O domingo é de memória. É de lembrar o golpe que mudou o regime do país, naquele 31 de março de 1964, e colocou o Brasil em uma ditadura militar. Foram 21 anos de governo militar, com muitos episódios que envolvem o futebol. Em tempos como os atuais, é importante lembrar o que aconteceu naquele período para que nunca mais se repita. Há uma tentativa de reescrever a história atualmente, atribuindo qualidades que a ditadura jamais teve.

Um dos mitos criados por narrativas atuais é a que a ditadura militar não era corrupta. Um pouco de pesquisa já mostra que isso é oposto ao que se viu – e como também já mostramos no futebol aqui. O site Memórias da Ditadura é uma fonte importante de informações sobre aquele período no Brasil, em um projeto produzido pelo Instituto Vladimir Herzog – uma das muitas vítimas da ditadura. No site, o tema corrupção na ditadura é lembrado, inclusive sendo um dos motivos que levaram os militares a deixarem o poder, segundo um dos generais que presidiu o Brasil, Ernesto Geisel.

Em 2015, o UOL produziu um especial com 10 casos de corrupção durante a ditadura militar, baseada na série de quatro livros de Elio Gaspari sobre o período (“A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”). São casos que passam por contrabando na polícia do exército, delegados que faziam serviço de proteção a traficantes de drogas, ou governadores indicados pela presidência – já que não havia eleição – usando seus cargos para extorquir empresas ou mesmo para favorecer as próprias empresas, como Antônio Carlos Magalhães na Bahia, ou Paulo Maluf, em São Paulo, fazendo o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) emprestar dinheiro para a empresa da sua esposa, que estava falindo. Há também relatos das mordomias que ministros e servidores tinham, gastando dinheiro público em benefício próprio, com generais do exército cheios de regalias como carros, empregados e casas.

Uma reportagem de Fabio Sasaki no Guia do Estudante de maio de 2018 fala sobre a corrupção na Ditadura Militar e como o regime fez de tudo para jogar os casos para baixo do tapete. A revista Super Interessante também falou sobre o assunto em setembro de 2018, em reportagem de Maurício Horta, Mito: “na época da Ditadura Militar não tinha corrupção, que conta que os militares prometeram limpar o país, mas o que fizeram foi censurar a divulgação de qualquer coisa negativa ao regime, incluindo as denúncias de corrupção, que eram muitas.

A revista Super Interessante, aliás, fez uma série de reportagens para desmistificar o que se tenta reescrever atualmente, todas produzidas em 2018: Mito: “durante a ditadura, só existiu guerrilha de esquerda”, Mito: “O golpe de 1964 foi idealizado pelos EUA”, Mito: “a Ditadura Militar foi branda”, Mito: “Os militares impediram um golpe comunista em 1964”, Mito: “a Igreja apoiava a Ditadura Militar”, Mito: “na Ditadura Militar, as cidades não eram violentas”, Mito: “os generais da Ditadura Militar apoiavam o livre mercado”, Mito: “durante a Ditadura Militar, a tortura ocorreu só em casos isolados”.

O futebol e a Ditadura Militar no Brasil

Quando o golpe completou 50 anos, em 2014, a Trivela fez um especial com cinco reportagens sobre como a Ditadura Militar se apropriou do futebol brasileiro. Consideramos fundamental a memória do que foi feito, como uma manifestação em favor da democracia, algo que deveria ser luta de todos os brasileiros, como escrevemos na época. É algo maior do que a discussão política, é uma questão anterior e muito maior de liberdades individuais e o direito das pessoas poderem escolher seus governantes e poderem, democraticamente, serem contrários a ideias, ações e até ao governo inteiro.

Na primeira reportagem daquela série, mostramos como a Ditadura atrapalhou a evolução do futebol. Os problemas de organização no futebol brasileiro já eram grandes, mas o que a Ditadura fez foi criar um monstrengo na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), presidida então por João Havelange (que depois reproduziria a ideia na Fifa, que também presidiu). E foi muito além de Havelange, e que prejudicou muito os clubes criando uma relação promíscua entre as entidades e o governo. Algo que vemos, de certa forma, até hoje com os modelos de refinanciamentos eternos de dívidas com contrapartidas muito pequenas, ainda que o governo tenha sido um pouco mais rigoroso na última negociação, chamada de Profut, em 2015.

Na segunda reportagem da série da Trivela, “Os insurgentes”, contamos a história de jogadores, técnicos, dirigentes e mesmo clubes que decidiram manifestar-se contra a Ditadura, em um momento que isso significava colocar a própria vida em risco. Entre eles estão o ex-jogador Afonsinho, a Democracia Corintiana, o ídolo atleticano Reinaldo, o craque Tostão, o irmão de Zico, Nando, e mesmo o comentarista de futebol que se tornou técnico da seleção, João Saldanha, além do Madureira, que se manifestou como clube. Há outros personagens listados na reportagem que valem ser lembrados.

A terceira reportagem fala sobre o futebol no Plano de Integração Nacional, em um projeto de poder que conhecemos bem: usar o futebol como forma de conseguir apoio local. Foi esse projeto que tornou famosa a frase “Onde a Arena vai mal, mais um clube no nacional”, que depois seria complementada com “Onde a Arena vai bem, mais um clube também”. Mais do que o inchaço do campeonato nacional, o governo produziu obras faraônicas como forma de agradar oligarquias locais e tentar agradar a população local, inclusive com estádios enormes – foi quando começou a ideia de chamar todo estádio com “ão” no final, uma forma de exaltar a grandiosidade da obra.

Na quarta reportagem, falamos sobre a militarização da seleção, desde os anos 1970 até que as coisas se tornaram mais complicada. A seleção foi usada como uma forma de propaganda de alguns slogans do governo e o sucesso em campo era também uma forma de conseguir isso. O problema é que nem tudo saiu como esperado, ao menos do ponto de vista do governo.

Por fim, na quinta reportagem, falamos sobre o que os clubes fizeram durante a Ditadura, já que a relação entre dirigentes e ditadores era, em boa parte dos casos, bastante próxima e promíscua. Os clubes entraram no esquema de benefício aos amigos do regime, o que, em parte, os levou a problemas financeiros enormes quando o regime também afundou em uma imensa crise econômica que começou a desgastar a Ditadura de modo irreversível.

Além do especial, trouxemos mais reportagens especiais envolvendo futebol e ditadura. Em setembro de 2014, falamos sobre o jogador que uniu gremistas e colorados contra a Seleção na ditadura, o lateral esquerdo Everaldo. Também em setembro de 2014, falamos sobre o que o relatório da Comissão Nacional da Verdade revela sobre o futebol. Conta sobre Caio Martins, usado como prisão e local de tortura e sobre brasileiros que estiveram no Chile, como vítimas da Operação Condor, que unia as ditaduras na América do Sul e também foram presos em um local de futebol, o Estádio Nacional do Chile.

O caso de Caio Martins, aliás, é um que contamos na edição de fevereiro de 2009 da revista Trivela. Ao invés de gols e vibração da torcida, tortura psicológica e desespero. Conheça o lado mais sombrio da história do Caio Martins, reportagem assinada por Eduardo Zobaran, fala sobre o horror que muitos tiveram que passar no estádio localizado em Niterói.

Em janeiro de 2016, publicamos uma reportagem da Agência Pública, assinada por Lúcio de Castro, sobre Antonio Nunes, o famoso Coronel Nunes, que vive seus últimos dias como presidente da CBF (Rogério Caboclo irá assumir, algo que já falamos sobre aqui na Trivela). Homem da ditadura, presidente da CBF recebe como anistiado político conta como o coronel recebe indenização de mais de R$ 14 mil da Força Aérea Brasileira por, nas palavras do documento que confere a ele o benefício, ser “vítima de ato de exceção de motivação política”. Isso mesmo ele sendo parte da Ditadura Militar, não dos perseguidos por ela.

Em novembro de 2018, indicamos uma reportagem assinada por Roberto Jardim, A única derrota do Condor, sobre um caso de perseguição que não conseguiu levar a cabo o seu plano, em uma colaboração entre regimes militares que mataram milhares de pessoas.

A Ditadura Militar foi um momento sombrio da história do Brasil e, por isso mesmo, não pode ser esquecido. Os horrores daquele período estão relatados, os problemas em todas as áreas, sociais, econômica, de segurança e de corrupção estão amplamente relatados. O Brasil fez um processo de anistia que acabou premiando os torturadores e aqueles que participaram do regime, que nunca foram julgados e, portanto, nenhum deles condenado por seus crimes ao longo do período. Algo que, por exemplo, aconteceu no Chile e na Argentina. A memória é uma das maiores armas para impedir que coisas assim se resolvam. É importante lembrar. Ditadura nunca mais.