Faltam duas semanas para terminar a nona edição de um Campeonato Brasileiro por pontos corridos. E, dentre dúvidas e certezas – que, este ano, se alternaram a cada término de rodada, a pergunta que fica é sempre a mesma: qual é o real nível deste campeonato?

Os pontos corridos vieram para atender a uma vontade de muita gente na época. Dizia-se que o futebol brasileiro estava na contramão, já que todas as principais ligas nacionais do planeta adotavam o sistema de “um contra todos”, o que, para seus defensores, garantiria mais equilíbrio ao torneio e premiaria a equipe mais regular. Demorou ao grande público assimilar a mudança. Muita gente até hoje torce o nariz, fala que a fórmula é sem graça, que o torcedor gosta da emoção de uma final. Para estes, o amigo Leonardo Bertozzi neste domingo frisou bem: “Pontos corridos não tem final? Pontos corridos só tem final.”

O equilíbrio em que desenrolou o campeonato faz com que muitos digam que o Brasileirão é nivelado por baixo. Não é verdade. Temos que considerar que não teremos, nunca, o poderio econômico das grandes forças europeias, mas mesmo assim me atrevo a dizer que o campeonato brasileiro é bem mais legal que o espanhol, por exemplo, onde há dois supertimes, dois ou três times de razoável para bom e pelo menos uma dezena de times bem fracos.

Por aqui, não dá pra apontar ainda que o Corinthians será o campeão, apesar dos dois pontos de frente. O time segue na ponta do campeonato graças ao início fantástico – ninguém, ao longo do campeonato, repetiu o aproveitamento de 28 pontos em 30 disputados do time de Tite – e à incompetência dos adversários que, ao longo do trajeto, se aproximaram e até ultrapassaram o alvinegro de Parque São Jorge, sem, no entanto, abrir uma boa margem. As duas vitórias dessa semana foram conquistadas do jeito que o torcedor corintiano mais gosta: a fórceps, sem o time estar jogando bem. Faltam os jogos contra o Figueirense, no Orlando Scarpelli; e Palmeiras.

Do Corinthians pode se esperar tudo. No entanto, vale sempre ressaltar que o time montado por Tite tem um padrão de jogo bem definido. O treinador, sempre visto com um pouco de desdém por causa de sua, digamos, “vocabulariedade”, fez um bom trabalho à frente da equipe. A defesa melhorou muito sem Chicão, o meio-campo é competitivo e o ataque produz bem.

O Vasco, vice-líder, lamenta profundamente o tropeço diante do Palmeiras, e agora, além de ter que ganhar os dois clássicos contra Flu e Fla, terá que torcer por pelo menos uma derrota do Corinthians nos dois jogos que faltam. Além disso, o time tem que dividir suas atenções com a Copa Sul-Americana, onde, na semifinal, terá pela frente o ótimo time da Universidad de Chile. Como se não bastasse, o elenco cruzmaltino é curto e algumas posições estão longe de ter reservas no mesmo nível dos titulares.

Para o Fluminense, as chances de título são mais remotas. Vencer os dois clássicos contra Vasco e Botafogo, pelo que vem jogando, parece ser o menor dos problemas. Difícil é acreditar que o Corinthians fará apenas um ponto nos dois jogos que faltam. A recuperação tricolor no returno foi fantástica e sua torcida vai lamentar durante um bom tempo a péssima atuação diante do América, no final de semana retrasado, que pode ter sepultado as chances do bicampeonato.

Paradoxalmente, o campeonato, que foi exaltado por seu equilíbrio e pelas mudanças de direção no chamado G-5 a cada rodada, tem uma chance bem real de acabar no domingo, com uma rodada de antecipação. Uma vitória do Corinthians contra o Figueirense, mesmo em Florianópolis, não é um resultado de outro mundo. E um dos dois únicos empates do Fluminense foi justamente contra o Vasco, no primeiro turno. Além de uma ironia bem comum no mundo do futebol, essa combinação de resultados municia com bons argumentos quem é contra o campeonato de pontos corridos.

Flamengo e Botafogo em queda livre
Enquanto Vasco e Fluminense já estão garantidos na Copa Libertadores da América do ano que vem, Flamengo e Botafogo, que passaram o campeonato inteiro na zona de classificação para a competição sul-americana, terminam o campeonato em queda livre.

O Flamengo tem mais motivos ainda para se lamentar. Com um elenco caro e que fracassou nas copas do Brasil e Sul-Americana, o rubro-negro vem de uma sequência de atuações horrorosas. O time, que não faz gol há três rodadas, ainda depende só de si para chegar à Libertadores, o que, a essa altura, seria uma grande conquista. Com apenas o Estadual no bolso – o que é pouco para o investimento feito nas contratações de Felipe, Alex Silva, Thiago Neves e Ronaldinho – , salvar o ano de 2011, evitar um prejuízo financeiro grandioso para 2012 e não perder a temporada que vem antes mesmo dela começar é o mínimo que a torcida espera.

O Botafogo surpreendeu os críticos – e até boa parte de sua cética torcida – durante o campeonato. O time estava encaixadinho, jogando bem no Engenhão, e em alguns momentos, deu pinta de que brigaria pelo título.

Não consigo detectar em que momento o encanto se quebrou. Mais uma vez, Caio Junior montou um time competitivo, mas que se perde na reta final. A coisa, que já não estava boa, acabou piorando com a demissão do treinador a três jogos do término da temporada. Pior: para manter um técnico interino que não vai conseguir resolver os problemas do elenco

Apesar de estar apenas a dois pontos do quinto colocado, o Botafogo não dá nenhuma pinta de que conseguirá vencer seus dois jogos e se colocar à espera de outros resultados para herdar uma vaga na Libertadores.

Série B: contraste rubro-negro
Na série B, mais que os já esperados acessos de Náutico e Ponte Preta, os momentos mais eletrizantes do sábado foram os dez minutos finais na Ilha do Retiro e no Barradão. Em Recife, o jogo estava até tranquilo. Com dois jogadores a mais ainda no primeiro tempo, o Sport já vencia o Paraná Clube por 2 a 0, com Marcelinho Paraíba e Roberson. Roberson fez 3 a 0 para o Leão aos 41 minutos do segundo tempo.

Enquanto isso, em Salvador, o Vitória, que vencia o São Caetano por 1 a 0 (gol do zagueiro Jean). Mas aos 43 minutos, Antônio Flávio, de cabeça, empatou o jogo para o time do ABC, tirando o Vitória da zona de classificação para a série A. A situação piorou quando, aos 49, Geovane fez o gol da vitória do Azulão. O que seria festa para a torcida rubro-negra (uma vitória colocaria o time dependendo de um empate na última rodada para subir) se tornou em agonia.

Agonia também foi a sensação em Bragança Paulista, quando o time da casa perdeu para o ASA por 1 a 0, decepcionando a torcida que lotou o Marcelo Stéfani como nos bons tempos do início da década de 90.

Com os resultados, o Sport, que chegou a estar bem afastado da classificação para retornar à série A, é quem está em melhor condição para ocupar a quarta vaga. Tem os mesmos 58 pontos e 16 vitórias do Bragantino, mas está com quatro gols de vantagem no saldo (17 a 13). O Vitória caiu para o sexto lugar, com 57 pontos e agora, não depende só de si – torce por tropeços de Sport e Bragantino.

Sonhando com um milagre ainda estão Boa Esporte e Americana, que com 56 pontos, precisariam de derrotas de todo mundo que está à frente lutando por uma vaga, além de vencer seus jogos.

Curioso é que, dos times que tentam a quarta vaga, todos jogam fora de casa: Vila Nova x Sport, Paraná x Bragantino, ASA x Vitória, Duque de Caxias x Boa Esporte e ABC x Americana.

Já na luta para não cair, todos os ameaçados jogam em casa: Icasa (47 pontos, recebe a campeã Portuguesa), ASA (48), São Caetano (48, recebe o Criciúma), Paraná (49), Guarani (49, recebe o Goiás) e ABC (50 pontos). A situação do time cearense é a mais complicada porque, além de pegar o melhor time do torneio, nem um empate serve: com saldo de gols negativo, teria que torcer para o São Caetano perder por sete gols de diferença do Criciúma. Pior: se todos os que brigam pra não cair vencerem, nem mesmo um triunfo sobre a “Barcelusa” salva o time de Juazeiro do Norte.

CURTAS
– Confronto de Américas na série B em 2012. Enquanto o mineiro teve sua queda da série A consumada no sábado, com a derrota diante do São Paulo; o homônimo potiguar garantiu, no domingo, seu acesso da série C, vencendo o Paysandu por 2 a 1.

– A decisão da série C será entre o Joinville e o CRB. Por ter feito a melhor campanha, o time catarinense fará o segundo jogo em casa. Vale lembrar que além dos dois finalistas e do América de Natal, o Ipatinga também estará na série B em 2012.

– Na série D, o Tupi, de Juiz de Fora, garantiu o título depois de outra vitória por 2 a 0 sobre o Santa Cruz, desta vez, em Recife. O time da Zona da Mata mineira já havia vencido o primeiro jogo pelo mesmo placar no domingo retrasado, em casa.

– As copas estaduais que dão acesso à Copa do Brasil do ano que vem estão chegando ao final. No Espírito Santo, o Real Noroeste venceu o segundo jogo da Copa ES sobre a Desportiva e ficou com o título. No primeiro jogo, empate em 1 a 1. O Real Noroeste é de Águia Branca, que fica a 209 km de Vitória, e tem apenas três anos de fundação.

– Em São Paulo, o Paulista ficou com o título da Copa Paulista, ao superar o Comercial de Ribeirão Preto no placar agregado. No primeiro jogo, em Jundiaí, vitória dos donos da casa por 2 a 0. No sábado, o Comercial venceu por 2 a 1

– Na Copa Rio, a final será entre Madureira e Friburguense. O Friburguense eliminou o Bangu na semifinal com duas vitórias por 2 a 1. O Madureira passou pelo Macaé nos pênaltis – cada equipe venceu um jogo por 2 a 0.

– Acontece nesta semana a definição do Campeonato Amazonense de 2012. Campeão da série B, o Grêmio Coariense foi banido por dois anos pelo TJD/AM, pela utilização de jogadores em condição irregular. Terceiro colocado na Segunda Divisão, o Iranduba deve herdar a vaga que seria do Grêmio Coariense. O Holanda deve herdar a vaga do América, que desistiu da disputa da primeira divisão do estado.