal do Bordeaux em fevereiro de 2012, aos 21 anos, substituindo Jussiê em um jogo da Copa da França. Na temporada seguinte, o jovem seria emprestado ao Orléans e se destacou na terceira divisão, com 19 gols anotados. Depois, viveria ainda uma boa campanha na Ligue 2 com o Niort, acumulando mais 18 gols.

“No começo foi difícil morar na França. Eu não falava a língua, então tudo era complicado. Agora estou me saindo bem com o francês e tenho meus hábitos, então estou muito feliz e quero progredir no futebol”, declarou à SoFoot, em 2014, na época em que brilhava na segundona. Visão que complementaria recentemente ao Olé: “Foi um processo duro. Cheguei a um país distante de minha família, sendo ainda um menino. Era tudo distinto. Sabia que não seria fácil, mas tinha meu sonho claro de chegar à primeira divisão e construir minha vida futebolística por lá. Tudo isso fez com que as dificuldades fossem mais fáceis de superar. Já tinha feito o sacrifício de sair de casa aos 15 anos, assim continuei adiante e as coisas se acomodaram”.

Aproveitado pelo Bordeaux na temporada 2014/15, Emiliano Sala seria emprestado ao Caen no segundo turno do campeonato e ajudou o time a assegurar a permanência na Ligue 1. Foi o que atraiu o interesse do Nantes, onde finalmente ganharia sequência na elite. Por €1 milhão, o centroavante reforçou os Canários a partir de julho de 2015. Um negócio barato e certeiro da diretoria. “Não nego que por vezes eu tive momentos complicados. É parte da vida. Mas quando isso acontece, eu digo a mim mesmo que a melhor maneira de superar é trabalhando, para continuar progredindo. Eu sempre trabalhei desta maneira, discreto e quieto, fazendo o que amo”, assinalou à SoFoot.

Fã declarado de Lionel Messi e torcedor do Independiente, Sala tinha uma outra inspiração: Gabriel Omar Batistuta. O craque foi o seu modelo no início da carreira e o espelho em seus traquejos como centroavante. “Eu assisti muito aos vídeos de Batistuta. Tenho características parecidas. Mas eu vejo muitas partidas na TV, presto atenção nos atacantes e acompanho como eles se portam taticamente: como se movem, como estão no mano a mano, como finalizam… Mantenho tudo isso na minha cabeça e, quando estou nessas situações, sei como agir e quais as soluções”, contou à SoFoot, também em 2014.

O aprendizado ajudou Sala na sua ascensão. Como outros centroavantes, o argentino amadureceu um tanto quanto tardiamente na elite. E logo passou a ajudar o Nantes com seus gols. Durante a primeira temporada, ainda costumava sair do banco de reservas e balançou as redes seis vezes em 31 partidas pela Ligue 1. Virou titular absoluto em 2016/17, caindo nas graças da torcida por todo o seu empenho. Em duas edições seguidas do campeonato, anotou 12 tentos. Um número que pode não ser o mais impressionante, mas, em uma equipe de forte defesa, já serviu para impulsionar o ataque e colocar os Canários no páreo pelas vagas na Liga Europa.

Dono de um porte físico avantajado, com 1,86 m, o camisa 9 também combinava boa mobilidade e um enorme espírito combativo. Mesmo criticado por sua falta de técnica, Sala era do tipo de centroavante que trata cada jogo como uma final de Copa do Mundo. “As críticas te tocam, sim. Mas depende da maneira como elas são formuladas e de quem as formula. Sou uma pessoa bastante aberta e estou pronto a ouvir conselhos. Sempre ouço as pessoas que podem acrescentar algo a mim. Mas quando vem de outros, eu não me importo. Sempre haverá descontentes”, explicou, à SoFoot.

Embora o desempenho do Nantes na atual temporada não fosse bom, na metade inferior da tabela, Sala vinha carregando o time. Balançou as redes mais 12 vezes no primeiro turno, quase metade dos 26 gols assinalados pela equipe. Estava no páreo pela artilharia da Ligue 1, acompanhando Kylian Mbappé e Nicolas Pépé. Mas, em janeiro, a proposta do Cardiff City se tornou uma oportunidade de deslanchar. Os Canários bem que tentaram segurar o seu ídolo, em negociações arrastadas. Contudo, os €17 milhões oferecidos pelos galeses, além de multiplicarem o investimento inicial no argentino, também estavam acima do valor de mercado do centroavante de 28 anos. E lá foi ele em busca de suas pretensões.

Apesar da carreira estabelecida na Europa, Sala continuava com raízes fincadas em Progreso, onde cresceu. Todos os anos retornava à cidadezinha na Argentina. “Se tivesse mais tempo, usaria sempre para voltar até lá. Gostaria de um dia voltar ao futebol argentino. É uma dívida. Vim ao futebol francês aos 20 anos e não pude desfrutar a paixão que vivemos em nosso país. Tomara que no futuro tenha a possibilidade”, confessou, ao La Nación. A fase era tão boa que, na França, chegavam a comentar a possibilidade de ser convocado à Argentina. De qualquer maneira, o centroavante mantinha seus pés no chão: “Seria um sonho, mas não é uma obsessão. Sou consciente da qualidade e da quantidade de jogadores que atuam na minha posição. Se aparece uma convocação, seria bem-vinda”. Ainda assim, o artilheiro não descartava analisar chamados de França ou Itália, países aos quais também estaria apto, por ter a cidadania.

A personalidade de Sala, além do mais, era motivo de constantes elogios. Apesar da postura aguerrida em campo, fora dele era definido como um rapaz humilde e respeitoso. Alguém que fazia por merecer o sucesso, graças ao seu trabalho incessante. Como ele mesmo se descreveu ao Olé, em meados de 2018: “Sou um rapaz tranquilo e de família. Uma pessoa que no dia a dia se foca nos treinos e se sacrifica muito, mas que depois que sai do clube trata de se desligar. Gosto de fazer outras coisas para relaxar a mente. Sempre ando com algo diferente. O que mais gosto é ler, sobretudo gênero policial ou drama. Quando leio, realmente entro no livro e me mantenho ocupado. Com tempo livre, também aproveito para sair e tomar mate pelo centro de Nantes. São momentos que trato de usar para me desafogar do futebol, ou ir ver outros esportes, como o handebol. Vejo pouco o Campeonato Argentino, por causa do horário, mas gosto de assistir de tudo. Acompanho a Premier League e a Bundesliga, por meu estilo de jogo”.

Sala deixava claro que a Premier League poderia ser o ambiente perfeito para atingir o seu melhor futebol. A intensidade e a força física de seu jogo provavelmente se casariam muito bem com o estilo do Cardiff City. Não à toa, o centroavante exibia sua felicidade nas fotos após acertar a transferência aos Blue Birds, no último sábado. Uma história que, diante dos indícios, talvez não tenha um final feliz.