Todo jogador de futebol um dia foi só uma criança brincando de bola. E toda criança que brinca de bola tem um time do seu coração. Alguns poucos dos tantos que chutam uma bola – ou algo que lembre uma bola, como latinhas ou bolinhas de meia – alcançam o topo, se tornam jogadores de futebol, fazem da brincadeira uma profissão. Se já é difícil uma criança chegar a ser jogador, imagine só atuar pelo time do coração. Dejalma dos Santos, nascido em 27 de fevereiro de 1929 em São Paulo, foi um dos meninos que transformou a brincadeira de bola em profissão. Nunca vestiu a camisa do clube que torcia quando criança, o Corinthians. Ficou conhecido como Djalma Santos, se tornou um dos melhores laterais direitos da história, ascendeu na Portuguesa e virou um dos grandes ídolos do Palmeiras. Desenvolveu um carinho pelo clube que o tornou eternamente grato pelas cores alviverdes, que o transformaram em ídolo, capitão e eterno. Completaria 90 anos neste dia 27 de fevereiro de 2019, se estivesse vivo.

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Djalma Santos nasceu no Bom Retiro, curiosamente o mesmo bairro em que foi fundado o Corinthians. Só que ele é ligado mesmo à Parada Inglesa, bairro onde passou a maior parte da infância. Chegou aos três anos e ficou lá boa parte da vida. Fez testes no Ypiranga, no São Paulo e no Comercial, mas não conseguiu ser aprovado. Torcia pelo Corinthians, mas não foi lá que seguiu o sonho de profissional da bola.

“Torcia para o Corinthians, corintiano. Ficava aquele monte de molecada. ‘Vamos treinar no Corinthians!’. Quer dizer, ‘então vamos… E o Corinthians…’. Chegávamos decepcionados, né. Aí eu dei sorte na Portuguesa que esse senhor me levou”, contou Djalma Santos em uma deliciosa entrevista para o projeto “Futebol, Memória e Patrimônio”, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), vinculado ao Museu do Futebol. A entrevista foi concedida a Bernardo Buarque e Daniela Alfonsi. A transcrição completa da entrevista você pode ler aqui.

Por um acidente, Djalma Santos não foi para outra carreira. Um dia ele viu um rapaz com uma farda bonita, uma farda que era da aeronáutica. Quis entrar para a aviação. Começou a estudar à noite, trabalhava de dia. Um dia, uma máquina pegou a mão do jovem Djalma. Quando chegou para se alistar, disseram a ele: “Ah, negão… Com essa mão aí você não vai entrar aqui não”. O lamento daquele rapaz se tornaria a alegria de milhões de outras pessoas, que anos depois o veriam em campo por Portuguesa, seleção brasileira, Palmeiras e Atlético Paranaense. Perdeu a aeronáutica. Ganhou o futebol.

Foi jogando futebol de várzea que um caminho apareceu. Defendendo o Internacional, time amador da Parada Inglesa, conheceu Bruno, um goleiro que jogava na Portuguesa. O arqueiro prometeu levá-lo para lá. Treinou e agradou. Ficou. O problema é que nessa época Djalma Santos trabalhava e tinha que fazer horas extras para compensar os momentos que ia treinar. Surgiu então uma chance de se juntar ao time profissional.

O treinador da base, senhor Barros, disse que queriam dois jogadores no time de cima e um deles no meio-campo. Apesar de ser zagueiro, ele foi. E ficou, mais uma vez. Pediram que ele permanecesse para jogar pelos aspirantes – uma tradição de antigamente, parcialmente resgatada com o Brasileirão de Aspirantes, promovido pela CBF desde 2017.

Ainda como amador, Djalma Santos treinava na Portuguesa e trabalhava. Estudou só até o quarto ano primário. Era labuta de dia, livros à noite. Só passou a viver futebol em 1948, quando fez a sua estreia no time principal da Portuguesa em um jogo contra o Santos. Pediu à irmã que parasse de trabalhar, para que cozinhasse e cuidasse dele, visando estar bem preparado e nutrido para ser jogador. Passou a dar o dinheiro a ela.

Curiosamente, o momento que viu que poderia viver de futebol aconteceu por causa de um chapéu. “Chapeuzinho feio, mas muito bacana”, conta ele, em entrevista de 2011. Rifaram o chapéu que ele usava e rendeu o dobro do seu salário do mês na fábrica. “Ganhava trinta, me deram sessenta”.

Djalma Santos, um dos grandes na história da Portuguesa (Foto: Acervo da Bola)

Corintiano, mas que recebeu chance na Portuguesa. Era zagueiro, mas foi aprovado na Lusa como meio-campista. E como foi parar na lateral? “Porque eu jogava no meio de campo, na Portuguesa. Aí eles contrataram o Brandãozinho, na época foi uma contratação… Né? Brandãozinho na Portuguesa. Eu falei: ‘Puta, E agora?’. Aí falaram: ‘Olha negrão, você gosta de jogar de lateral?’, falei: ‘Jogo’. Aí, fui para a lateral direita. E aí fiquei na lateral direita a vida toda”, contou Djalma Santos.

Sonhou com a Copa do Mundo de 1950. Mal sabia ele que faria história, mas não naquela edição, e sim todas as quatro seguintes. Com muitas grandes histórias.

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“Cartola é um negócio ruim”

Djalma Santos é um jogador que viveu dois momentos muito distintos na seleção brasileira. Poderia estar na Copa de 1950, mas só passou a ser convocado em 1952. Disputou o Sul-Americano de 1953 e jogou a sua primeira Copa do Mundo na Suíça, em 1954. O time, porém, fracassou. E o lateral conta qual era a diferença para o que veio depois, em 1958: dirigentes ruins, jogadores mal orientados.

O lateral relata que participou de uma seleção brasileira de novos que jogou em 1950 no Rio de Janeiro, na época da Copa. Viu de perto a euforia que tomou conta da cidade depois do penúltimo jogo. “Eu acho que o que faltou naquela Seleção, para o Brasil ganhar, foi um pouco de organização. Os dirigentes que foram mal escolhidos, trabalharam mal. Então, na véspera do jogo, São Januário lotado de gente: ‘Fulano vai ser presidente, o outro vai ser governador, o outro vai ser não sei o que’. Resultado, o Brasil perdeu. Perdeu uma Copa que eles acreditam que era uma Copa ganha, né. Nas partidas que fizeram, tinham quase dois times, armados direitinho. E vai e perde uma Copa do Mundo…”, disse ainda o ex-jogador.

Em 1954, o Brasil novamente foi para a Copa e acabou engolido. Muitos dirigentes viajaram para a Suíça e, uma vez mais, como em 1950, a desorganização reinou, conforme conta Djalma Santos nesta reprodução da entrevista publicada no Ludopédio:

“Sim, muitos dirigentes. Ficávamos no hotel, e eles na cidade. Na véspera dos jogos, vinham à concentração. Era um ‘blá blá blá’ a tarde toda. Antes da partida contra a Hungria os ‘homens’ vieram falar conosco: ‘Porque a Hungria, porque o Puskás, porque não sei o que mais…’. Levantamos da mesa, às 11 horas da noite, com a cabeça inchada. Horas antes de a bola rolar, os húngaros se aquecendo no campinho e nós, no vestiário, ouvindo aquela papagaiada outra vez. Em 15 minutos, a Hungria faz 2 x 0 e tivemos um pênalti a favor. Já pensou se eu erro? Até hoje seria tachado, que nem o coitado do Barbosa. Contra a Iugoslávia, fomos para o intervalo e os caras com o seguinte discurso: ‘Tem que ganhar para classificar’. Acaba a partida, nós desolados com o empate e os dirigentes nos informam que avançamos de fase. Cartola é um negócio ruim. Em 1958 foi diferente. Tinha lá o Paulo Machado de Carvalho, o José de Almeida. Dialogávamos, batíamos papo, trocávamos ideias. Eles aceitavam o que você falava no certo ou no errado”.

A final da Copa 1958
A final da Copa do Mundo de 1958, quando Djalma Santos fez grande jogo e se consagrou (Foto: Getty Images)

João Máximo escreveu n’O Globo com uma precisão enorme sobre o que significou a atuação de Djalma Santos naquela final de Copa do Mundo, em 1958, quando o lateral foi escolhido para ser o titular justamente contra a Suécia – e acabaria eleito o melhor da posição no torneio.

“Nos dois anos que antecederam a grande final em Estocolmo, os comandantes do futebol brasileiro se pautaram por relatórios ‘científicos’ que punham em dúvida a capacidade emocional dos jogadores, sobretudo os negros e mestiços, considerados sensíveis demais para enfrentar, longe de casa, as tensões de uma Copa do Mundo. Única explicação possível para que, na equipe que estreou contra a Áustria, não houvesse um negro onde poderia estar um branco. Embora a seleção fosse sofrendo alterações à medida em que o campeonato avançou, Djalma Santos continuou na reserva de De Sordi até a véspera da chamada última batalha. Para surpresa daqueles comandantes, De Sordi é que não teve condições de jogar a final. Chamado para substituí-lo, frio, fora de ritmo, não adaptado aos companheiros e, portanto, em situação pouco favorável, Djalma Santos entrou em campo com a missão de marcar o melhor atacante sueco. Resultado: teve atuação espetacular, ajudou o Brasil a ser campeão e acabou eleito o melhor lateral direito da Copa. Ao fim do jogo, de longe, o locutor Oduvaldo Cozzi mandava pelo rádio uma síntese daquela exibição: ‘Procuro Nacka Skoglund, o deus louros dos estádios escandinavos, e encontro o negro Djalma Santos, velho lobo de outras batalhas'”

Palmeiras, um ídolo da Academia
Djalma Santos com a camisa do Palmeiras, onde brilhou (Foto: reprodução/Palmeiras)

Foi no Palmeiras que Djalma Santos teve seus melhores anos da vida. Fez parte do time que ficou conhecido como Academia. Jogou pelo Palmeiras de 1959 a 1968. Conquistou muitos títulos: o Campeonato Paulista em 1959, 1963 e 1966; Torneio Rio-São Paulo em 1965; a Taça Roberto Gomes Pedrosa em 1960 e 1967 e a Taça Brasil de 1967. Feitos muito importantes, muito pesados.

“Depois da Copa do Mundo [de 1958], faziam 10 anos e quatro meses que estava na Portuguesa. Aí eu fui vendido para o Palmeiras. Tinha o Palmeiras e o Fluminense, mas o Oswaldo Brandão e o Julinho, que trabalharam comigo na Portuguesa, estavam no Palmeiras. Aí eu optei pelo Palmeiras”, conta Djalma Santos. “Aí me falaram que o Palmeiras não aceita crioulo. Tal e essas coisas, não é? Eu falei: Ah, meu filho, eu vou para lá mesmo, não tem nada uma coisa com a outra. Aí fui para o Palmeiras, fiquei lá mais 10 anos”, contou o lateral.

Os elogios eram do lado de fora. Internamente, segundo o lateral, não tinha isso de vangloriar. “Para nós, não tinha nada de Academia. Se não tacasse o peito, perdia o jogo. Tinha que correr, dar pancada e bico na bola. Jogava bonito quando o negócio estava resolvido. Foi bom que esse lance de Academia nunca subiu à cabeça e até hoje o palmeirense lembra com carinho dessa época”, afirmou Djalma Santos.

Chegou a 501 jogos vestindo a camisa do Palmeiras, com 299 vitórias, 105 empates e 97 derrotas. Marcou 12 gols pelo clube. Escreveu uma história linda vestido de verde, o que o coloca entre os grandes da história do futebol brasileiro e do Palmeiras. Aquele time que não era o do seu coração quando criança, mas se tornou quando adulto. Ninguém vive 10 anos em um clube, defendendo com tanto afinco, sem se envolver.

Athletico Paranaense, o último capítulo
Djalma Santos e Bellini no Atlético Paranaense (Foto: reprodução)

Djalma já tinha passado pelo trauma de 1966, quando, ele diz, voltaram a repetir os erros de organização na preparação para a Copa. Ele, já um veterano de seleção, aos 37 anos, acabou afundando junto com uma Seleção que fracassou na Inglaterra. Mas o defensor ainda tinha futebol. Foi campeão em 1967 pelo Palmeiras, aos 38 anos. Em 1968, quase uma década de Palmeiras depois, mudou de cidade e de estado para jogar pelo seu último time na carreira: o Athletico Paranaense. Djalma Santos falou sobre como foi chamado para jogar no rubro-negro, quando ainda vestia a camisa alviverde.

“Aí, foi o presidente do Atlético do Paraná: ‘Quando você parar de jogar bola, você vai jogar no meu time’. Eu falei: ‘Qual é o seu time?’. Ele disse: ‘O Atlético do Paraná’. Eu: ‘Grande time! Vou, sim. Sem dúvida’. Jofre Cabral e Silva. Muito bom presidente. Aí, um dia eu estou em casa, encerrei e tal: ‘Você se lembra que você falou que ia…’. Aí, fui para o Atlético. [Durei] mais quatro anos no Atlético. Fui jogador, jogador-treinador, e, depois, só treinador”, contou Djalma Santos.

“Depois… Aí, olhei e fui para a Bolívia, com um convite para treinar o Bolívar. Aí, fui lá para a Bolívia. Depois, fui para o Peru, treinar o Sport Boys do Peru. Aí, fui para o Sampaio Corrêa, lá no Maranhão. Fui na Bahia. Aí, eu olhei bem e falei: ‘Ah! Treinador não é comigo, não’. Eu não tenho esse caráter para dizer… O time é ruim e eu vou dizer que é bom? E eu não posso dizer que é ruim, porque se me dão um time para treinar, eu chego lá e olho: ‘Este time não tem jeito não’. Então não me contratam. Não vai me contratar. Eu tenho que dizer: ‘Não, com este time, eu vou ser campeão’. Mentira, não vou ser nada”, relatou o também ex-técnico Djalma Santos, sobre por que durou pouco na função.

“Existia uma forte rivalidade entre Atlético e Coritiba, chamado de Coxa Branca por não ter negros no time. O Atlético tinha um campo ruinzinho e só jogávamos no Couto Pereira. Mas fomos campeões paranaenses dentro do campo deles, em 1970. Foi um período em que um monte de ‘neguinho velho’ foi para lá, como eu, o Bellini, o Nair e o Gildo. Fora de campo, a vida era muito boa. Predominava a colônia italiana e alemã, havia um espírito europeu na cidade”.

Sobre Neymar, em 2011: “Esse rapaz precisa ser orientado”

Djalma Santos contou que na sua época era um pouco diferente, que a exposição também era muito menor. E citou aquele que é o grande craque brasileiro, Neymar. Lembremos que a entrevista foi feita em 2011, quando o craque estava no Santos. E é curioso que a fala ainda soe como algo recente, embora na época Neymar fosse um jogador ainda muito jovem.

“De vez em quando aparecia nas revistas… Hoje não, hoje o cara está todinho… Que nem esse garotinho aí, Neymar, está em todo lugar, só dá ele. Quer dizer, então, ele tem que ter uma pessoa que o oriente também, fora de campo, dentro de campo. Que nem esse jogo que eu estava vendo, ele entrou no campo de luva, né? Se é no tempo lá do ‘crioulo’, do Pelé, como tem o Zito. Ia chegar o Zito, o Gilmar, o Mauro: ‘Deixa de palhaçada rapaz, tira isso aí da mão’. Você entende? Então esse rapaz precisa ser orientado para não se perder. Tanto dentro como fora de campo. Ele tomou um cartão amarelo… Bom, mas isso já vai demorar para sair”.

O entrevistador diz que o cartão amarelo foi porque Neymar simulou uma falta. “Uma falta… Quer dizer, levou um amarelo. É um negócio que não… Se era um Zito, um coisa, caía de pau em cima dele. Não precisa, é garoto novo, está entusiasmado, a mídia está com ele, então ele faz mil e uma extravagâncias, não é? Mas vamos ver”, disse o ex-lateral.

Querendo uma vida simples, Djalma Santos morava em Uberaba, Minas Gerais. Morreu em 23 de julho de 2013, aos 84 anos, por uma parada cardiorrespiratória. Está eternamente na história do futebol brasileiro, da Portuguesa, do Palmeiras e do Athletico. Um grande. Uma carreira que será sempre lembrada para que se diga: Djalma Santos foi um grande.

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