Do resgate à centralização de poder, os pontos positivos e negativos do Projeto Big Picture

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Não quero soar a pessoa mais cínica da face da terra, mas o que esperávamos? Bilionários não costumam virar bilionários dando dinheiro em troca de nada. Manchester United e Liverpool até topam ajudar as divisões inferiores da Inglaterra, mas com algumas condições. Quem assina o Daily Telegraph ficou sabendo antes de todo mundo – até mesmos dos clubes da Premier League que não são os “grandes”, o não tão famoso assim Bottom 14.

O Projeto Big Picture – bem explicado aqui, se quiser saber os detalhes antes de mergulhar na análise – não é uma proposta institucional da Premier League. A liga, aliás, o odiou tanto quanto o governo e a Federação Inglesa. É uma conversa de três anos entre os donos do Manchester United, a família Glazer, e o do Liverpool, John Henry, com o executivo-chefe dos Red Devils, Ed Woodward. O Chelsea também esteve bastante envolvido nas conversas e o projeto foi apresentado a Manchester City, Tottenham e Arsenal antes de aparecer nos jornais.

O presidente da Football League, responsável pela segunda à quarta divisão, Rick Parry, é bastante a favor e diz que a maioria dos clubes que representa também é. Ele também, só coincidentemente, é um ex-CEO da Premier League e do próprio Liverpool.

Liverpool, United e companhia precisariam arranjar mais oito votos dentro da Premier League para aprovar o que não é tanto um pacote de resgate quanto uma proposta de reforma, talvez a mais radical do futebol inglês desde a fundação da Premier League.

E eu sei que você quer saber também se é a favor ou contra, porque todo mundo na internet quer saber se é a favor ou contra todas as coisas, então vamos apresentar cinco pontos positivos do Projeto Big Picture, cinco negativos e depois a minha conclusão.

Pontos positivos

Mais dinheiro

Não lembro a última vez que aconteceu comigo, mas ganhar £ 250 milhões me deixaria feliz. Também estão previstos £ 100 milhões para a Federação Inglesa, ambos pagamentos únicos para cobrir os efeitos econômicos da pandemia. A história fica mais interessante com a reformulação da divisão do dinheiro de TV. Os direitos da Premier League e da Championship seriam negociados em conjunto, e 25% do bolo seria repassado aos clubes da Football League. Isso seria implementado em troca do fim dos paraquedas, auxílios que são pagos aos times rebaixados para ajudar a cobrir a enorme discrepância de receitas entre uma divisão e a outra, para que eles sejam capazes de manter pelo menos parte dos enormes salários que pagavam na Premier League, mas que criam distorções na Championship.

Há um argumento a ser feito que, embora a proposta diminua o tamanho da elite de 20 para 18, ela também tornará a segunda divisão um pouco mais próxima da primeira e talvez não haja um desespero tão grande para conquistar o acesso, o que tem levado donos inconsequentes a gastar mais do que podem em busca do pote de ouro da Premier League. Por outro lado, também, as estimativas é que esse crescimento seria de apenas £ 15 milhões por clube por temporada, o que não é o suficiente para transformar o Preston North End no Crystal Palace. Também há o temor de que, ao mesmo tempo, a distância entre a Championship e a League One será maior.

Essa proposta foi realizada dentro do contexto da pandemia, em que os clubes das divisões inferiores estão perdendo dinheiro a cada semana com os portões fechados, mas, mesmo quando não havia uma crise sanitária mundial, muitos deles ainda operavam em prejuízo e as falências se tornaram comuns. Um executivo dessa faixa da pirâmide disse ao The Athletic que a proposta traria mais estabilidade às ligas inferiores.

“O governo não nos resgatará no longo prazo. Eles estão muito ciente da cosmética de auxiliar uma indústria que tem muito dinheiro e gasta fortunas em jogadores. Eles farão uma solução de curto-prazo para cobrir perdas de bilheteria, mas um clube médio da League One ainda perde £ 3 milhões (por temporada), com ou sem Covid-19. A ideia do United nos dá mais segurança no longo prazo”, afirmou.

Menos calendário

A Premier League é conhecida por ser um pedacinho de Brasil na Europa no sentido de que chega um momento da temporada em que os clubes ingleses simplesmente não conseguem parar de jogar futebol. Já houve discussões se o calendário maior da Inglaterra não prejudicaria as campanhas europeias. Nos últimos anos, treinadores como Jürgen Klopp e Pep Guardiola tomaram posições fortes em público a favor da saúde física de seus jogadores. Klopp foi até mais longe e escalou times quase juvenis na Copa da Liga Inglesa e na Copa da Inglaterra.

Há dois fatores fundamentais que contribuem para isso: duas copas nacionais em vez de uma e a tradição de ter muitos jogos no fim do ano, entre o Boxing Day (dia imediatamente seguinte ao Natal) e o Revéillon. O projeto Big Picture abriria muito espaço no calendário. Para começar haveria quatro rodadas a menos da Premier League. A Copa da Liga Inglesa seria extinta e, considerando a pouca atenção que é dada a ela, até mesmo de clubes do meio da tabela que deveriam tratá-la como uma chance real de título, faria pouca falta. A Community Shield também desapareceria, o que não parece necessário. Há países que conseguem realizar sua Supercopa e ainda ter calendários civilizados. Na Inglaterra, é apenas um jogo.

A questão, porém, é se os clubes realmente usariam essas datas livres para descansar seus jogadores. O projeto também prevê que a Premier League comece no fim de agosto para abrir espaço a mais amistosos de pré-temporada e até para um torneio de verão entre os clubes da elite. Para ganhar mais um troquinho, claro. Há também temor que esse seja um primeiro passo para aderir às ideias de dirigentes como Andrea Agnelli, da Juventus, por uma Champions League expandida ou Superliga Europeia.

Demandas dos torcedores

Duas demandas importantes dos torcedores ingleses seriam atendidas. A primeira delas seria um teto para os ingressos de visitantes em £ 20, ajustado para a inflação a cada três anos. Tem sido uma reclamação constante que os mandantes praticam preços considerados abusivos para os fãs dos outros clubes. Outra proposta seria a permissão para torcer em pé em parte dos estádios, proibido desde a tragédia de Hillsborough. Ainda precisaria da aprovação do governo.

Os críticos da proposta dizem que está sendo oferecido exatamente os torcedores querem em uma tentativa de angariar o apoio das arquibancadas ao projeto. Por outro lado, se você não der seu apoio em troca de receber exatamente o quer, dará em troca do quê? A Associação dos Torcedores da Inglaterra, porém, ficou bem irritada com a maneira como a discussão foi conduzida – sem envolvê-la.

“Mais uma vez, parece que as grandes decisões do futebol estão aparentemente sendo costuradas pelas nossas costas por donos bilionários de clubes que continuarão a tratar o futebol como seus feudos pessoais. O futebol é muito mais do que um negócio a ser dividido; é parte de nossas comunidades e de nossas heranças, e os torcedores de futebol são o seu sangue. Como principais acionistas do futebol, é crucial que os torcedores sejam consultados e envolvidos nas tomadas de decisão do jogo”, disse.

Sobre as propostas em si, a entidade prometeu estudá-las em detalhes e que manterá uma mente aberta, mas que “poucos de nossos membros alguma vez expressaram a visão de que o futebol precisa de uma concentração de poder nas mãos de seis clubes cujos donos são bilionários”.

Regulamentação financeira

As ligas inglesas têm suas próprias regulamentações financeiras, mas a proposta faria com que elas fossem alinhadas com a da Uefa – o famoso Fair Play Financeiro. Parece ser interessante, especialmente se for bem aplicado, ao contrário do que a Uefa faz, com punições rigorosas, ao contrário do que a Uefa faz, e de maneira homogênea com todos os clubes, ao contrário do que a Uefa faz.

Muitos clubes das divisões inferiores estão sempre à beira da falência e qualquer maneira mais eficiente de controlar suas contas seria bem-vinda. Discussões por um teto salarial para a Football League estão em andamento desde o começo da pandemia e também fazem parte do Projeto Big Picture. A crítica a essa ideia é a mesma do cenário europeu: tornaria mais difícil a um novo dono comprar um clube da Premier League e gastar adoidado para tentar se aproximar da elite, que já gastou adoidado para chegar aonde está.

Dinheiro destinado a infraestrutura

Essa é uma proposta menor, mas interessante. Os clubes da Premier League contribuiriam anualmente 6% da sua receita bruta para financiar reformas nos estádios das quatro primeiras divisões, um pagamento de £ 100 por assento todos os anos. O dinheiro seria exclusivamente utilizado para melhorar a experiência dos torcedores que vão aos jogos. Há de fato muitos clubes nas partes inferiores da pirâmide que atuam em estádios mais tímidos, menores, sem muita infraestrutura e bem distantes do nível da Premier League.

O primeiro contraponto: clubes da Premier League também poderiam usá-lo. Por exemplo, o Liverpool poderia aproveitar o mecanismo em parte da sua nova reforma em Anfield, e o Tottenham poderia pagar alguns boletos do seu novo estádio.

O segundo contraponto: por que os clubes se esforçariam em ter um estádio com o mesmo nível da Premier League se agora eles praticamente não têm chances de chegar lá?

Pontos negativos

Mais poder ao Big 6

Os caras nem disfarçaram, não é? A proposta para reformular o atual sistema de votação, a pedra angular da Premier League desde a sua fundação, é descaradamente desenhada para dar poder aos seis clubes mais ricos do país. Funcionaria assim: em vez de um voto por cabeça, apenas os nove clubes que passaram mais tempo na elite teriam poder de decisão. São eles Arsenal, Tottenham, Manchester City, Manchester United, Liverpool e Chelsea, além de Southampton, Everton e West Ham.

O critério já não é ideal. Os atuais donos do West Ham não estão aptos para decidir o cardápio do Estádio Olímpico, e o fato de terem mais temporadas na Premier League do que, por exemplo, o Leicester, um clube muito mais bem administrado, não deveria lhes dar esse tipo de privilégio. Acontece, porém, que tem mais uma pegadinha: as propostas seriam aprovadas com dois terços dos votos desses nove. Fez a conta? Não é uma tremenda coincidência que dá exatamente seis?

Essa é a principal Caixa de Pandora que seria aberta. A menos que os seis clubes mais ricos do país de repente encontrassem a solidariedade em seus corações, todas as mudanças da Premier League seriam aprovadas ou rejeitadas de acordo com os seus próprios interesses. Isso pode abranger desde regras, como o número de substituições, ao uso do assistente de vídeo, por exemplo, ou quando e em qual momento será a pausa de inverno. Eles também poderiam decidir os próximos CEOs da liga inglesa – provavelmente (certamente) algum executivo alinhado ao que desejam – ou até mesmo modificar a distribuição dos direitos de TV.

Em um cenário absolutamente hipotético, eles poderiam também impedir que um país como, sei lá, a Arábia Saudita, comprasse um clube como, sei lá, o Newcastle, com medo de que surgisse mais um concorrente bilionário.

Premier League com 18 clubes

Quando lembramos de times como o Norwich da última temporada, ou o Derby County de anos atrás, não parece uma má ideia diminuir o número de participantes da Premier League. Eliminar algumas rodadas não apenas diminuiria o fardo do calendário, como também elevaria o nível médio das partidas. Mas você já notou quantos clubes relevantes existe na Inglaterra? Dica: são mais 150 anos de história.

Um século e meio é tempo suficiente para atingir o auge, o fundo do poço, e voltar a um meio do caminho, como acontece frequentemente nas divisões inferiores da Inglaterra. A Championship já esteve mais estrelar que a atual, mas, ainda assim, conta com um tetracampeão nacional (Sheffield Wednesday), dois tricampeões  (Blackburn e Huddersfield), dois bicampeões (Preston North End e Derby County) e o Nottingham Forest, o caso bizarro de clube que tem mais títulos europeus (dois) do que ingleses (um).

Você encontra outros descendo a pirâmide. O Sunderland, aquele do documentário, tem o mesmo número de títulos da primeira divisão que Chelsea e Manchester City. As glórias de muitos deles estão bem distantes, mas ainda são clubes orgulhosos, com torcedores orgulhosos, e há outros que talvez não tenham conquistado títulos importantes, mas significam muito para as suas comunidades.

Os torcedores de times menos afortunados da Inglaterra se acostumaram a desfrutar do que têm. Muitos curtem o clube pelo clube, seja na quarta ou na segunda divisão, mas o sonho de chegar um dia à Premier League também está sempre presente. Ouvi um jornalista torcedor do Swansea no podcast do Guardian dizendo que, quando os galeses subiram, em 1981, ele colocou um pôster no quarto que comemorava os duelos contra Liverpool, Manchester United e…. Ipswich, que era o atual campeão da Copa da Uefa. As coisas são muito fluídas na Inglaterra.

Eles estão cientes de que, salvo circunstâncias excepcionais, que geralmente envolvem petróleo, a atual conjuntura da pirâmide impossibilita um novo Nottingham Forest, mas o sonho de ter alguns anos contratando bons jogadores, fazendo grandes duelos no Emirates ou em Old Trafford, eventualmente beliscando uma campanha europeia, ajudam-nos a suportar a realidade do futebol cotidiano.

Há algo de romântico e democrático no fato de que você pode montar um time e subir todos os degraus da pirâmide até o seu ponto mais alto e glamoroso. Essa possibilidade já é basicamente teórica para a maioria dos milhares de clubes da Inglaterra. Reduzi-la um pouco mais seria cruel.

Um time da Premier League nos playoffs

Dentro da nova proposta, apenas dois clubes seriam rebaixados da Premier League. O 16º colocado disputaria os playoffs da Championship pela possibilidade de permanecer e seria muito provável que conseguisse. Não parece necessário continuar batendo na tecla da diferença de receitas que existe entre as duas primeiras divisões do futebol inglês – e que continuaria existindo de maneira significativa, mesmo com a nova distribuição dos direitos de televisão. Isso quer dizer que, além de ter duas vagas a menos na elite no âmbito geral, haveria menos clubes da Championship nos playoffs, e eles ainda teriam que enfrentar um adversário com orçamento muito superior aos para conquistar o acesso.

Para ser sincero, os exemplos dos últimos quatro anos não ajudam meu argumento. Bournemouth, Cardiff City, Swansea e Hull City eram equipes financeiramente modestas. No entanto, mesmo assim, o Bournemouth seria favorito imediato à vitória aos playoffs. Imediatamente antes desses quatro, o representante da Premier League seria o Newcastle. Na última temporada, o West Ham ficou pertinho de se complicar de verdade, apesar de ter uma das maiores folhas salariais da Inglaterra.

Os playoffs do rebaixamento podem ser interessantes, mas, dentro de uma proposta que já reduz a possibilidade de acesso aos clubes da segunda divisão, e com uma distância financeira tão grande quanto a da Inglaterra, eles seriam vantajosos demais aos clubes da Premier League. Na Alemanha, em que há um equilíbrio maior, o representante da Bundesliga conseguiu confirmar sua permanência em sete dos últimos oito duelos contra times da segunda divisão. Imagina na Inglaterra?

Possibilidade de emprestar até 15 jogadores

Não é que já não acontece. Clubes como Manchester City e Chelsea usam seu poder financeiro para recolher jovens talentos ao redor do mundo e os emprestam para ver o que que rola. Essa nova proposta facilitaria esse processo porque permitiria que até 15 jogadores fossem emprestados dentro do cenário doméstico, até quatro para o mesmo clube, e não haveria limites de jogadores emprestados nos elencos.

A Premier League não precisaria mais fazer parceria com equipes do exterior. Poderia manter suas promessas em território nacional, sob próxima supervisão e se adaptando ao país. O principal, porém, é que, sem um limite para receber empréstimos, o espaço para jovens seria ainda menor. Muitos clubes poderiam simplesmente fechar suas categorias de base e montar equipes de aluguel, sem nenhum tipo de identificação ou projeto de médio prazo.

Haveria também o potencial de criar distorções nos patamares inferiores que não dependem de competência, mas da relação que um Fleetwood Town tem com o Chelsea ou o Tottenham, por exemplo. E ainda seria inserida uma cláusula que permitiria que o empréstimo fosse cancelado quando houvesse uma mudança de treinador no time que detém os direitos do jogador. É mais uma maneira de a Premier League impor o seu poder financeiro.

Maneira como o processo foi conduzido

Aqui é que eles realmente fizeram bobagem. A proposta tem alguns méritos, outras ideias precisam ser mais bem discutidas, e se o Projeto Big Picture fosse apresentado de maneira clara com discussão aberta a todas as partes do futebol inglês – o “Bottom 14” da Premier League, o restante da pirâmide, a Federação Inglesa, o futebol feminino, as emissoras de televisão, a imprensa e os torcedores – ele provavelmente seria recebido de outra forma. Do jeito como ele não foi apresentado – simplesmente apareceu no jornal em um belo domingo de manhã – parece que United e Liverpool estavam tentando costurar um acordo de bastidores para impor sua vontade ao restante da indústria. Segundo o The Athletic, clubes da Premier League estão vendo o projeto como uma “aquisição hostil” e uma fonte do Big Six admitiu que a ideia é mesmo um “golpe ou uma revolução”.

E essa nem é a questão mais importante. O projeto vinha sendo discutido há três anos. Por que avançá-lo agora? Porque a pandemia deu poder de barganha suficiente para os poderosos pisarem o pescoço dos menores. Vocês estão desesperados por dinheiro? Ok, mas tem que ser do meu jeito. É simplesmente errado aproveitar um momento de vulnerabilidade para impor os seus interesses em troca de ajuda a quem está precisando. A Premier League tem a obrigação moral de auxiliar o restante da pirâmide a superar os impactos da pandemia, e, uma vez que todos estejam mais ou menos saudáveis para uma negociação de verdade, todos esses pontos podem ser discutidos em um certo pé de igualdade.

Lembra quando o diretor executivo do Liverpool, Peter Moore, se vangloriou de usar os ideais socialistas de Bill Shankly na administração do clube? Que eles sempre se perguntavam o que Bill Shankly faria e o que Bill Shankly diria?

Bill Shankly diria que vocês deveriam estar envergonhados do que estão fazendo do jeito como estão fazendo.

Mas e aí, é bom ou ruim?

Uma reforma de cima para baixo nunca terá legitimidade sem um amplo debate público, com direito de opinião a todos os diversos interesses do futebol inglês. Do jeito que o processo foi conduzido, parece realmente um golpe dos clubes mais ricos que estão aproveitando um momento de vulnerabilidade e desespero do restante da pirâmide para tomar o poder. Sendo assim, voltem algumas casinhas e vamos começar de novo.

Entrando nos méritos das propostas, mais dinheiro e regulamentação financeira podem ajudar a conter a epidemia de falências nas divisões inferiores e já passou da hora da Inglaterra colocar em ordem o seu calendário – embora não esteja muito claro porque isso necessariamente precisaria estar atrelado ao resgate.

O custo, porém, seria transformar a Premier League em um clubinho ainda mais fechado do que ela já é, atualmente, uma liga em que o dinheiro manda e a tabela de folhas salariais geralmente reflete a tabela de classificações. Essa é a tendência do futebol europeu. Dialoga com as ideias de Superligas Europeias, expansão da Champions League ou o novo Mundial de Clubes da Fifa. Parece haver o diagnóstico entre muitos dirigentes de que o melhor caminho é aumentar o número de jogos entre clubes ricos e famosos.

O sistema de votação é altamente preocupante porque colocaria o futuro de 84 clubes nas mãos de apenas seis. Há que se ponderar que não é que hoje exista uma hiper-democracia no futebol inglês. O Big Six pode não ter controle eleitoral, mas exerce uma espécie de soft power, com base em influência e poder financeiro. Dentro da proposta, pelo menos retribuiria com algo, em troca de ter essa hierarquia institucionalizada. Com ela, porém, seria mais difícil uma situação como a votação das cinco substituições por partidas, consideradas a favor dos clubes com elencos mais fortes. A proposta foi rejeitada por 11 votos a 9, o que provavelmente não aconteceria dentro do novo sistema.

A diminuição da porta de entrada à Premier League deixaria mais claro que existe uma mesa dos adultos e uma mesa das crianças. Seria mais uma maneira, talvez a definitiva, de separar o futebol dos astros bilionários e dos estádios bonitos do futebol com ares ainda semi-amadores, das comunidades, do dia a dia, dos estádios acanhados e das torcidas fiéis e barulhentas. De separar o futebol da televisão do futebol da vida real. Um golpe potencialmente fatal a todo o espírito do futebol inglês.

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