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A Copa do Mundo vai para o Catar em 2022 e você, a essa altura dos acontecimentos, já está cansado de saber disso. Você, como leitor informado que é, deve saber que há suspeitas bastante grandes em relação a como o país do Oriente Médio conseguiu este feito, contra concorrentes tão pesados quanto Estados Unidos, para ficar só no favorito na época. As suspeitas ganham outra tonalidade quando há uma admissão em documento publicado pela Fifa que dirigentes receberam pelo seu voto no Catar. Aparentemente, isso aconteceu por um descuido ao divulgar um documento oficial. Ricardo Teixeira, Nicolás Leoz e Julio Grandona são descritos como três dirigentes que receberam suborno para votar no Catar em 2022. A Fifa, porém, nega que isso comprove a compra dos votos. Embora tenha usado isso como argumento aos advogados de Teixeira, como mostramos mais à frente.

No dia 26 de julho de 2019, em um julgamento do Comitê de Ética da Fifa, o ex-presidente da CBF e antigo membro do Comitê Executivo da Fifa, Ricardo Teixeira, foi banido para sempre do futebol. Uma medida em si um tanto inócua, já que o dirigente abdicou dos seus cargos na CBF e Fifa em 2012, depois de admitir à justiça suíça ter recebido suborno no caso da ISL. A Fifa, em um acordo de cavalheiros, não foi atrás de apurar a história em troca da renúncia do dirigente ao seu cargo na entidade. O interessante, porém, é o que traz o documento publicado pela Fifa em relação às acusações de corrupção contra ele, especificamente em relação ao voto no Catar para a Copa 2022.

O então presidente da CBF já pensava em renunciar quando surgiram as denúncias, lá em 2012, mas primeiro foi demovido da ideia pelo ex-presidente Lula. O político disse que seria uma admissão de culpa. Não adiantou. Teixeira pediu uma licença médica em 8 de março de 2012, uma forma de ganhar tempo. Quatro dias depois, decidiu renunciar à presidência da CBF de forma definitiva. Pouco depois, deixaria também o cargo também na Fifa, onde ele tinha pretensões de ser presidente um dia, substituindo o Poderoso Chefão Blatter. Como diz o ditado, vão-se os anéis, ficam os dedos.

Bom, foi nisso que apostou Teixeira. Passados sete anos e sem ter sido preso por qualquer uma das irregularidades que surgiram desde aquele dia, aparentemente ele apostou certo. Primeiro, Teixeira se exilou em Boca Ratón, na Flórida. O Fifagate, porém, explodiu em maio de 2015 e as coisas ficaram um tanto complicadas para viver no exterior. Teixeira voltou ao Brasil, assim como Marco Polo Del Nero, que saiu literalmente voando da Suíça para se isolar no Brasil, de onde nunca mais saiu.

O risco de ser preso aumentou consideravelmente para quem tinha esqueletos no armário. De certa foram, os dois ex-presidentes da CBF acabaram “presos” no Brasil, porque por aqui a lei proíbe a extradição de seus cidadãos. Se pisarem fora do país, podem ser extraditados aos Estados Unidos e responderão indiciamentos onde seus nomes aparecem.

Nesta edição do podcast no dia 28 de maio de 2015, nós falamos sobre o Fifagate e todos os personagens envolvidos, se você quiser ouvir (além de links que contam mais sobre tudo que aconteceu). Falamos, inclusive, como o depoimento de Alejandro Burzaco, ex-executivo da Tyc Sports, poderia abrir a caixa preta da Libertadores. Como você verá abaixo, Burzaco é uma figura importante para provar que dirigentes receberam dinheiro pelo voto no Catar 2022.

José Maria Marin, ao contrário dos compatriotas Teixeira e Del Nero, não escapou da operação do FBI em Zurique, naquele 27 de maio de 2015. Ficou preço na Suíça e posteriormente extraditado para os Estados Unidos. Lá, respondeu processo por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Foi condenado e segue preso em Nova York, junto com outros dirigentes.

Del Nero e Teixeira não podem deixar o Brasil, sob o risco de também serem presos. Teixeira é investigado na justiça da Suíça – e também na brasileira, embora desta, bom, não se espera nada. A investigação tem a ver com o desdobramento da Fifa que vemos agora. Teixeira e Del Nero foram indiciados por diversas irregularidades em uma operação nos Estados Unidos, em 2015, meses depois do Fifagate. Especificamos, um a um, quais eram os esquemas de corrupção pelos quais Del Nero e Teixeira foram acusados.

Há mais do que indícios: no Fifagate, alguns dirigentes foram presos por corrupção e um dos itens tinha a ver com a vitória do Catar na disputa para ser sede do principal torneio de futebol do mundo em 2022. E é isso que o documento na Fifa mostra.

A compra de votos para Catar 2022

Julio Grondona (esq.) e Ricardo Teixeira (Getty Images)

Só que o ponto que mais nos interessa aqui é a suspeita de ter recebido dinheiro para votar no Catar como sede da Copa de 2022, naquele dezembro de 2010. O primeiro indício que surgiu  da participação de Teixeira e Grondona como subornados para votar no Catar veio por um amistoso da seleção brasileira com a seleção argentina.

Aparentemente era só mais um desses muitos amistosos caça-níqueis que a seleção brasileira faz. Só que não era só isso, ao menos é como a justiça da Suíça enxerga. A suspeita é que o amistoso entre Brasil e Argentina jogado no estádio Khalifa International, em Doha (sim, o mesmo da final do Mundial de Clubes de 2019 e que será usado na Copa do Mundo de 2022), foi uma forma de pagamento de propina.

Teixeira e o presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), Julio Grondona, teriam sido pagos pelos seus votos no Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 pelo dinheiro deste amistoso. Ou, ao menos, um deles teria sido pago assim, já que o amistoso era organizado pela empresa que gere os amistosos da seleção brasileira.

O documento da Fifa é uma justificativa para o banimento de Ricardo Teixeira de qualquer atividade ligada ao futebol. É público e você pode acessar se quiser pelo link anterior (se não funcionar, ou se a Fifa tirar do ar por algum motivo, clique aqui e acesse uma cópia). E um dos pontos no documento traz o depoimento de Alejandro Burzaco (ainda que não identificado, mas batendo com documentos da época do seu depoimento, correspondem), ex-executivo da TyC Sports, que negociava diversos direitos de transmissão com a Conmebol na época, à Justiça dos Estados Unidos. É lá que o argentino descreve, em respostas ao procurador, com todas as letras, que Teixeira foi um dos que votou no Catar em troca de suborno:

DEPOENTE: Eu fui chamado ao apartamento de Julio Grondona na cidade de Buenos Aires em janeiro de 2011 e ele tinha uma conversa por telefone com Riccardo Teixeira [sic]. E quando ele desligou, ele me disse que o $ 1 milhão devido a Riccardo Teixeira [sic] deveria ser pago a ele.

PROCURADOR: E por que razão, se havia alguma, ele te falou isso?

DEPONTE: Ele me disse, ele me explicou que Riccardo Teixeira [sic] devia a ele $ 1 milhão porque Julio Grondona votou pelo Catar 2022 como nação sede da Copa do Mundo.

PROCURADOR: E baseado em suas conversas com Julio Grondona, que dirigentes da Conmebol receberam dinheiro pelos seus votos em conexão com a escolha do Catar?

DEPOENTE: Riccardo Teixeira [sic], Nicolás Leoz e o próprio Júlio Grondona.

“Provas de qualidade e testemunha crível”

Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, no dia 1º de dezembro de 2011 (Getty Images)

Este trecho do depoimento de Burzaco é grave e implica uma prova contra Teixeira. Só que a Fifa, questionada pelo New York Times, negou que a publicação seja uma prova ou admissão que houve compra de votos para a escolha da Copa do Mundo do Catar, em 2022.

“A referência à Copa do Mundo 2022 foi feita por uma terceira parte. Consequentemente, não é uma confirmação implícita que o senhor Teixeira recebeu propina por seu voto em conexão com a escolha da sede da Copa do Mundo de 2022”, afirmou a Fifa em comunicado. A entidade ainda ressaltou que o banimento por corrupção de Ricardo Teixeira está ligado a três torneios não relacionados com a Copa 2022.

O problema dessa resposta é que entra em contradição com o que a própria Fifa respondeu quando os advogados de Ricardo Teixeira questionaram o uso do depoimento de Burzaco. O brasileiro alegou problemas de saúde para não estar na audiência do Comitê de Ética da Fifa, mas seus advogados questionaram o uso do depoimento, uma vez que Teixeira ainda não foi processado com êxito em um tribunal.

A Fifa, porém, rechaçou o questionamento dizendo que a qualidade das provas e descrevendo a testemunha como “digno de confiança”. Ou seja: vale para questionar os advogados de Teixeira, mas não vale como prova que a escolha de Copa 2022 foi manchada por corrupção dos envolvidos e, portanto, foi ilegal?

A acusação sobre a Copa do Mundo de 2022 ter sido comprada pelo Catar no processo de escolha, finalizado em dezembro de 2010, fica ainda mais forte quando listamos os dirigentes que votaram. Mais da metade dos 22 dirigentes que votaram foram acusados de corrupção, incluindo Teixeira, Leoz e Grondona. O processo de escolha daquelas sedes para 2018 e 2022 ainda segue em investigação na Suíça.

O FBI anunciou em 2015 que estava investigando todo o processo de candidatura de 2018 e 2022. Além do processo ter sido manchado por supostos subornos aos dirigentes para que votassem no país, ainda há a sombra do trabalho escravo que acontece no país, especialmente nas obras de construção para o Mundial. O número de trabalhadores mortos assusta, ainda mais olhando para os grandes eventos anteriores.

O Catar, como era de se esperar, negou ter cometido qualquer irregularidade no processo de candidatura que venceu para sediar a Copa 2022. “Nós mantemos que nós conduzimos nossa candidatura eticamente e com integridade, aderindo estritamente a todas as regras e regulações para o processo de candidatura para as Copas do Mundo de 2018/2022”, disse o comitê organizador da Copa 2022.

Curiosamente, a Fifa tem feito um esforço para ter mais transparência, ou, ao menos, promover um verniz de mais transparência e anunciou em outubro a criação do seu novo portal jurídico. Com isso, a documentação relativa a decisões como a de banir Teixeira tenha sido tornada pública. E é curioso justamente porque essa decisão de tornar transparente tornou as coisas realmente mais escancaradas, mais do que talvez a Fifa mesmo quisesse ou imaginasse. Mais do que nunca, a Copa do Catar passa a ser ainda mais questionada.