Uma das missões mais difíceis no Campeonato Holandês é fazer gols contra o Groningen. Afinal, a terceira melhor defesa, ao lado do AZ, costuma fechar o cerco aos atacantes rivais, uma constante na campanha da equipe alviverde, que sofreu apenas 36 gols ao longo da competição. Excetuando Ajax e PSV, é de fato um número expressivo.

Oitavo colocado e de olho nos playoffs para a Liga Europa, o ex-time dos irmãos Koeman, Arjen Robben e Luís Suárez ofereceu ao Ajax um confronto duríssimo no Estádio Hitachi Capital Mobility. Mesmo motivada pelas grandes atuações diante de Real Madrid e Juventus, a equipe treinada por Erik ten Hag teve de suar sangue para vencer por 1 a 0 e será de bom grado torcer novamente contra o PSV. Os Boeren encaram o ADO Den Haag, em casa, no domingo.

Não foi a partida mais vistosa do ano para o público, certamente. Poucas chances de gol, muita marcação, erros de passe e disputas de corpo tiraram um pouco da emoção prevista para o embate. Pior para o Ajax, que não conseguiu mostrar a exuberância dos jogos europeus. Enfrentar defesas fechadas tem sido uma constante para os Godenzonen, e por outro lado, o ataque o Groningen também não levou muito perigo à meta de Andre Onana.

No papel de favorito, ainda que em território inimigo, o Ajax foi forçado a se livrar constantemente da bola, contrariando seu estilo de toques e fluidez ofensiva. Tecnicamente, o jogo no Estádio Hitachi Capital Mobility só agradou mesmo aos torcedores que moram em Eindhoven e pararam em frente à TV para torcer contra o velho rival. Se o Ajax não conseguia infiltrar a área, o Groningen muito menos. Dono do segundo pior ataque da competição, com 34 gols marcados, superando apenas o lanterna NAC Breda nesse quesito, o alviverde entrou predestinado a não ver suas redes balançarem.

Sem tanta inspiração, o Ajax de Ten Hag começou a pressionar com mais intensidade na última meia hora. O placar zerado só servia ao Groningen, que continua seguindo Vitesse e Utrecht de perto por um lugar nos playoffs da Liga Europa. Três pontos ainda separam o Groningen do Vitesse, que é sétimo e ostenta a última posição na zona de repescagem para o torneio.

O grande perdedor, naturalmente, seria o líder. Os ajacieden pagaram o preço pela divisão de atenção entre três competições que, acredite se quiser, ainda representam chances reais de título. Embora o Ajax seja azarão nas semifinais da Liga dos Campeões, tem representado com maestria o papel de protagonista na Eredivisie e, sobretudo na final da Copa da Holanda, na qual enfrenta o modesto Willem II em busca da taça. Ser favorito, afinal de contas, atrai atenção excessiva e um interesse geral em tirar a famosa casquinha do gigante.

Um grande plot twist

A história parecia pronta para um tropeço final do Ajax em um difícil compromisso na Eredivisie, certo? O PSV já saboreava a iminência de reassumir a liderança em momento crucial quando, aos 79 minutos jogados, Klaas-Jan Huntelaar disputou no corpo com o zagueiro rival, teve sua camisa puxada, mas ainda assim encontrou espaço e equilíbrio para arrematar ao gol de Sergio Padt. Um gol visceral comemorado pelo camisa 9, que dá contribuição vital ao clube em seu retorno.

Alguém pediu emoção? O árbitro Dennis Higler foi alertado de que teria de ver novamente o gol, já que havia controvérsia na disputa entre Huntelaar e Mike te Wierik. Há, de fato, um puxão de te Wierik, e um uso exagerado do braço de Huntelaar, que tentava se desvencilhar da marcação. Ao fim dos longos segundos de avaliação pelos auxiliares do VAR, Higler optou por manter a validade do gol. O veterano, em êxtase, comemorou o gol tirando a camisa e foi punido com cartão amarelo. Guarde essa informação para mais adiante: o atacante foi a grande figura do confronto.

Desesperado atrás do gol que deveria ter feito desde o início, o Groningen de Danny Buijs subiu para o campo adversário. Aos 84, em nova dividida entre Huntelaar e te Wierik, o goleador do Ajax soltou uma cotovelada impiedosa no pescoço de seu marcador, levando instantaneamente um cartão vermelho pela ação. Revoltado, Huntelaar desceu para os vestiários sob vaias e em papel ligeiramente distinto do que ostentara quando marcou um belo gol na grande área.

A superioridade numérica deu alguma coragem ao Groningen. Logo após a expulsão, Paul Gladon recebeu bola limpa dentro da área e forçou Onana a praticar grande defesa. Não houve nenhum coração tranquilo em Amsterdã naquele par de segundos. Não era para ser diferente. Esfriando as ações até o apito final, Ten Hag tirou Hakim Ziyech e fechou sua defesa com a entrada do lateral dinamarquês Rasmus Kristensen.

A tendência à simulação e o cai-cai na área do Ajax trouxe mais apreensão aos minutos finais da partida. Com cinco de acréscimo, então, a pilha de nervos só se intensificava para os visitantes. Por sorte, Matthijs De Ligt e Danny Blind mantiveram a cabeça fria e não cometeram erros até o último apito.

Um thriller que ajuda a antecipar a expectativa para as próximas rodadas e sobretudo para o dia 30 de abril, quando o Ajax viaja à Inglaterra para enfrentar o Tottenham e reencontrar velhos conhecidos. Toby Alderweireld, Jan Vertonghen, Davinson Sánchez e Christian Eriksen, seus ex-atletas que hoje fazem história nos Spurs. O sonho é que, após dois jogos, os tetracampeões europeus retornem ao principal estágio do futebol do continente, 23 anos depois da última aparição.