David Dein é o cara responsável por levar Arsène Wenger ao Arsenal em 1996, dando início a uma era que catapultou o clube a um patamar completamente novo. Dein chegou aos Gunners em 1983, já assumindo o cargo de vice-presidente. Anos antes de levar Wenger a Londres, foi importante peça na criação da Premier League, em 1992. Segundo o ex-presidente da Federação Inglesa, Bert Millichip, a ideia da liga foi do antigo dirigente dos Gunners. Agora, em 2019, 12 anos depois de deixar o clube em que foi figura tão vital, Dein embarca em um novo projeto: mudar o sistema carcerário por meio do futebol.

Inglaterra e País de Gales têm um problema em seu sistema prisional, com a maior população carcerária da Europa Ocidental: mais de 85 mil detentos. A taxa de reincidência no Reino Unido também é alta, com 64% dos presos voltando a cometer crimes dentro de um ano após a soltura. Para combater isso, David Dein decidiu entender melhor o sistema, visitando todas as 118 prisões em Inglaterra e País de Gales, e então lançar uma iniciativa que usa o futebol para aplacar o problema.

Chamada de Twinning Project, a iniciativa faz uma ponte entre as prisões e os clubes de futebol locais. O principal objetivo é aumentar a autoestima dos detentos, ajudando-os a voltar ao mercado de trabalho uma vez que deixem o cárcere. Os clubes oferecem sessões de treino, cursos de liderança e também de arbitragem, e alguns deles até impulsionam na prática a reinserção ao mercado de trabalho, com vagas de emprego em serviços de bufê e de segurança nos jogos.

Ao todo, 36 equipes se inscreverem no projeto até agora, passando por diversos níveis da pirâmide do futebol inglês. Há potências como Manchester City e Liverpool, atuais campeões da Premier League e da Champions League, respectivamente, Arsenal, Chelsea, Tottenham e outros dos principais times da capital Londres, assim como clubes como Southampton, Newcastle, Leeds, indo até equipes do patamar de Plymouth Argyle e Notts County.

O financiamento do projeto, segundo o Guardian, vem quase exclusivamente das fundações comunitárias dos clubes envolvidos. O trabalho capitaneado por Dein é um complemento a ações que já eram feitas por um bocado de clubes. “Eles estavam se envolvendo com prisões de forma independente, sem qualquer coordenação uns com os outros. Além disso, para os seis clubes que estavam fazendo alguma forma de programa, havia outros 86 que não estavam fazendo nada. Então senti que a entrega consistente, replicável e sustentável de programas significativos era muito necessária”, explica o ex-dirigente do Arsenal ao jornal inglês.

Os próprios Gunners, por exemplo, mantêm parceria com uma prisão feminina no condado de Surrey. O clube está realizando um programa de seis semanas com 12 detentas, incluindo workshops semanais em sala de aula e no campo. O intuito é ensinar capacidades de liderança, além de formar relações positivas e entender as regras do futebol, tudo enquanto aprimoram também suas habilidades dentro de campo.

As mulheres do sistema carcerário compõem 5% da população prisional no Reino Unido e vivem um problema endêmico, com quatro vezes mais chances de se automutilar do que os detentos homens. Uma das detentas participando do programa do Arsenal revelou que, após um longo histórico de automutilação, não se feriu mais desde que começou a participar das oficinas.

Mais do que um problema humanitário, a crise de reincidência do Reino Unido é um problema também financeiro. Estima-se que o ciclo de recaída no crime custe £ 15 bilhões por ano, mais de £35 mil por detento. Mais preocupado com o lado pessoal do problema, Dein espera que o futebol possa ajudar as pessoas a mudar suas vidas ao deixarem a prisão. “O futebol pode ser uma força poderosa para o bem”.