Num ano de caos político e social em distintas partes da América do Sul, a Bolívia se aproxima do fim de 2019 com um futuro nebuloso. Depois da denúncia de fraude eleitoral e da destituição de Evo Morales, o país não tem muitas pistas sobre o que acontecerá nas próximas semanas. Os militares derrubaram o presidente, a alta cúpula do estado deixou seus cargos e o que se vive é uma extrema tensão – com protestos, atos de violência e desabastecimento. Assim, falar de futebol está distante de ser prioridade entre os bolivianos. E o que se nota é um tumulto que também se estende sobre os clubes, não só pela indefinição, mas pelos problemas particulares. Dos salários atrasados até mesmo a troca de socos, a tempestade se estende sobre os estádios.

Nesta terça, o Campeonato Boliviano completa um mês sem jogos. A paralisação foi ocasionada pelo entrave nas eleições, em meio à troca de acusações sobre a lisura no processo de votação. No início de novembro, o presidente Evo Morales tentou aproveitar o esporte para dar um sentido de normalidade, ao pedir a retomada das atividades. Acabou rechaçado por diversos atletas nas redes sociais, que negaram o retorno enquanto a situação não estivesse resolvida. E a situação pioraria bem mais com o passar dos dias, ante a queda do governante e seu asilo no México. As perspectivas de retomada do Clausura são mínimas.

A Conmebol bem que tentou pressionar os clubes bolivianos, mas a situação fugia totalmente de controle. Tanto é que, na última semana, a entidade continental também preferiu remanejar o Campeonato Sul-Americano Sub-15, que deveria acontecer no país a partir do final de semana. Diante da impossibilidade, mais uma vez Assunção servirá de tampão como sede do torneio. A paralisação do Campeonato Boliviano, por sua vez, cria um impasse quanto à definição dos classificados do país à Copa Libertadores – o que incomoda os cartolas da Conmebol muito mais do que a violência e a falta de recursos que afetam os bolivianos neste momento.

No último final de semana, os clubes bolivianos tentaram encontrar um caminho. Presidentes de todas as equipes da primeira divisão se reuniram para discutir a situação. Mas o fato é que nem de longe havia uma ideia. O imbróglio começou antes mesmo do encontro. Dirigentes de Santa Cruz de la Sierra se queixavam da mudança inicial do encontro para Cochabamba e prometiam um boicote – refletindo uma divisão histórica do país, entre leste e oeste, que também movimenta a situação política atual. Enquanto a região ao redor de La Paz possui presença mais marcante da população indígena, Santa Cruz é povoada principalmente pelos descendentes de espanhóis. O retorno a Santa Cruz esfriou o motim – o que não garantiu a tranquilidade do evento.

O ato mais “contundente” dos clubes foi publicar uma carta assinada pelos presidentes. Eles “convocaram a pacificação do país, solucionando as diferenças polícias e sociais através do diálogo”. Um discurso bonito, que mais parecia um cartão de Natal enviado a todo o povo boliviano, mas com pouquíssimos efeitos práticos – sobretudo ao futebol. Pior, os cartolas sequer foram capazes de dar o exemplo. O vice-presidente da Federação Boliviana de Futebol saiu no soco com um dirigente do Destroyers – um daqueles que haviam ameaçado o motim em Santa Cruz.

Os jogadores seguem treinando, mas sentem o impacto da ausência do campeonato. Sem a renda das partidas, os clubes bolivianos acabam vendo o rombo em seus cofres aumentar. Assim, algumas agremiações que já se encontravam em situação claudicante se afundam mais. É o caso do San José de Oruro, que não paga seus jogadores há quatro meses. Os atletas se ausentaram dos últimos treinamentos e aceitaram voltar sob a promessa de que receberão. Houve até uma troca de presidentes no meio do caminho.

O Sport Boys é outro em situação simular, com os atletas também sem ganhar há quatro meses. Outras agremiações têm dívidas menores, como o Oriente Petrolero, o Blooming, o Real Potosí e o Nacional Potosí. Até o Bolívar, potência local, só pagou os salários referentes a setembro na última semana. Há um claro entrave, entre o dinheiro que não cai nas contas e o dinheiro que não entra nas bilheterias.

Até existe um movimento para retornar às atividades neste final de semana e alguns times aumentaram sua carga nos treinos. Entretanto, dentro da paralisação por causa do entorno político, é possível que o Campeonato Boliviano retarde um pouco mais o seu reinício também em solidariedade aos jogadores sem salários. A Futebolistas Agremiados da Bolívia (Fabol) cogita uma greve se os casos de San José e Sport Boys não forem resolvidos. O sindicato entrou em contato com os capitães das demais equipes e alguns concordam com a possibilidade, incluindo Daniel Vaca, capitão do Strongest.

Outro ponto nevrálgico é a questão dos transportes. Com o cancelamento de voos pelo país, os clubes precisariam fazer suas viagens por terra. Segundo os próprios dirigentes, muitos jogadores temem por sua segurança, sobretudo os estrangeiros. Nesta Data Fifa, o goleiro Leonel Moreira, do Bolívar, não conseguiu se apresentar à seleção da Costa Rica por não conseguir sair do país. Ele deveria suplantar o lesionado Keylor Navas. Quando conseguiu viajar, ele aproveitou para levar seus familiares de volta ao país centro-americano.

Enquanto isso, o Jorge Wilstermann pensa em sua situação. Líder do Clausura com três pontos de vantagem, o clube promete solicitar o título se o campeonato não for retomado. Com isso, os Aviadores ganhariam uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores. O presidente da FBF, entretanto, havia sugerido um confronto com o Strongest – que possui campanha superior aos cochabambinos na tabela acumulada. O Wilstermann rechaça.

Na próxima quinta-feira, haverá mais uma reunião entre os clubes bolivianos da primeira divisão. A pressão para retomar o Clausura é grande, já que se aproxima a data limite para realizar as dez rodadas restantes antes do final do ano. Mas a resposta parece distante. O regulamento não prevê uma resposta definitiva e uma alteração de seu conteúdo depende justamente de um consenso entre os seus membros. As perspectivas não animam. E não é uma canetada dos clubes que irá convocar a normalidade no país. O futebol é mais uma parte da sociedade que encara as consequências da situação geral.

Enquanto isso, no Chile

Apesar das perspectivas de discutir uma nova constituição, o Chile também convive com os protestos e com o caos em suas ruas. No entanto, o Campeonato Chileno deverá voltar no próximo final de semana. Os jogadores se recusavam a atuar não apenas pela falta de segurança, mas também em apoio à movimentação popular. Já nesta segunda, a federação chilena e o sindicato de jogadores lançaram uma campanha para indicar sua visão neste retorno.

“Por um Chile mais justo” é a mensagem ecoada por capitães e outros jogadores em um vídeo lançado nas redes sociais. Eles desejam afirmar que o futebol pode não representar somente “uma distração em meio às manifestações”, mas também uma ferramenta a mais para reforçar as pautas sociais. Os atletas usarão uma braçadeira que trará a mensagem.