O que soava como um passo importante rumo a uma nova fronteira no modelo de transmissão do futebol brasileiro, no fim das contas, se transformou em uma demonstração do velho coronelismo. A Federação Paranaense de Futebol proibiu que Atlético Paranaense e Coritiba exibissem o clássico deste domingo, na Arena da Baixada, através de seus canais oficiais no YouTube e no Facebook. A alegação da entidade para impedir a inovação se atrelava à quantidade de profissionais não cadastrados à beira do campo, segundo declaração do presidente Hélio Cury ao blog Bastidores FC – embora também se questione o contrato com a Rede Globo pelos direitos do Campeonato Paranaense, o qual, considerando a oferta financeira irrisória, tanto rubro-negros quanto alviverdes se recusaram a assinar. Diante da barreira imposta pelos cartolas, a dupla decidiu cancelar o AtleTiba.

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Pareceu até mesmo que o gramado da Baixada servia de picadeiro para o circo armado pela FPF. A decisão de Atlético e Coritiba sobre a exibição do confronto nas redes sociais foi anunciada durante a semana. No entanto, a federação não informou os clubes sobre o imbróglio e deixou para dar seu show de autoritarismo no círculo central. Os torcedores ocuparam as arquibancadas, os times participaram das cerimônias pré-jogo, os jogadores se posicionaram para o pontapé inicial e, só então, a entidade usou o árbitro de lacaio para anunciar o seu desmando. Não houve tempo para contatar as diretorias antes disso?

A partir de então, a tarde no Atletiba atravessou uma imensa incerteza. Os jogadores mantinham o aquecimento, as torcidas cantavam inflamadas e a transmissão nas redes sociais tentava manter os telespectadores atualizados, mesmo não sabendo inicialmente que ela própria era o problema. No entanto, enquanto a federação tentava forçar a realização do clássico sem a transmissão, ambos os clubes mantinham o posicionamento firme – embora também tivessem apresentado sua dose de intransigência ao proibirem que outros canais de comunicação captassem as imagens, atribuindo exclusividade aos seus meios oficiais.

Os times voltaram aos vestiários. Nas arquibancadas, torcedores rivais se uniram em uma só voz, vaiando a arbitrariedade. Enquanto isso, dirigentes e representantes da FPF discutiam o entrave. Depois de 40 minutos, a ratificação da decisão numa imagem simbólica: os jogadores de Atlético e Coritiba entraram em campo juntos e, de mãos dadas, se intercalaram no círculo central. Aplaudiram os torcedores, que, em reconhecimento à postura, também ovacionaram as duas equipes. O Atletiba não aconteceu. Diante da imposição da federação, não aconteceu. Coube às torcidas, então, esvaziar as arquibancadas.

“Infelizmente não chegamos a nenhuma conclusão. Acho que é uma atitude arbitrária do presidente da federação, que está impedindo a transmissão do jogo. É uma decisão isolada do presidente da federação, Hélio Cury, que não tem a sensibilidade e a responsabilidade de sentir o que está acontecendo aqui. Ele está impedindo um espetáculo. É uma decisão institucional dos clubes e não vamos permitir que se recue a transmissão”, declarou Luiz Sallim Emed, presidente do Atlético. “A união dos dois clubes é fundamental para quebrar essa barreira da intransigência de federações e essa coisa única de uma transmissão. Precisamos romper, não dá mais para ficar nisso. Basta. Não podemos ficar reféns de ideias estreitas. Isso é uma vergonha mundial”

O empecilho será bastante debatido ao longo dos próximos dias. Neste momento, imperam as indagações. Alguém incitou a federação a agir desta maneira? A federação só tomou conhecimento do impedimento em cima da hora do clássico? A relação de credenciamento sobrepôs as determinações sobre o cancelamento de um jogo previstas no regulamento do campeonato, no qual não se assinala nenhum tipo de barreira quanto às transmissões? Foi negociado um acordo específico sobre mídias digitais em relação à venda de direitos do campeonato? E, mais importante de tudo: mesmo sem se comprometer com qualquer contrato de transmissão, Atlético  e Coritiba permanecem amarrados a isso, sem poder buscar nenhuma alternativa? Ao que parece, direitos e deveres não foram deixados às claras. Há um cabresto invisível, ainda que faltem as tintas rubro-negra e alviverde nos papeis assinados.

Fato é que aquilo que deveria se tornar apenas uma experiência, como os próprios clubes declararam, acaba se transformando em algo muito maior. E a federação paranaense parece ignorar que só existe por causa dos clubes, em especial de Atlético e de Coritiba. Que o dinheiro das transmissões ainda seja fundamental ao futebol (não só ao brasileiro), ele não pode representar uma amarra àqueles que realmente são os donos do jogo: jogadores, equipes, torcedores. Há um exemplo de subserviência, intransigência e autoritarismo. Bom que os dois clubes se uniram e não aceitaram se submeter a isso. De marco no modelo de transmissão, este domingo pode ir além, e representar até mesmo uma ruptura na relação de poder imposta no futebol brasileiro.