Direitos de TV da Premier League crescem mais, mas isso não é necessariamente uma boa notícia

A Premier League é o campeonato nacionais de mais prestígio no mundo e os valores pagos pela Sky Sports e BT Sport pelos direitos de transmissão as começar da temporada 2016/17 até 2018/19 evidenciam isso. As duas emissoras pagarão a bagatela de £ 5,136 bilhões (€ 6,9 bilhões), o que tornará não só os grandes clubes do país mais ricos. Tonará até mesmo os pequenos ricos. É uma boa notícia, então, para os clubes? Sim, para eles, certamente sim. Para os torcedores? Nem tanto. Para o futebol europeu e mundial? Menos ainda. As preocupações em relação ao que o aumento do valor pode trazer não são poucas.

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O valor do acordo

O valor total do acordo é de £ 5,136 bilhões (€ 6,9 bilhões), sendo que a Sky Sports, empresa ligado ao milionário Rupert Murdoch, pagará £ 4,18 bilhões (€ 5,6 bilhões) para transmitir 126 jogos ao vivo por temporada. São 10 jogos a mais que o atual acordo, que se encerra em 2016. O valor pago pela emissora aumentou 83%. A Sky Sports terá todos os horários dos jogos, exceto o sábado às 17h30 (horário local) e os feriados bancários.

Já a BT Sport pagará £ 960 milhões (€ 1,293 bilhão) por 42 jogos ao vivo por temporada (quatro a mais que o atual acordo), um valor significativamente maior do que o atual, £ 738 milhões (€ 994 milhões). Isso falando só dos jogos ao vivo. A BBC comprou os direitos dos melhores momentos para manter o seu programa mais importante do futebol, o Match Day. O valor pago foi de £ 204 milhões (€ 274,9 milhões).

O valor é o mais alto de uma liga de futebol no mundo, mas ainda perde quando falamos em uma liga nacional de qualquer esporte. A NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, tem um contrato de US$ 7 bilhões (€ 6,1 bilhões) por ano. É pouca coisa menor que o valor total da Premier League por três temporadas, sendo que é um campeonato que dura só seis meses do ano, de agosto ao início de fevereiro.

A distribuição na base da pirâmide

Segundo a Premier League, há planos para investir £ 56 (€ 75 milhões) milhões em projetos de base do futebol, o que inclui não só as categorias de base, mas projetos para melhorias das ligas menores, incluindo até custos operacionais. Esse valor, perto dos bilhões que entrarão nos cofres, parece insuficiente para que o esporte do país se desenvolva além dos limites da primeira divisão.

“Este contrato dá um grau de certeza que os clubes podem continuar a investir e se operar de forma sustentável; também nos permite começar a planejar como a Premier League pode continuar a dar suporte ao resto da pirâmide do futebol desde a base ao topo”, afirmou o executivo-chefe da Premier League, Richard Scudamore. A afirmação faz sentido, mas o investimento ainda é baixo.

Com tanto dinheiro entrando nos cofres da Premier League, os ingleses estão preocupados com a base da pirâmide. A diferença dos times que sobem da Championship (a segunda divisão) para a Premier League já é grande e tende a aumentar. Os “pagamentos paraquedas”, pagos aos clubes rebaixados, tendem a não ser suficientes – até porque são bem questionáveis, uma vez que beneficiam os clubes que vêm da divisão principal.

É preciso pensar em um sistema de distribuição de renda para as divisões inferiores. Não só a Championship, mas também a League One (terceira divisão) e a League Two (quarta), todas comandadas pela Football League. E também em um investimento de base que beneficie os times das chamadas Conferences, da quinta divisão para baixo. Como os ingleses do Guardian estão dizendo, este é um elefante que está na sala e não pode mais ser ignorado.

Há mercado para tanto?

Com o acordo, cada jogo custará uma média de £ 10,2 milhões (€ 13,7 milhões) às emissoras. Um custo altíssimo pensando apenas no mercado do Reino Unido. Os custos aumentam, o que deve fazer com que o preço para se ter os jogos ao vivo também aumente – Sky Sports e BT Sport são canais esportivos por assinatura. Ou seja: ver os jogos do campeonato nacional na sua casa, no conforto do seu lar, deve sair uma brincadeira ainda mais cara do que já é atualmente. Uma preocupação e um problema que os ingleses temem, com razão.

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Preço dos ingressos

Entre os muitos comentários depois do anúncio do novo contrato, um dos grandes pontos tocados foi o preço dos ingressos. Afinal, se o valor arrecadado aumentou tanto, os clubes não podem diminuir o valor para tornar o futebol mais acessível? Em tese, sim. Foi o que pediu o ex-jogador e atual comentarista Gary Lineker.

O problema é que a Premier League já tem uma das maiores médias de público do mundo. Na temporada 2013/14, com 36.691 pessoas por partida e taxa de ocupação de 97,5% – menor apenas que a Bundesliga, que tem média de público de 43.173 pessoas por jogo e taxa de ocupação de 97,7%. Como diminuir os preços se os clubes sabem que há uma demanda enorme por ingressos? Clubes como Tottenham e Liverpool, por exemplo, estão tocando projetos de expansão de seus estádios e têm filas de espera para adquirir carnês de temporada.

A questão do preço dos ingressos é séria no país e precisará ser tratada como uma política, e não apenas como uma fonte de receita. Os clubes terão que abrir mão de um potencial lucro para tornar os ingressos acessíveis. Será que os clubes estão preparados para isso? Mais do que preparados, dispostos? É uma questão a ser vista na prática.

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Diferença para as outras ligas

É claro que ter uma liga rica é ótimo para qualquer país, em tese. Mas e para o futebol onde ele está inserido? Na Europa, o poder dos ingleses tende a aumentar mais. A questão não é quem vai ganhar a Champions League ou o estabelecimento de um domínio de um país, porque a natureza do futebol acaba trazendo surpresas. Mas o poder financeiro dos ingleses pode começar a exercer uma influência que significa tirar mais e mais jogadores das outras ligas, mesmo de times grandes.

O valor total gasto pelas televisões pela Premier League é impressionante se compararmos com o que clubes grandes de outras ligas arrecadaram na temporada 2013/14. A Juventus, por exemplo, que foi quem mais lucrou na Serie A, recebeu € 94 milhões. O Bayern de Munique, na Alemanha, arrecadou um total de € 36,9 milhões. O Paris Saint-Germain, na França, € 44,6 milhões. O valor também é bastante superior ao que arrecadaram Valencia (€ 48 milhões) e Atlético de Madrid (€ 42 milhões).

A diferença para esses valores, além da diferença de distribuição (a Bundesliga é quem mais distribui entre as grandes ligas), é o valor total pago pelos direitos de transmissão. A Serie A tem valor total de € 846,1 milhões; a Bundesliga € 495 milhões, a Ligue 1, € 487,4 milhões. La Liga, na Espanha, tem um valor total de € 755 milhões. A Premier League, nesta mesma temporada, teve valor total de € 1,875 bilhão. Com a renovação, que vale a partir de 2016, a diferença ficará maior.

No mais recente relatório sobre os clubes que mais arrecadam no mundo, publicado pela Deloitte, 14 dos 30 clubes que mais arrecadaram foram ingleses. “Burnley é maior economicamente que o Ajax, o que diz muito sobre como a nossa liga é feita”, disse Scudamore. A previsão é que os que menos recebem na liga fiquem com £ 99 milhões (€ 133 milhões) anuais dos € 6,9 bilhões. A Premier League já é a liga mais famosa do mundo, mas está perto de se tornar uma liga cheia de estrelas mesmo nos times menores. Em parte, isso já tem acontecido. Cria uma perspectiva que antes parecia impossível: de criar uma liga como a da Itália nos anos 1980 e 1990, que tinha estrelas internacionais em times médios ou pequenos.

O aumento de 70% no valor dos direitos de transmissão da Premier League evidentemente é uma boa notícia para os clubes, mas não quer dizer que só haja flores. Assim como os valores, as preocupações sobre o que isso vai gerar são crescentes. Afinal, basta lembrar: no Reino Unido, os clubes são empresas e se a bolha explodir, clubes podem quebrar. Já vimos acontecer com o Leeds e o Portsmouth, por exemplo.


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