A Copa do Mundo de 2022 está envolvida em polêmica desde que o Catar foi anunciado como sede, em dezembro de 2010. O atual presidente da Fifa parece querer tornar tudo ainda mais complicado antecipando o aumento de 32 para 48 seleções para 2022 em vez de 2026. Isso porque o Catar terá oito estádios, prontos para um torneio de 32 times e, para abrigar um torneio de 48, precisaria fazer uma parceria com os vizinhos. O problema? Os vizinhos fazem um boicote ao Catar, comandado pela Arábia Saudita. E é aí que encontramos as causas para o pedido de Gianni Infantino para antecipação do aumento dos participantes já para 2022.

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Em entrevista ao Guardian, do Reino Unido, Gianni Infantino falou sobre a possibilidade de expansão da Copa já em 2022 e admitiu que a possibilidade disso acontecer é pequena. Ainda assim, ele insiste para que haja a tentativa. Principalmente porque ele acredita que o futebol pode ajudar em hostilidades políticas, que fizeram com que Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, e Egito a fazerem um bloqueio econômico e de fronteiras ao Catar.

“Talvez o futebol seja uma forma de construir pontes. Nós vimos isso também com a candidatura para 2026, o direito de organizar a Copa foi dado a três países [Estados Unidos, Canadá e México], que eu acho que não têm as melhores relações políticas ou diplomáticas. Mas o futebol faz milagres, como nós sabemos”, disse Infantino, tentando estabelecer uma conexão entre coisas bastante distintas. México e Estados Unidos, especialmente viviam um impasse tanto em termos diplomáticos quanto em termos comerciais. Isso amenizou, mas menos por causa do futebol e mais por uma necessidade de ambos.

“Obviamente a relação com os vizinhos [do Catar] é um fator que complica a situação. Por outro lado, ainda que as relações diplomáticas sejam complicadas e difíceis, quando se trata de futebol as pessoas falam umas com as outras”, afirmou ainda o presidente da Fifa, com uma visão excessivamente otimista e deliberadamente cínica. Ele lembrou que os times dos países com o bloqueio ainda seguem jogando entre si na Liga dos Campeões da Ásia, apesar dos problemas.

“Sejam positivos sobre isso: nós podemos fazer alguma coisa pelo mundo e pelo futebol. Isso poderia acontecer, qualquer coisa pode acontecer. Vamos passo a passo. Sim, talvez as chances sejam pequenas, mas eu sou uma pessoa muito otimista geralmente, então iremos ver a situação”, declarou o dirigente da entidade que dirige o futebol mundial.

Só que o otimismo e empolgação de Infantino não chegou aos dirigentes do Catar. A Arábia Saudita tem comandado o bloqueio aos catarianos e tem forçado para que o país ceda. Há um componente de disputa política, que coloca Catar e Arábia Saudita em lados opostos desde a Primavera Árabe, além de posições antagônicas também no que se refere à cobertura da Al Jazeera, rede de Tv do Catar que se tornou um colosso mundial e que abre espaço inclusive para críticas aos regimes do Oriente Médio.

O recente episódio do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi a mando do governo saudita fez com que os catarianos reforçassem a sua posição que o regime dos vizinhos é de natureza repressiva e violenta. É a posição defendida pelo xeque do país, Khalifa al-Thani, que obviamente está envolvido na organização da Copa do Mundo, que tem membros da família real no Comitê Supremo do Catar, responsável pela Copa 2022. O país está gastando algo em torno de US$ 8 a US$ 10 bilhões só para reformar e construir os oito estádios que serão usados no Mundial.

Os planos sauditas para a Fifa

Mohammed Bin Salman Al Saud, príncipe da Arábia Saudita (centro), com o presidente Gianni Infantino ao fundo (Photo by Pool/Getty Images)

Há outro elemento político que envolve diretamente a Fifa. Infantino tem sido favorável a um consórcio que quer comprar direitos da Fifa para recriar o Mundial de Clubes em outro formato, criar uma Liga Mundial e também negociar os direitos da Copa do Mundo. As empresas por trás dessa ambiciosa ideia de reformular basicamente todas as principais competições da Fifa sempre foi deixada sob sigilo, com a alegação de questões contratuais. Infantino, porém, tem defendido que isso seja aprovado.

Segundo o jornal Süddeutsche Zeitung, da Alemanha, Gianni Infantino quer vender a Fifa, por assim dizer. Os documentos mostram que as empresas se interessam pelo Mundial de Clubes, a nova competição Liga Mundial, similar à Liga das Nações da Uefa, e, o principal, teria todos os direitos (de marketing a direitos de TV, em todos os formatos possíveis e imagináveis) da Copa do Mundo. Com isso, a Fifa, na definição bastante feliz do jornal, viraria uma concha vazia. A proposta seria de US$ 26 bilhões por 12 anos de contrato.

Bom, o que tudo isso tem a ver com Catar e Arábia Saudita? Bom, calma que agora é que chegamos lá: os parceiros que ofereceram esse contrato à Fifa são: SB Investment Advisers LImited (SBIA) e a empresa de investimentos baseada em Londres Centricus Partners LP. Os laços são mais profundos: a SBIA tem como dono o SoftBank Group, um consórcio que mantém ligações bastante estreitas com a Arábia Saudita. Já a Centricus tem no seu portfólio de clientes alguns dos maiores fundos privados, em particular da SoftBank e, adivinha só, investidores da Arábia Saudita. Com tudo isso, a desconfiança é que haja muito mais em jogo do que questão de marketing no futebol, com motivos geopolíticos por trás da iniciativa. Um dos pontos centrais seria a escolha de onde serão as Copas do Mundo.

Somado a isso, temos outro ponto importante: a Arábia Saudita nunca foi relevante em termos políticos na Fifa, mas recentemente a sua importância cresceu substancialmente. Passou a ter laços bastante estreitos com a presidência da Fifa e, claro, especificamente Gianni Infantino. Há uma disputa nos bastidores por poder no futebol. O Catar cresceu de importância e a sua abertura ao ocidente incomoda os sauditas há anos. A força do futebol, com laços no PSG, Barcelona e até no Bayern tornam o pequeno país do Oriente Médio muito influente. O que a Arábia Saudita tem feito é um contra-ataque. Por isso, não dá para desvincular do que tem acontecido na liga saudita, que voltou a receber pesados investimentos estatais – com muitos brasileiros indo para o país, como o técnico Fabio Carille.

Com os sauditas tão próximos a Infantino e com uma empresa, ou melhor, um consórcio que teria sob seu comando a Copa do Mundo, uma Liga Mundial e o Mundial de Clubes, essa organização teria mais força que a Fifa. E Infantino teria um cargo nela, se assim quiser, segundo informam os documentos que a Fifa, claro, tratou de minimizar. A Arábia Saudita seria a cabeça por trás de uma nova Fifa, deixando a entidade como uma mera distribuidora de dinheiro para federações. O Catar, então, se submeteria à Arábia Saudita, que teria uma máquina de fazer dinheiro nas mãos. Lembremos que os investimentos em esporte no país têm sido grandes, incluindo aí levar uma luta do WWF e uma etapa da Fórmula E para a Arábia Saudita.

No Catar, 48 seleções seria impossível

Estádio Khalifa International, o primeiro inaugurado no Catar para a Copa 2022 (Photo by Neville Hopwood/Getty Images for Qatar 2022)

Infantino admite que a implicação lógica de antecipar a expansão para 48 seleções já na Copa 2022 teria como implicação lógica sediar jogos em países vizinhos ao Catar. Fazer apenas no país que ganhou o direito de ser sede, em 2010, seria praticamente muito difícil.

“Catar terá oito estádios e está se preparando para uma Copa com 32 times; é claro que você não precisa ser um Einstein para descobrir que seria difícil organizar [uma Copa com 48 times] em oito estádio e um país”, afirmou Infantino. “Então, você provavelmente terá que compartilhar alguns dos jogos adicionais fora do país; isso traz algumas complicações e dificuldades adicionais, é claro, e nós teríamos que olhar para isso”.

Com todo esse cenário montado, ainda mais com o assassinato de Khashoggi, forçar uma mudança como essa parece uma loucura de Infantino. Ou melhor: uma medida cercada de interesses que passam por cima do bom senso. Ainda assim, defendendo abertamente a expansão da Copa e a abertura para dividir com outros países, Infantino quer deixar claro que não haverá pressão para que o Catar aceite a mudança.

“Certamente não há pressão de maneira alguma no Catar”, afirmou o dirigente. “Há uma aberta e franca discussão. Se for possível, factível, eu estou muito feliz. Se não eu estou muito feliz de qualquer forma. Mas eu não ficaria feliz se não tivéssemos tentado”, seguiu Infantino. “Se isso ajudar o futebol, ótimo. Se um efeito colateral é que haja mais efeitos positivos na região, melhor ainda, porque essa região é, obviamente, especialmente com o atual clima, muito importante para o mundo inteiro”.

Os repórteres trataram de perguntar, então, se a Arábia Saudita poderia se tornar sede da Copa nesse cenário todo.  “Nós temos que levar em conta a situação geopolítica, esperando que todas as questões se envolvam, não pelo futebol, mas pelo mundo. E se qualquer discussão sobre a Copa do Mundo pode ajudar de alguma forma a fazer a situação evoluir na região, no que diz respeito à Arábia Saudita, é um impacto bom, talvez”, afirmou Infantino.

Como exemplos de como o futebol pode impactar positivamente o mundo, Infantino listou o Irã e a permissão para que as mulheres do país assistam à final da Liga dos Campeões da Ásia, que envolveu o Persepolis eo japonês Kashima Antlers, no dia 10 de novembro. As mulheres não podiam entrar em estádios do país desde 1981, depois da revolução conservadora do país.

“Eu não estou fingindo que estamos fazendo tudo perfeitamente, de modo algum”, disse Infantino. “Nós estamos cometendo muitos erros, mas nós estamos tentando trabalhar de uma forma honesta”, completou o presidente da Fifa.

O que sabemos é que a Fifa tem sido muita coisa. Transparente não tem sido. Isso pode não significar que haja algo ilegal, imoral ou, diretamente, corrupto. Abre, porém, espaço para manobras sombrias e a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções já deixou muita gente insatisfeita, embora tenha sido politicamente hábil para Infantino. Como o presidente da Fifa irá lidar com essa clara tentativa da Arábia Saudita de ser uma superpotência no futebol – não em campo, claro, mas nos bastidores e na política? Esse é um ponto crucial e Infantino terá que responder com suas ações, acima de tudo.