Do ponta explosivo ao rei da grande área: as reinvenções de Romário explicadas em gols

Para permanecer entre os melhores por tantos anos, Romário moldou a sua técnica conforme a capacidade física: um gênio da bola

Alguns craques se consagram entre os maiores da história graças a uma ou duas temporadas fabulosas. Mas os verdadeiros gênios conseguem ir além. O auge pode até ser fácil de apontar. O período entre os melhores, no entanto, se estende por diferentes fases da carreira. E, para ser protagonista por tanto tempo, é preciso se reinventar. Enquanto o físico se transforma com o passar dos anos, a lenda molda a sua técnica conforme o seu corpo exige. Assim aconteceu com vários dos maiores jogadores de todos os tempos. Assim também foi com Romário. Afinal, o veterano que jogava à espreita de uma chance na pequena área tinha características bastante diferentes quando estourou no Vasco, em 1985.

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Do primeiro gol como amador nos juvenis do Olaria, em 1979, ao último dos 1.002 contabilizados por ele, em 2007, Romário passou por ao menos três transformações significativas na carreira. Obviamente, a adaptação técnica do Baixinho a sua capacidade física foi gradual. Ainda assim, dá para perceber essa reinvenção em sua maior arte: a bola nas redes. Os tentos mais emblemáticos do artilheiro ajudam a demarcar essas mudanças. O ápice de sua forma veio durante o início da década de 1990, coroado com o título da Copa do Mundo. Mas não se pode negar o rótulo de craque ao garoto explosivo do início da carreira, ao matador de espaços curtos na maturidade ou ao gênio do posicionamento em seus últimos dias como profissional.

O Romário explosivo

Embora Romário tenha se consagrado como centroavante, a camisa 11 que sempre envergou tem seus motivos. O Baixinho despontou como um grande artilheiro desde os tempos de juvenis no Olaria, e confirmou a fama quando chegou às categorias de base do Vasco. Contudo, as suas características físicas o tornavam uma peça versátil no ataque. Oportunista, também tinha a velocidade para cair pelas pontas. E assim chegou ao time principal cruz-maltino. Querendo jogar, sem se importar tanto com a posição, o garoto de 19 anos aceitava tanto jogar pelos lados quanto atuar centralizado. Na primeira oportunidade, ocupou a vaga na ponta esquerda, ao lado de Roberto Dinamite e Mauricinho no trio de frente do técnico Edu. Naqueles tempos, também havia o experiente Cláudio Adão para vestir a 9.

Ainda assim, Romário se destacou como goleador do Vasco, anotando 24 gols em seu primeiro ano como profissional. Mas passível de conselhos. “Romário tem de treinar muito, como faz Roberto, para adquirir paciência, calma e consciência nas horas decisivas de uma partida”, avaliava Antônio Lopes, então técnico vascaíno, após a assinatura do primeiro contrato da promessa. Já o pai, seu Edevair, também esperava que o filho lapidasse a sua qualidade técnica. “Tem de ser um chute daqueles indefensáveis, seco e rasteiro, no canto, para deixar o goleiro sem ação”, recomendava. Romário aprendeu.

Com o passar dos anos, Romário passou a atuar mais centralizado – seja na ausência de Dinamite ou no recuo do veterano à meia, com o camisa 11 ficando mais à esquerda no 4-4-2. Não era só a fome de gols que ajudava o jovem, mas também a possibilidade de fazer o time jogar na base dos contra-ataques, graças a suas arrancadas. Cada vez mais tarimbado, o artilheiro variou entre 35 e 39 gols nos dois anos seguintes de sua carreira. O suficiente para ser campeão carioca com o Vasco e também nome frequente nas convocações da seleção principal a partir de 1987 – já referendado na sub-20, apesar de problemas disciplinares.

Já em 1988, Romário viveu um dos melhores anos de sua carreira. Sem perder a qualidade nos dribles em progressão, o camisa 11 passou a encontrar mais liberdade para fuzilar. Assim, acumulou 46 tentos no ano, bicampeão carioca com o Vasco graças a atuações fascinantes. Além disso, fez a sua fama internacional nos Jogos Olímpicos de 1988. Formando a linha de ataque ao lado de Bebeto, com Careca (do Cruzeiro) mais recuado, o matador anotou sete gols no torneio, mas acabou com a medalha de prata após a derrota para a União Soviética na decisão.

O Romário completo

O sucesso que Romário fez em Seul o levou para o PSV Eindhoven, então campeão europeu. Na Holanda, o Baixinho encontrou um novo ambiente para se adaptar. Por mais que o futebol local fosse dinâmico, a virada para os anos 1990 ficou marcada por um futebol mais defensivo – e os próprios alvirrubros retrataram isso em sua conquista da Champions. Desta maneira, o papel individual de Romário no ataque acabava sendo fundamental, tanto para trabalhar as jogadas em velocidade quanto para definir. Um cenário que certamente ajudou a moldá-lo como o atacante mais letal do mundo.

Com o PSV vivendo grande fase, Romário disputou a Champions em quatro das cinco temporadas que passou no Philips Stadium. Enfrentou algumas das melhores defesas do mundo, incluindo as de Real Madrid, Bayern de Munique e Milan. Por duas vezes, se colocou como artilheiro do torneio, somando 20 tentos em 32 partidas. Enquanto isso, na Eredivisie, o camisa 11 destoava. Em cinco anos, o centroavante acumulou 98 tentos. Na maior parte do período, servia como homem centralizado na trinca de ataque.

Já na seleção brasileira de Sebastião Lazaroni, Romário tinha uma concorrência de peso para comandar o ataque. Por mais que as características do camisa 11 na época até permitissem que ambos jogassem juntos,  o Baixinho raramente atuava ao lado de Careca, em ótimo momento com o Napoli. Mas, na ausência do veterano, o carioca renovou a sua parceria com Bebeto na Copa América de 1989. Costumava ficar mais à frente, encarregado da definição, mas sem perder a mobilidade com o companheiro.

De qualquer maneira, Romário absorveu bem as dificuldades que o futebol europeu lhe propôs naquele momento. Seguia com a exuberância de seus lances, e até um pouco de ousadia. Mas a calma pedida por Seu Edevair tornava-se a sua característica principal. O artilheiro parecia antever as jogadas algumas frações de segundo antes de seus adversários. Para humilhá-los em sua definição. Por mais que aproveitasse bem os espaços do campo, começava a saborear mais os lances em que eles ficavam reduzidos. O faro de gol se aprimorou ainda mais com a qualidade nas finalizações, de toques por cobertura e chutes colocados indefensáveis.

Desta maneira, Romário atingiu o seu auge entre 1993 e 1994. Era a melhor combinação de sua explosão física com seu talento para balançar as redes. Superou a técnica de Careca e classificou a Seleção para a Copa do Mundo de 1994, destoando nos Estados Unidos. E, transferido ao Barcelona de Johan Cruyff, servia como o vértice ofensivo na poderosa trinca ao lado de Stoichkov e Beguiristain. Naquelas equipes, as suas arrancadas ainda eram importantes. Tanto quanto a presença de área de quem se colocava para decidir as partidas.

A coleção de gols de Romário nesta época mescla tanto o senso de posicionamento quanto a sua velocidade. E há um número grande de obras-primas, vinda dessa certeza de quem se via acima dos meros mortais. Aliás, ninguém poderia discutir isso durante aquela época. De fato, o camisa 11 fazia e prometia. Levou o tetra Mundial e o tetra de La Liga com partidas fantásticas. Faltou mesmo a taça da Champions, anulado na decisão contra o Milan, que acabou goleando por 4 a 0 em Atenas com grande atuação de Savicevic.

O Romário especialista

Melhor jogador do mundo em 1994, Romário já tinha feito o que planejava na Europa. Voltou ao Brasil para desfrutar da vida que queria. Para virar rei. E com o patamar que tinha alcançado, nem precisava mais da explosão que tanto o caracterizou nos primeiros anos de carreira. Era hora de ver o resto do time o servindo. Carregava nas costas sim, mas também esperava as jogadas mais mastigadas de quem o acompanhava. Além disso, beirando os 30 anos, já não era mais nem um menino. O desgaste físico começava a se escancarar. Melhor que os outros corressem um pouco mais por ele. Para resolver, só entregar ao Baixinho.

Na seleção brasileira, mesmo, Romário passou a ser acompanhado por um novo nome que fazia um serviço parecido com seu antigo. Ronaldo era o cara das arrancadas, da explosão, com um repertório de dribles em velocidade um pouco maior. O camisa 11, por sua vez, centralizava para acompanhá-lo nas jogadas. Seu negócio dependia mais do posicionamento e da noção de espaço diante dos zagueiros, até porque não tinha tanto porte físico para ganhar na força e nem altura. Cada vez mais Romário fazia o seu nome como o rei da grande área. Mas ainda com suas cartas na manga.

Os dribles curtos, certeiros, pavimentaram a sua idolatria no Flamengo. Era fintar a marcação e abrir o espaço para fuzilar os goleiros. Com a camisa rubro-negra, passou dos 200 gols – menos apenas que o Vasco em toda a sua carreira. Em 1997, ano em que ainda teve a frustrada passagem pelo Valencia, superou sua melhor marca pessoal em um ano, com 62 tentos. Porém, por mais saudades e fãs que tenha deixado na Gávea, faltaram títulos de maior expressão. Os Cariocas de 1996 e 1999, além da Mercosul também em 1999 (ainda sem disputar a reta final), acabam sendo pouco pela importância que o artilheiro teve em sua passagem pelo clube.

De volta ao Vasco em 2000, aos 34 anos, Romário chega ao ápice como “especialista”. Não era necessariamente o momento mais completo ou mais exuberante do artilheiro. Entretanto, acabou sendo o mais eficiente nos números. Bastava passar a bola para o Baixinho na linha de frente que ele resolvia, em piques curtos e a finalização quase sempre infalível. Em sua temporada de retorno, além de arrebentar no Mundial de Clubes e conquistar a Copa João Havelange, Romário acumulou 73 gols, seu recorde em um ano. Seguia visto como a referência em um momento turbulento da Seleção.

A sequência no Vasco, com mais o título da Copa Mercosul, permaneceu gerando muitos gols. E assim Romário desembarcou nas Laranjeiras para o centenário do Fluminense, em 2002. O especialista seguiu ajudando a boa campanha do Tricolor no Campeonato Brasileiro. Mas as limitações na mobilidade se evidenciavam gradativamente. O físico impedia mesmo o camisa 11 de abrir espaços entre os marcadores. Foi quando o seu posicionamento para decidir para o time se tornou mais fundamental. E, claro, o talento nos chutes que nunca perdeu.

O Romário rei da área

Aquele ano de 2002 parecia ser o último grande de Romário. Mais limitado pelas lesões, viu os seus números rarearem significantemente pelo Fluminense nas duas temporadas seguintes – em ambas, ficando abaixo da marca de 20 tentos pela primeira vez como profissional. Até que retornou ao Vasco em 2005. E, assumindo sem maiores pudores a falta de mobilidade, protagonizou os cruzmaltinos naquele Brasileirão. Pela última vez, Romário se consagrava como artilheiro de um campeonato importante, anotando 22 gols na campanha. Aos 39 anos, dependia basicamente das bolas nos pés, mas que não eram perdidas com o veterano.

Em 2006, Romário entrou na reta final de sua carreira, ainda somou mais alguns tentos pelo Vasco, antes de se aventurar no Adelaide United e no Miami FC. No nível semiprofissional dos Estados Unidos, sobretudo, conseguiu adiantar a sua conta para mais perto dos sonhados mil gols, uma meta que prometera ainda em 1988. Atingiu aos 41 anos, em maio de 2007, com o pênalti convertido sobre o Sport em São Januário. Depois, só balançaria as redes mais duas vezes, contra o Grêmio no Brasileirão, antes de pendurar as chuteiras.

A impressão daqueles que só se lembram do Romário mais velho pode ser apenas do “rei da área”. Mas, ao longo da carreira, o camisa 11 conseguiu ser muito mais do que isso. Pelas transformações, pode ser comparado com atacantes de diferentes características. E, quase sempre, vencê-los. Afinal, o faro de gol nato, que desenvolveu desde os primeiros anos, permanece incomparável. Agregado à explosão, aos dribles, à capacidade técnica e ao senso de posicionamento, fez de Romário um craque genuíno ao longo de duas décadas.

Os números de gols de Romário foram retirados da ótima base do FutDados. Vale conferir.