*Por Gustavo de Carlis Miranda

Em maio de 2013, o Darmstadt só não teve o seu rebaixamento à quarta divisão consumado por acaso. Para, neste domingo, comemorar o acesso à próxima edição da Bundesliga. Quem vê de longe a arrancada do clube no futebol alemão pode até imaginar que há muito dinheiro por trás. Natural, diante das trajetórias recentes de Hoffenheim e RB Leipzig. Ricaços que passam longe do exemplo do time da cidade de 150 mil habitantes, que conquistou excelentes resultados, mesmo com a folha de pagamentos modesta, para viver uma sequência de épicos. Trabalho que teve a sua coroação neste domingo, na última rodada da segunda divisão. Os alviazuis venceram o St. Pauli por 1 a 0 para se garantir na elite pela primeira vez em 33 anos e causar uma enorme festa nas ruas de Darmstadt. Uma ascensão mais do que surpreendente, para quem começou a temporada pensando em não voltar à terceirona.

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Figura constante na segunda divisão durante décadas de 1970 e 1980, o Darmstadt chegou até a disputar duas temporadas na Bundesliga, em 1978/79 e 1981/82. No entanto, entrou em crise após o rebaixamento à terceirona em 1993. A partir de então, passou a alternar entre a terceira e a quarta divisão, operando com orçamentos limitados. Em 2007, evitou até mesmo a insolvência, graças à ajuda da torcida.

SV Darmstadt 98

O reerguimento aconteceu nas últimas três temporadas. Após amargar a lanterna do campeonato por boa parte de 2012/13, o time iniciou sua reviravolta com a contratação do técnico Dirk Schuster, demitido do Stuttgarter Kickers, ao fim de 2012. O novo treinador tirou o time azul e branco da última colocação, mas terminou em antepenúltimo e teve que disputar os playoffs de rebaixamento justamente contra o seu ex-time. E o Darmstadt perdeu, embora o rebaixamento nunca tenha se consumado. Por sorte, o clube recebeu uma “ajuda” do arquirrival Kickers Offenbach, que teve seu rebaixamento decretado por problemas financeiros e salvou os alviazuis do retorno às ligas regionais.

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Sem querer repetir a angústia do ano anterior, o Darmstadt investiu em contratações para a temporada 2013/14. De candidato ao rebaixamento na pré-temporada, eliminou o Borussia Mönchengladbach na primeira fase da Copa da Alemanha e, impulsionado pelos 27 gols do enorme centroavante Dominik Stroh-Engel, terminou a terceirona em um confortável terceiro lugar, credenciando-se à briga pela promoção contra o Arminia Bielefeld, 16° da 2. Bundesliga.

No primeiro jogo, em casa, uma amarga derrota por 3 a 1 diminuiu as esperanças do time do sul de Hessen. Mas a volta em Bielefeld reservava uma das surpresas que só o futebol consegue providenciar: o Darmstadt devolveu o placar no tempo normal e levou o jogo à prorrogação. Aos cinco minutos do segundo tempo, o Bielefeld marcou o segundo gol e a permanência na segunda divisão parecia questão de tempo. Porém, nos acréscimos, o atacante brasileiro Elton da Costa marcou o quarto gol do Darmstadt, assegurando o retorno do time à 2. Bundesliga depois de 21 anos, apenas pelo critério dos gols fora de casa. Ao estilo da Batalha dos Aflitos, o “Milagre de Bielefeld” virou até DVD e entrou para a história do clube.

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Com orçamento e infra-estrutura limitadas até para os padrões da segundona, principalmente em comparação com o suporte da Audi para o Ingolstadt e especialmente da Red Bull ao RB Leipzig, seria loucura pensar no Darmstadt como um candidato ao acesso. Contudo, mais uma vez, as contratações se mostraram muito acertadas, sobretudo no setor defensivo: o francês Romain Brégerie e o nigeriano Leon Balogun, recém-convocado pela sua seleção, se juntaram ao capitão da equipe, o turco Aytac Sulu, para formar um trio de zaga internacional. Debaixo das traves, o preparador de goleiros Timo Wache, ex-Mainz 05, trouxe de lá seu pupilo Christian Mathenia, de apenas 23 anos. O resultado: apenas 26 gols sofridos, melhor marca do campeonato ao lado do Karlsruher, e 15 gols marcados pelos próprios zagueiros, com 17 jogos no total sem sofrer gols.

No ataque, o artilheiro Stroh-Engel entrou em má fase e foi relegado ao banco de reservas no começo de 2015, com Schuster apostando mais nas rápidas arrancadas dos pontas Tobias Kempe e principalmente Marcel Heller, o homem mais rápido da 2. Bundesliga, que chegou a atingir 35,2 km/h no contra-ataque mortal contra o Karlsruher, que resultou em um dos dois gols decisivos para o acesso.

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A ascensão do time não passou despercebida pelas empresas da região: os naming rights do estádio foram comprados pela Merck, multinacional do ramo farmacêutico com sede na cidade. Mais do que isso, a torcida compareceu em peso durante todo o campeonato, dobrando a média de público em relação ao ano anterior, e esgotou os ingressos para os dois últimos jogos em casa com mais de um mês de antecedência. Já a decisão contra o St. Pauli começou no centro da cidade, em uma caminhada com cerca de dois mil torcedores, que, além de apoiar o time, faziam uma manifestação pela continuidade dos jogos no estádio da cidade.

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Ao apito final do jogo decisivo, neste domingo, os espectadores tomaram o campo e se misturaram com a equipe e comissão técnica, estendendo a festa para a cidade com muita música e, claro, muita cerveja – e se misturando com um festival de música ocorrendo coincidentemente no mesmo final de semana. No dia seguinte, feriado na Alemanha, os torcedores acompanharam a carreata do time do estádio até o palco montado em frente ao castelo, onde não faltaram cantos da torcida e provocações aos rivais do estado e também ao RB Leipzig, que permanece na 2. Bundesliga com um elenco duas vezes e meia mais caro que o do Darmstadt.  Houve também homenagem a jogadores, ao técnico Schuster e também a um torcedor símbolo, que acompanhou o clube durante toda a trajetória dos últimos anos, mesmo com dificuldades motoras.

Passada a festa, será a hora de se preparar para o enorme desafio da próxima temporada. O estádio do time, de propriedade municipal, não tem a infraestrutura requerida pela Bundesliga, e as conversas para a reforma e adequação caminham a passos lentos junto à prefeitura. Jogar o campeonato inteiro nas vizinhas Frankfurt ou Mainz seria um golpe forte para um time tão identificado com a cidade. Além disso, poderia trazer grandes receitas para o comércio local em dias de jogos. Sem contar os custos da manutenção de um estádio que não recebe jogos e do aluguel de outros estádios.

Exemplos dos últimos anos não são muito alentadores. Há exceções, como Mainz e Augsburg, que conseguiram seguir na elite. Mas times que subiram em situações bem semelhantes, como Paderborn e Eintracht Braunschweig, amargaram a lanterna logo no primeiro ano e o retorno imediato à segunda divisão. Mesmo os milhões da SAP nunca renderam nada além do meio da tabela ao Hoffenheim, apesar de alguns bons inícios de campanha. Os jogadores do Darmstadt têm pouca ou nenhuma experiência na Bundesliga e será necessário um terceiro ano consecutivo de contratações acertadas para que o time consiga sobreviver na primeira divisão, algo não conseguiu em suas duas aparições anteriores na elite.

Pelo terceiro ano consecutivo, poucos depositam expectativas altas no Darmstadt para a próxima temporada. Mas, com duas grandes surpresas na bagagem, quem sabe não há espaço para mais uma? Ninguém mais duvida da capacidade de superação dos alviazuis. E, neste caso, considerando o envolvimento da pequena cidade com o clube, tamanho não é documento para nada. Os gigantes Kaiserslautern, Fortuna Düsseldorf e Nürnberg, que permanecem na segundona, são a prova.

Gustavo de Carlis Miranda tem 21 anos e estuda engenharia mecânica na USP. Mora em Darmstadt há nove meses, em intercâmbio. Não satisfeito em sofrer à distância com as oscilações e dramas de seu querido Palmeiras, logo passou a acompanhar as aventuras do clube da nova cidade.