A França reconheceu a Croácia como um estado independente em janeiro de 1992 e, três meses depois, ambos já haviam estabelecido relações diplomáticas. A postura do governo francês diante da história moderna do estado croata, porém, só corroborou uma proximidade forjada através de mais de 11 séculos. A noção de uma nacionalidade croata e a própria cultura local tiveram influência enorme dos franceses em diferentes períodos da história.

Foi durante a Idade Média que França e Croácia se aproximaram pela primeira vez. O catolicismo uniu os dois reinos por volta do Século IX, com religiosos franceses ajudando a criar a primeira diocese de Zagreb e a construir monastérios no país balcânico. Além disso, a nobreza e a monarquia croata se espelhavam no modelo francês para constituir o seu poder. Já a partir do Século XIV, a Quarta Cruzada alinhou as nações em um plano intelectual. A cultura francesa passou a ser difundida entre os croatas e própria a elite croata estudaria em universidades francesas, sobretudo a Sorbonne. A proeminência de croatas vindos de Dubrovnik na vida científico-cultural francesa levou a construção de um consulado na cidade, com forte influência da literatura francófona na comunidade local durante o Século XVIII.

Todavia, o período realmente marcante nas relações acontece a partir da Revolução Francesa, quando os ideais iluministas também se espalham pela Croácia e são fundados na região dois clubes jacobinos. Durante o Primeiro Império Francês, Napoleão Bonaparte estabeleceu uma província autônoma na área que hoje compreende territórios croatas e eslovenos. O local ainda era governado por franceses, mas não inibiu sentimentos nacionalistas e também ajudou a realizar parcialmente a transição do sistema feudal aos princípios revolucionários – separando os poderes, criando um sistema judiciário local e abolindo privilégios nos impostos.

Não à toa, os croatas passaram a cultivar uma francofilia e, entre 1835 e 1849, quando formavam o Reino da Ilíria, parte do Império Austríaco, os intelectuais locais iniciaram um movimento que se inspirou nos ideais franceses para arraigar sua cultura, através da unidade étnica e cultural. Além disso, através de um sentimento de proximidade com os demais povos eslavos do sul, o chamado ilirismo ajudou a padronizar os idiomas croata e sérvio. Já na segunda metade do Século XIX, o idioma francês passou a integrar a grade curricular nacional na região da Croácia. A partir disso, a literatura francesa se expandiu ainda mais nas cidades dominadas pela etnia croata, através das traduções à língua local.

Por fim, o Século XX ajudou a formalizar esta proximidade. Em 1921, a França criou o Instituto Francês na cidade de Zagreb, uma das primeiras organizações para firmar os laços culturais do país com o restante da Europa. Em 1952, a Aliança Francesa estreitou as relações linguísticas, também com nova unidade em Zagreb. Já na virada daquela década, houve uma valorização dos intelectuais franceses à produção cultural croata, em tempos nos quais a Iugoslávia ampliava suas relações como um país não-alinhado dentro da Guerra Fria. A visita de Jean-Paul Sartre a Zagreb em 1960, a formação da Bienal de Música na cidade durante o ano seguinte e a exibição da Nova Tendência, um movimento artístico croata, no Museu de Artes Decorativas de Paris, em 1964, indicam a troca de conhecimento.

E, dentro desse contexto, a aproximação passa também o futebol. Com uma relação cultural tão forte, naturalmente alguns dos principais jogadores croatas se tornaram alternativas no mercado francês, principalmente a partir da criação da Ligue 1 e da adoção do profissionalismo nos anos 1930. Nesta época, desembarcam no país os primeiros futebolistas de origem croata, como Ivan Petrak, Slavko Kodrnja e Nikola Perlic – com histórico pela seleção da Iugoslávia. O mais importante foi o atacante Aleksandar Zivkovic, que possui a respeitável marca de 15 gols em 15 partidas pelos iugoslavos. Nascido em Orajse, então parte do Império Austro-Húngaro, mas hoje parte da Bósnia Herzegovina, o veterano defendeu Racing de Paris e Sochaux no final da carreira.

O recorde croata que nunca ninguém bateu

A presença dos croatas no Campeonato Francês arrefeceu depois da Segunda Guerra Mundial, até pelo sistema de organização introduzido no Campeonato Iugoslavo, que dificultava as contratações. O atacante Ivo Suprina foi a exceção no período, morando na Europa Ocidental após o conflito. Passou por Lyon e Strasbourg na metade final da década de 1940, antes de se tornar ídolo do Napoli. O mercado aos jogadores iugoslavos experimentaria uma abertura maior a partir dos anos 1950, permitindo transferências aos países capitalistas, fugindo do padrão visto na Cortina de Ferro. De qualquer maneira, o homem que transforma a relação da França com o talento croata desembarca no país apenas em 1966. Seu nome: Josip Skoblar.

Naquele momento, a Alemanha era o principal destino de jogadores iugoslavos. E o próprio Skoblar faria este caminho, negociado com o Hannover 96. Nascido na cidade de Privlaka, o atacante se profissionalizou com o Zadar e se tornou um dos melhores do país vestindo a camisa do OFK Belgrado. Em 1962, compôs a linha de ataque que levou a seleção iugoslava às semifinais da Copa do Mundo. Todavia, deixou o futebol local quatro anos depois, passando pelo Olympique de Marseille por um breve período. Os 13 gols anotados em 15 jogos já serviram para deixar saudades. Apelidado de “A Águia da Dalmatia” pelos torcedores, era um goleador nato, atacante de múltiplas virtudes.

Depois de duas temporadas em meia na Bundesliga, Skoblar voltou ao Vélodrome. Sua contratação virou uma questão de honra ao presidente Marcel Leclerc, que concluiu o negócio em 1970, após uma acirrada disputa entre os dois clubes. Em meia temporada, o matador já voltaria a empilhar gols. No entanto, nada tão assombroso quanto em seu primeiro campeonato completo com a camisa celeste, em 1970/71. O atacante anotou assombrosos 44 gols em 36 jogos pela Ligue 1. Com quase metade dos tentos da equipe, liderou os marselheses rumo ao título nacional, encerrando um jejum que durava 23 anos. Além de artilheiro da competição, também faturou a Chuteira de Ouro como maior goleador do futebol europeu. E estabeleceu um recorde que possivelmente demorará a ser superado na liga nacional. Nos últimos anos, Zlatan Ibrahimovic foi quem mais se aproximou, com “somente” 38 gols.

Skoblar seria três vezes artilheiro do Campeonato Francês, anotando 30 tenos em 1971/72 e mais 26 em 1972/73. O Olympique de Marseille conquistou o bicampeonato nacional, além da Copa da França em 1972. E a idolatria ao croata era evidente no Vélodrome. Just Fontaine avaliava: “Quando eu o assistia diante do gol, pensava no que ele fazia. Gol de chapa com a canhota, com a parte de fora do pé direito, cabeçada… Ele tinha feito de tudo antes mesmo que eu imaginasse. Marcava todas as vezes, de todas as formas, e em frações de segundo”.

Em seis anos vestindo a camisa do Olympique, Skoblar acumulou 176 gols em 211 jogos. Tornou-se o terceiro maior artilheiro da história do clube, atrás apenas de Gunnar Andersson e de Jean-Pierre Papin, mas com médias superiores a ambos. Despediu-se aos 34 anos, terminando a carreira no Rijeka. Voltaria ainda para trabalhar como diretor técnico, treinador e olheiro dos marselheses. Sua veneração permanecesse, assim como abriria portas a iugoslavos, de uma maneira geral. Na virada dos anos 1960 para os 1970, outros tantos destaques vindos dos Bálcãs passaram pela Ligue 1, incluindo os lendários Dragan Dzajic e Milan Galic. Além disso, muitos iugoslavos que marcariam seus nomes como técnicos atuaram no futebol francês como atletas, a exemplo de Ivica Osim e de Bora Milutinovic.

Naquele período, aliás, a seleção da Iugoslávia era costumeira carrasca da França. Derrubou os Bleus nas Eliminatórias da Copa de 1950; na fase de grupos da Copa de 1954; foi responsável pela única derrota dos franceses na fase de grupos do Mundial de 1958; os bateu com um eletrizante 5 a 4 na semifinal da Euro 1960; e os goleou nas quartas de final da Euro 1968 por 5 a 1. Outros croatas serviram de pesadelos neste histórico, como Drazen Jerkovic e Zeljko Cajkovski. À França, restou se contentar com a classificação à Copa de 1966, até que as vitórias na fase de grupos da Euro 1984 e nas Eliminatórias da Copa de 1986, derrubando os balcânicos, equilibrassem um pouco mais o cartel. Já nas Eliminatórias da Copa de 1990, os iugoslavos deram um empurrão para frustrar os franceses.

A influência croata a Zidane

A partir de Skoblar, outros 12 jogadores nascidos na atual Croácia desembarcaram no Campeonato Francês entre os anos 1970 e a primeira metade da década de 1980. O jogador de maior destaque era o meio-campista Ivica Surjak, eleito o melhor do país em 1976. O antigo ídolo do Hajduk Split, atravessou uma temporada no Paris Saint-Germain, o suficiente para conquistar a Copa da França em 1982. Disputou, inclusive, o Mundial da Espanha como atleta dos parisienses, antes de rumar à Udinese. Seria suplantado por Safet Susic, bósnio que é considerado por muitos como o melhor estrangeiro da história da Ligue 1. No mesmo período, outro bósnio em alta no futebol francês era Vahid Halilhodzic, então artilheiro do Nantes.

Grande potência da Ligue 1 nos anos 1980, o Bordeaux conquistou o título em 1986/87 com dois importantes reforços iugoslavos de etnia croata. Os girondinos desfrutavam o fim de sua era dourada, contando com jogadores do calibre de Jean Tigana  e Patrick Battiston. Para continuar o processo de renovação, trouxeram os gêmeos Zoran e Zlatko Vujovic, ambos nascidos em Sarajevo, mas de origem croata. A dupla tinha um largo histórico internacional, presentes na Copa de 1982, além de serem referências do Hajduk Split por anos. Ambos foram titulares na nova equipe, com Zoran liderando a zaga e Zlatko brilhando no ataque como vice-artilheiro na campanha vitoriosa, acumulando 12 gols.

Os gêmeos ficaram duas temporadas no Bordeaux, semifinalistas da Recopa Europeia em 1987 e quadrifinalistas da Champions em 1988. Arrumaram as malas ao Cannes em 1988/89. O clube da Côte d’Azur, que retornara da segunda divisão pouco antes, passou a investir pesado em reforços. Sobretudo, reforços com origem croata. O primeiro deles foi Boro Primorac, veterano bósnio-croata que antes defendera o Lille. Também dos Dogues, chegara o atacante sérvio Dusan Savic. Na temporada seguinte, as novidades seriam os irmãos Vujovic. Já em 1989, buscaram o meio-campista Marko Mlinaric, além de Luis Fernandez e Johnny Ekström – embora, a esta altura, o capitão Primorac fosse o único iugoslavo que restara. A equipe permanecia no meio da tabela da Ligue 1, mas possuía potencial para mais.

A grande temporada do Cannes aconteceu em 1990/91. Primorac, que acabara de pendurar as chuteiras, assumiu o comando técnico no lugar de Jean Fernandez. Tinha em Mlinaric uma das referências de seu meio-campo. No entanto, logo começou a dar espaço a um garoto de origem argelina que já tinha estreado no time profissional, mas se provou realmente um fenômeno sob as ordens do novo comandante: Zinedine Zidane. O primeiro gol do jovem craque, uma pintura que valeu um carro de presente do presidente, foi anotado em fevereiro de 1991. O prodígio de 18 anos seria um impulso a mais à equipe, que terminou na quarta colocação da Ligue 1 e conquistou a inédita classificação à Copa da Uefa.

“Eu me lembro dele como um garoto quieto, introvertido, mas que tinha um potencial incrível. Ficou aparente logo de cara que ele tinha algo especial. Controle de bola fantástico, visão de jogo, inteligência… Mas ele era muito novo e não poderíamos prever a lenda que ele se tornaria. Como um jogador experiente, sempre tentei ajudar os mais jovens a evoluírem”, relembrou Mlinaric, em entrevista ao site Vecernji.

Na segunda temporada de Zidane como xodó no Cannes, Primorac traria outros dois croatas. Aljosa Asanovic era um meio-campista talentosíssimo, formado pelo Hajduk Split, que defendera o Metz na temporada anterior. Já o ataque ganhava a adição do jovem Alen Boksic, em ascensão no Hajduk Split, mas que por conta das lesões não teria muito espaço na linha de frente com a chegada de François Omam-Biyik. O Cannes alcançaria os 16-avos de final da Copa da Uefa, eliminado pelo Dynamo Moscou, mas acabaria rebaixado no Francesão. O elenco sofreria um desmanche, com Zidane rumando ao Bordeaux. Já Primorac seria marcante ao futebol francês de outras maneiras. Primeiro, como técnico do Valenciennes, recusou uma oferta de suborno do Olympique de Marseille e denunciou o esquema de manipulação de resultados que desmontou o esquadrão de Bernard Tapie. Depois, viraria amigo de Arsène Wenger, seguindo-o como assistente no Nagoya Grampus e também nos 21 anos de Arsenal. Em Londres, o veterano ajudaria a aprimorar o talento de outros tantos ídolos da seleção francesa, incluindo aí Patrick Vieira e Thierry Henry.

Os croatas que brilharam na Champions

Boksic também deixou o Cannes em 1992, logo após o rebaixamento. “Caiu para cima”, contratado para reforçar o ataque do Olympique de Marseille. Pois o jovem de 22 anos se tornou um diferencial no timaço celeste. Não precisou de tempo para adaptação e, combinando potência e técnica, passou a empilhar gols. Era como se o Vélodrome ganhasse um herdeiro de Skoblar. O novato arrebentou na Ligue 1, artilheiro do campeonato com 23 gols, permitindo o tetracampeonato dos marselheses – que, depois, seria revogado pelo caso de manipulação no jogo contra o Valenciennes citado acima. Sua grande marca na Côte d’Azur, todavia, foi outra.

No elenco fortíssimo que também contava com Rudi Völler, Abedi Pelé, Didier Deschamps, Marcel Desailly e outras lendas, encabeçou a linha de frente do Olympique na Liga dos Campeões. Ao lado de Franck Sauzée, foi o artilheiro do time com seis gols, importante principalmente no quadrangular semifinal. Era um dos titulares na equipe que derrotou o Milan na decisão em Munique, graças ao inesquecível gol de Basile Boli, e deu o primeiro (e ainda hoje, único) título do torneio a um clube francês. A desgraça dos marselheses, em contrapartida, logo minaria o futuro de Boksic no Vélodrome. Autor do gol da vitória na partida cabal contra o Valenciennes, ficaria no clube por mais seis meses depois do título da Champions, vendido à Lazio, onde viveria os melhores anos de sua carreira.

Outros coadjuvantes do futebol croata também passaram pela Ligue 1 nos anos 1990, com destaque ao zagueiro Zoran Vulic, presente na seleção iugoslava que disputou o Mundial da Itália e que por duas temporadas vestiu a camisa do Nantes. O grande negócio seria feito pelo Monaco, já em 1999, quando apostou em Dado Prso, centroavante que deixara a Croácia nos anos da guerra e rodara por equipes menores do futebol francês. O grandalhão era reserva do time que possuía David Trezeguet e Marco Simone, campeão nacional em 2000. Mas logo ganhou seu espaço e seria destaque em outros momentos notáveis dos monegascos.

Em 2002/03, Prso viveu sua melhor temporada no principado. Anotou 12 gols em 20 jogos na Ligue 1 e ajudou os alvirrubros a se classificarem à Liga dos Campeões. Pois seria um dos protagonistas na campanha continental, mesmo reserva em parte da empreitada. O atacante anotou sete gols, incluindo quatro na histórica goleada por 8 a 3 sobre o Deportivo de La Coruña, durante a fase de grupos. Seria essencial ainda nas oitavas de final contra o Lokomotiv Moscou e nas semifinais diante do Chelsea. Por fim, na decisão, saiu do banco durante o primeiro tempo, para substituir o lesionado Ludovic Giuly, mas não ajudou o time na derrota para o Porto. Ficou marcado na história dos alvirrubros, embora tenha arrumado as malas para o Rangers na temporada seguinte.

O Monaco croata e os resquícios recentes

Depois de Prso, o Monaco se acostumou a contratar outros jogadores de origem croata. Jerko Leko foi uma das referências no meio-campo alvirrubro por quatro anos, entre 2006 e 2010. No mesmo período, Dario Simic e Nikola Pokrivac também atuaram no Louis II. Já um dos grandes ídolos recentes da torcida no principado é Danijel Subasic. O goleiro foi um dos primeiros contratados do projeto milionário dos monegascos, quando a equipe ainda militava na segunda divisão, e participou de toda a ascensão, brilhante na histórica temporada de 2016/17, eleito o melhor de sua posição na Ligue 1. Antes dele, outro arqueiro adorado pelos franceses foi Vedran Runje, que teve relativo sucesso no Olympique de Marseille e no Lens, onde encerrou a carreira.

Na atual seleção croata, além de Subasic, Dejan Lovren também possui uma ligação forte com a França. O zagueiro foi contratado pelo Lyon em 2010, junto ao Dinamo Zagreb, e defendeu o clube por três temporadas. Viveu bons momentos em Gerland, conquistando a Copa da França em 2012 e se firmando na equipe nacional durante o mesmo período. Em 2013, transferiu-se ao Southampton. Ao lado de Subasic, tentará ser um dos responsáveis por romper esta harmonia milenar entre Croácia e França, justo em uma final da Copa do Mundo. Uma história que terá seu capítulo mais notável, mas certamente não acabará neste domingo.