Zhemchuzhina-Sochi. Certamente a maioria das pessoas nunca ouviu falar sobre esse time. Na verdade, nem imagina que essas duas palavras sejam o nome de um clube de futebol, que movimentou bastante o futebol russos nos últimos meses. Saber, então, que Zhemchuzhina significa pérola em russo já seria pedir demais.

Sochi receberá os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014. Com isso, o Governo do país direcionou diversos investimento para a cidade, de 350 mil habitantes, um dos principais destinos turísticos do país, localizada na região de Krasnodar Krai e banhada pelo Mar Negro. Os empresários locais, naturalmente, foram favorecidos com isso, e incentivados por Vladimir Putin passaram a investir mais no esporte.

Foi o caso de Dmitry Yakushev, um ex-jogador de hóquei. No poder desde 2008, ele passou a injetar milhões de euros no clube, fundado em 1991, figurante da primeira divisão entre 93 e 99, mas que nunca teve muita história para contar – e que chegou a fechar em 2003, por conta de problemas financeiros. O Zhenchuzhina passou, então, a ter um dos maiores orçamentos do país (€ 30 milhões só em 2010), e nesta temporada era um dos principais favoritos ao acesso. Trouxe jogadores conhecidos como o meia Denis Boyarintsev e contratou o técnico Stanislav Cherchesov.

Tudo foi por água abaixo, no entanto, quando no início de agosto Yakushev se reuniu com os jogadores e a comissão técnica e anunciou o fim do time profissional. O Zhemchuzhina-Sochi acumulou dívidas enormes e seu proprietário não teve o retorno imaginado. Teve que cortar parte dos seus gastos, e sobrou para o time de futebol. Nenhuma empresa da região resolveu investir no clube, que não teve outra opção a não ser decretar a falência, como fizeram nos últimos anos Saturn e Moskva também – e só não o fizeram Tom Tomsk e Krylya Sovetov porque foram salvos por empresários no apagar das luzes. Jogadores e comissão técnica foram liberadores para procurar um novo trabalho.

A desistência do Zhemchuzhina foi um abalo muito grande para a credibilidade do projeto olímpico russo. O clube assumiria o estádio olímpico, construído com capacidade para 40 mil pessoas e ao custo de US$ 250 milhões. Agora, a nova arena, se tornou um elefante branco para a cidade. Abala, também, as pretensões da cidade em ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2018.

E o Governo sabe isso. Tanto que quando o Saturn abriu mão da sua vaga na primeira divisão nesta temporada, houve manifestações vindas do Kremlin indicando o Zhemchuzhina para a vaga. No final das contas, a virada de mesa içou outro novo rivo, com uma mecenas por trás, o Krasnodar.

Mas a história do Zhemchuzhima-Sochi é emblemática para o futebol russo. Desde o final da União Soviética, diversos milionários surgiram na Rússia. Fortunas oriundas de fraudulentas privatizações, gente que cresceu economicamente ligada ao Governo. O futebol se tornou uma vitrine para esse tipo de gente, e clubes como Spartak Moscou e Zenit São Petersburgo precisam se atentar a tudo isso. Leonid Fedun e sua Lukoil, no primeiro caso, e a Gazprom, no segundo, investem muito dinheiro nos dois gigantes hoje, mas em uma eventual crise podem desistir da brincadeira da noite para o dia. E mesmo que isso não aconteça, com o Fair Play Financeiro da Uefa os “patrocínios” das empresas dos donos estão com os dias contados.

O futebol russo enfrenta esse dilema e essa crise. Clubes milionários e aspirantes a novos ricos aos montes. Equipes que não se preparam para o futuro e vivem apenas o presente. Diferentemente, por exemplo, do CSKA Moscou, que não tem um mecenas por trás (não é o caso de Evgeni Giner) e evita gastos astronômicos, como adora fazer o Zenit. É um problema estrutural que afeta demais o futuro do futebol na Rússia. O país precisa olhar para a sua estrutura e perceber que não pode sobreviver apenas da bondade desses mecenas. Ou da maldade deles.

O Zhemchuzhina-Sochi, hoje, é um clube amador. Manteve as categorias de base e disputa a quarta divisão nacional, enquanto na segunda todos seus jogos garantem automaticamente três pontos ao adversário. Os seis mil torcedores, em média, que iam ao estádio Central, da cidade, estão sem time para torcer. E sem perspectiva alguma.