Eu tenho uma ilusão futebolística. Uma tese de sonhos. Gosto sempre de dizer que, para mim, o futebol foi inventado no Brasil. No exato momento em que um daqueles colegas de Charles Muller ou Oscar Cox erraram mais um passe e a bola passou por cima dos muros que cercavam o campo onde davam sua botinadas. Sei que não tinha muro, nem sei se davam botinadas, mas o sonho é meu, então me permito essas ilações.

A bola que saiu da botina de um gringo sem cintura não chegou ao chão do outro lado da rua. Ela terminou no peito de algum moleque miscigenado, que matou no peito, fez algumas embaixadinhas e passou de cabeça para outro menino, que repetiu a dose e assim, sucessivamente até o football virar futebol.

Antes que me chamem de xenófobo ou de praticante do nacionalismo barato, explico que não vejo o futebol apenas como algo brasileiro. Ele também existe na Argentina e em períodos esparsos na Alemanha e no Uruguai.

É lógico que o Barcelona acabou com a minha tese. Aquele time joga de forma linda, com uma efetividade impressionante, baseada no brilho individual. Reconheço que os torcedores do Barça podem criar teorias tão lúdicas como as minhas. Ela serão baseadas em algo sólido. Aquele time de sonhos.

A minha tem base no passado. Na dupla Pelé-Garrincha, maravilhando o mundo em 1958. Ah, aquele gol de Pelá contra Gales. Com 17 anos. É baseada no ataque de três meias canhotos – Gerson, Rivellino e Tostão, ao lado de Pelé e Jairzinho. E ainda havia Paulo César Caju no banco. A maior de todas as seleções.

E também é baseada em um time perdedor. O mais belo de todos os perdedores. O participante da mais doída de todas as derrotas. O time de Telê em 1982. Assim como só houve um Dream Team, só houve um quadrado mágico. O quadrado de Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, em que ninguém ficava no seu quadrado. Como me impressionava o toque de bola, a qualidade estética com que o balão de couro, como diziam os mais antigos, deixava a defesa e chegava ao ataque.

Sócrates e Zico eram ótimos. Sem dúvida. Mas a oito e a dez são camisas reservadas para craques mesmo. Os outros times da Copa de 1982, se tivessem jogadores talentosos, reservariam a eles a 8 e a 10. Ou, pelo menos, aquele espaço de campo anterior ao dos atacantes. Os meias devem ser habilidosos.

A novidade – revolucionária – era ver os volantes jogando como se fossem construtores de jogo. Com Toninho e Falcão, a bola era bem tratada. Não recebia chutões, não era pisada, os cravos da chuteira não traziam sofrimento. A bola tinha de tudo, principalmente amor.

Por isso, toda uma geração sofreu quando se consumou aquela traição. Ela não tinha motivo nenhuma de procurar um italiano – nem me interessa o nome desse amante latino – e dali entrar no gol brasileiro. São ilusões, é lógico. O que houve foi um erro de passe de Cerezo.

Se o Brasil ganhasse, seria difícil aos retranqueiros continuaram montando times com dois brucutus protegendo a zaga. E não vicejaria, como erva daninha, a maldita falsa dicotomia que tomou conta do futebol brasileiro: devemos jogar bonito ou devemos ser campeões?

Cerezo e Falcão estavam à frente de seu tempo. Pelo menos 30 anos, para chegarmos ao Barça de hoje. Agora, estão juntos na Bahia. Os dois gênios lutando por uma carreira de alto nível também no banco. Pena que apenas um deles será campeão. Apenas um deles receberá o empurrão da credibilidade. Os dois mereciam. Merecem muito mais.