O que pareceu uma visão do paraíso para os ingleses soou como as trombetas do apocalipse para o resto da Europa. O anúncio de que a Sky Sports pagará cerca de € 7,8 bilhões para transmitir a Premier League entre 2016 e 2019 despejará um caminhão de dinheiro nos clubes do país. Significa um poder de mercado 70% maior em relação ao último acordo de TV. E que já apresentava uma enorme disparidade em relação ao restante das grandes ligas do continente – e isso sem falar de países como Portugal, Holanda ou Turquia, já depenados. Neste cenário, clubes vizinhos começam a temer uma debandada de jogadores rumo à ilha. A criação de uma NBA do futebol, segundo o presidente do Saint-Étienne.

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Anualmente, a Premier League receberá € 2,6 bilhões – e isto levando em conta apenas os acordos domésticos, sem os € 1,4 bilhões anuais dos direitos internacionais. O valor interno é do que as ligas de Itália (€ 960 milhões), Espanha (€ 750 milhões) e Alemanha (€ 628 milhões) juntas. Se a França (€ 748 milhões) se somar ao grupo, passarão os ingleses em “apenas” € 500 milhões. Ou seja, um grupo de 78 clubes recebe € 500 milhões a mais do que a casta dos 20 participantes da Premier League.

Além disso, a estimativa é de que o último colocado do Campeonato Inglês receba € 126 milhões da TV a partir de 2016/17. Em 2013/14, os únicos clubes de toda a Europa a ganharem mais do que isso foram Barcelona e Real Madrid, dentro do desequilíbrio total na divisão dos direitos de transmissão na Europa. Um Burnley da vida, por exemplo, receberá sozinho mais dinheiro da televisão do que Bayern de Munique, Paris Saint-Germain e Atlético de Madrid receberam juntos na última temporada. Obviamente, as receitas dos gigantes vão muito além da TV, mas a disparidade é evidente.

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“A Premier League se tornará uma NBA do futebol. Será maior do que a Liga dos Campeões. Clubes como o Manchester United ou o Chelsea terão receitas de € 700 ou € 800 milhões. O que está acontecendo na Inglaterra terá impacto sobre a Alemanha, a Itália, a Espanha. E eu não imagino que a Uefa ficará sem reação. Mas haverá mais atenção se o pedido vier do Bayern, do Real, do Barcelona ou do Milan, ao invés do Saint-Étienne”, declarou Bernard Caiazzo, mandatário dos verdes.

A divisão dos direitos de TV em 2013/14
A divisão dos direitos de TV em 2013/14

Na atual temporada, os clubes da Premier League gastaram cerca de € 1,38 bilhões em transferências. Juntas, as outras três maiores ligas da Europa investiram somente € 120 milhões a mais – ou seja, menos do que as contratações de Alexis Sánchez, Diego Costa e Ángel Di María. Por mais que os alemães, espanhóis, franceses e italianos possam vender mais caro aos ingleses, cada vez mais ricos, já está difícil competir no mercado de transferências. Só os gigantes de outros países, com fontes de receita comerciais robustas, parecem aptos a enfrentar esse desequilíbrio, ainda que isso force mais os gastos em contratações.

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A comparação com a NBA é válida. Mas também é possível traçar um paralelo com outro exemplo dentro do próprio futebol: o Campeonato Italiano nos anos 1980 e 1990. O poder de mercado da Serie A naquela época era tão grande quanto a da Premier League, e grande parte dos melhores jogadores do mundo se distribuíam pelo país, também disputando a Serie B. No entanto, a inexistência da Lei Bosman até 1995 limitava a contratação de jogadores estrangeiros. A debandada rumo à Itália podia ser melhor controlada. Desta vez, os limites aos ingleses são bem mais amplos, ainda que os grandes de outros países também tenham poder para competir no resto do mercado europeu. Não será surpreendente, no entanto, se a bandeira de uma liga supranacional europeia, que esteve em alta em meados dos anos 2000, volte a ser empunhada por alguns dirigentes.

No atual cenário, a tendência é que os pequenos ingleses consigam montar elencos tão fortes quanto os médios dos outros países. O Leicester poderá estar acima do Sevilla ou o Swansea contar com tantos talentos quanto o Schalke 04. Logicamente, a capacidade de revelar ou garimpar jovens promessas não dá para ser comprada. Mas, enquanto as outras ligas se desenvolvem ainda mais como celeiros, a Premier League terá poder de contratar esses jogadores.

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Mesmo que o Saint-Étienne peça a intervenção da Uefa, é difícil imaginar que o Fair Play Financeiro limitaria de alguma forma os ingleses. A questão maior está na forma como as economias dos outros países (em especial, da Alemanha, a mais forte da Europa) competiriam nesta situação. Ou como a própria Inglaterra lidará com a bolha.

Afinal, não dá para esperar que o dinheiro da Sky cresça sempre, e em ritmo tão acelerado. Difícil imaginar a quebra dessa indústria, mas uma hora a máquina tende a parar de funcionar. Além disso, o próprio desnível no Campeonato Inglês pode gerar uma pressão interna. Clubes das divisões inferiores ganham bem menos dinheiro, e os que caem da Premier League ainda seguem com um dinheiro de TV superior para não sentirem tanto o baque. A falta de equilíbrio também deve pesar na própria Inglaterra, e aí é que se encontra a chave sobre o futuro. Agora, o máximo que é possível fazer são as previsões. O mercado move por si, nem que seja para o precipício.

O aumento do dinheiro da Premier League desde sua criação:

PL