Os 24 anos de idade pouco indicam a longa trajetória que Andressinha já escreveu vestindo a camisa da seleção brasileira. A meio-campista do Portland Thorns disputa a sua segunda Copa do Mundo, após ter integrado também o elenco que chegou às semifinais dos Jogos Olímpicos em 2016. Uma jogadora de talento inegável, que desabrochou logo cedo nas seleções de base e tem potencial para seguir integrando a equipe nacional. Embora não seja titular absoluta, é uma das 23 protagonistas do Brasil – também por sua história de vida, superando inúmeras barreiras para se tornar profissional.

A menina de Roque Gonzales hoje enche de orgulho o Seu Eliseu, o pai que deu todo o apoio para que o sonho de sua filha se concretizasse. Nesta semana, Andressinha escreveu um texto ao Players’ Tribune, contando um pouco mais sobre sua caminhada. É bacana saber um pouco mais sobre a maneira como se desenvolveu sua paixão pelo futebol e sobre o significado que a Copa do Mundo Feminina possui a uma jogadora, extrapolando o esporte. Abaixo, destacamos dois trechos da carta. Para ler o conteúdo completo, acesse o Players Tribune através deste link.

Eu queria que você imaginasse uma cidadezinha, localizada no sul do Brasil, perto da fronteira com a Argentina. Como toda cidade pequena, há uma praça central. E como toda praça central no Brasil, tem um pessoal lá jogando futebol. Quer dizer, meninos jogando bola. A não ser por uma pessoa. No meio dos meninos, correndo, passando, chutando, tem uma menina de seis anos de idade.

Eu.

Jogar futebol no meio dos meninos não era difícil, ao menos não para mim, não mesmo. Na verdade, eu fui tratada muito bem.

O único e verdadeiro esforço que eu fazia era levar aquele carrinho horrível gigante na frente deles.

A história é a seguinte: meu pai tinha esse carrinho de comida. Ele vendia cachorro-quente, salgadinhos e bebidas na praça. O carrinho tinha o formato de uma laranja. Uma horrível laranja gigante. Meu pai colocava as bebidas lá dentro e daí removia a tampa da laranja, então as bebidas eram guardadas ali para ficarem geladas.

Eu simplesmente odiava ter de ajudar meu pai, mas quando eu desobedecia, ou me comportava mal, ele me botava pra ajudar até que eu finalmente tivesse permissão pra jogar futebol.

E o pior castigo que eu podia receber era ter de levar o carrinho pro outro lado da praça. Eu ficava com vergonha de ser vista com aquele carrinho gigante na frente dos meus amiguinhos – besteira de criança, eu sei. Mas meu pai me fazia atravessar a praça de propósito. É claro, ele fazia isso como uma lição de vida.

Ah, não, isso não, eu pensava, mas eu ia de qualquer maneira.

Foi o primeiro pequeno sacrifício que eu fiz pelo futebol.

A verdade é que eu só pensava em futebol e tive muita sorte de meu pai estar sempre perto de mim, na praça. Do carrinho, ele podia me ver o tempo todo, o que significava que eu podia ficar jogando por horas à tarde enquanto ele trabalhava.

Escola pela manhã, futebol à tarde. Essa foi a minha vida em Roque Gonzales, minha cidade, no interior do Rio Grande do Sul. Não se pensava no futuro, nem mesmo havia outras paixões. Era só bola. O dia todo. Uma infância perfeita numa cidade tranquila.

Meu pai, Eliseu, sempre foi apaixonado por futebol. Ele adorava jogar, e sempre que havia um jogo, eu estava lá, assistindo. Mas ele nunca me forçou a jogar futebol. Isso veio de mim. E deve ter sido uma surpresa agradável para o meu pai.

Tem uma história interessante, que ele nunca me contou, mas eu ouvi da minha mãe. Quando ela estava grávida, eles fizeram o ultrassom e descobriram que era uma menina…meu pai ouviu o resultado, se jogou na cama e ficou olhando para o teto, por horas a fio. Ele ficou perturbado, de verdade. Ele queria um menino. É claro que isso foi antes de eu nascer, e agora ele ri dessa história.

Sou filha única, e eu acredito que compensei tanto meu pai quanto minha mãe, porque ela queria uma menina, mas ele conquistou a parceria perfeita: assim que eu comecei a andar, eu curtia sair por aí com ele. Ir pescar, jogar futebol, qualquer coisa. Era tudo muito divertido.

Se eu olhar para trás, minha primeira lembrança é andar de motoca com ele ao redor da praça. Sabe aquelas motocas? Eu tinha uma que gostava muito e meu pai ficava me puxando com a cordinha enquanto eu tentava me equilibrar.

Quando eu cresci, de novo, éramos meu pai e eu, numa motocicleta, mas desta vez era pra valer.

Ele me levava para os treinamentos e para os jogos em diferentes cidades na sua moto. Às vezes, nós íamos para cidades diferentes no mesmo dia, porque era assim que eu queria.

Minha mãe, no início, não entendia o mundo do futebol feminino, mas ela nunca tentou me impedir. Se eu estava feliz fazendo isso, era o que importava para ela. E quando minha mãe assistiu ao meu primeiro jogo, ela realmente gostou.

Quando criança, você leva o futebol como se fosse uma brincadeira. Mas quando você cresce, começa a considerar isso mais seriamente. A certa altura, comecei a sonhar em jogar futebol de verdade, e isso foi a melhor decisão. Era o que eu gostava. Era o que eu queria.

*****

Nós sabemos que a Seleção Brasileira de futebol feminino precisa de um título ou de uma medalha de ouro nas Olimpíadas, por conta da nossa história no esporte. Mas nós também sabemos que isso não vai mudar a realidade, porque o futebol feminino tem de ser acertado a partir de baixo. Começando com as categorias de base.

Não é assim: “Ah, meu Deus, o Brasil é campeão do mundo e agora vai resolver todos os problemas”.

Não, não vai acontecer assim.

É sobre abrir portas, sabendo que nós podemos contribuir muito com o desenvolvimento do futebol feminino no país. Hoje em dia, nós somos as vozes delas. Então, nós temos de representa-las da melhor maneira possível. A Copa do Mundo dá visibilidade, mas o futebol feminino não diz respeito apenas ao esporte. É sobre igualdade de oportunidades. Mulheres que não gostam de futebol também estão nessa briga.

O importante, meninas, é que vocês precisam ser felizes com o que vocês estão fazendo. É claro que eu gosto de fazer minha família e meus amigos se sentirem orgulhosos, mas o que realmente importa é que nós acordamos todos os dias felizes por treinar, por jogar futebol, por enfrentar as coisas que não são fáceis, e seguir avançando.

Quando nós estávamos voltando da Copa do Mundo no Canadá, nós tínhamos de atravessar o triângulo das Bermudas, e aquele foi um voo muito ruim. Digo pra vocês, nunca senti tanto medo em toda a minha vida. Minhas pernas estavam tremendo, e eu não podia controla-las. Algumas meninas diziam que não queriam mais jogar futebol, que elas não queriam mais essa vida. Mas eu não pensei assim. Foi algo mais como: “Nós passamos por algumas situações difíceis, mas isso é futebol. E nós gostamos”.

Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse fazer outra coisa que não fosse jogar futebol. Para mim, medo verdadeiro seria não conseguir jogar. Você passa por situações difíceis, e, em troca, viaja pelo mundo fazendo o que gosta. O futebol permitiu que eu crescesse mentalmente, que eu conhecesse pessoas, que fizesse amigos. O futebol me levou para os Estados Unidos, para jogar pela NWSL, a liga norte-americana de futebol feminino.

Este esporte é um presente.

Da praça com o carrinho de laranja gigante do meu pai, da primeira vez que minha mãe me assistiu jogando futebol, até esse momento, tudo aconteceu depressa demais.

Eu sinto falta de tudo isso, e até mesmo hoje, quando mudo de lugar, ainda sinto que estou me adaptando. Mas o meu foco, desde o dia que saí de casa, tem sido o mesmo.

Eu não ia desistir do meu sonho.

Aquela menininha agora é jogadora de futebol.

Valeu a pena todo o sacrifício.