Dino Zoff, 75 anos: Do silêncio, o goleiro “ultrapassado” se eternizou como lenda

Um dos maiores goleiros da história, ídolo de Napoli e Juventus, completou 75 anos nesta terça

A Copa de 1982 eternizou a lenda. Aos 40 anos, não havia como questionar Dino Zoff. A importância do capitão se estendeu em diferentes âmbitos na conquista do tricampeonato mundial. Era o líder óbvio da Itália de Enzo Bearzot. A referência técnica. O homem com quatro Mundiais nas costas. O veterano que já havia lidado com as mais diferentes situações ao longo da carreira. E, claro, o goleiro capaz de operar milagres. Assim o fez. A taça entregue em suas mãos no Estádio Santiago Bernabéu serviu de resposta. Uma imagem que valeu por todo o silêncio do arqueiro nos anos anteriores. Uma imagem para sempre, de um dos maiores da história do futebol italiano.

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Para entender a personalidade de Zoff, é preciso retornar a sua infância. O garoto crescido em uma fazenda no interior da Itália nunca se deslumbrou com a bola, por mais que sonhasse com ela. A família, com razão, não deixava. Os pais, Mario e Anna, exigiam que o filho priorizasse os estudos. Só então poderia se divertir sob as traves. Desta maneira, Dino deu duro desde sempre. Ajudava o pai na roça, estudava. Durante a adolescência, pegava a estrada todos os dias de bicicleta, para trabalhar em uma oficina. Tinha talento com os motores e poderia ter sido um ótimo mecânico. Mas a habilidade no futebol, distração nas horas vagas, falou mais alto. Tornou-se um excepcional goleiro.

O arqueiro da Marianese, time de sua cidade natal, ainda tentou a sorte nos grandes durante as categorias de base. Passou por testes na Internazionale e na Juventus. Mas não agradou. Faltava altura para se tornar profissional na posição. As portas fechadas não fizeram Zoff desistir. Neste intervalo, ele cresceu – tanto fisicamente quanto psicologicamente. Ganhou uma oportunidade na Udinese. E, aos 19 anos, disputou sua primeira partida pela Serie A, contra a Fiorentina. A passagem pelos friulani, porém, não foi boa. O time acabou rebaixado e as falhas do jovem pesavam. Duas temporadas depois, se transferiu ao Mantova. Por lá, viveu anos fantásticos. Amadureceu. A ponto de atrair o interesse do multicampeão Milan, mas preferir se mudar ao sul da Itália, contratado pelo Napoli.

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No Estádio San Paolo, Zoff começou a ser reconhecido como um dos melhores goleiros do país. Ganhou suas primeiras convocações à seleção em 1968. E, aqui, mais um prólogo importante para entender a sua personalidade. A estreia como titular surgiu em uma fogueira imensa. Enrico Albertosi falhara no jogo de ida das quartas de final da Eurocopa, vencido pela Bulgária por 3 a 2. O novato ganhou a oportunidade duas semanas depois, no reencontro em Nápoles, que valeria a classificação à fase final do torneio continental. Fechou o gol e os azzurri ganharam por 2 a 0. A própria Itália acabou escolhida como sede da etapa decisiva. Com Zoff na meta, o time treinado por Ferruccio Valcareggi derrotou União Soviética e Iugoslávia, ficando com a taça inédita, ainda única na história da seleção.

Ao longo dos anos, Zoff sempre se caracterizou como um goleiro frio, seguro e ótimo nos fundamentos. E a sua frieza seria necessária em vários momentos na sequência de sua trajetória pela seleção. Na Copa de 1970, acabou preterido no time titular de maneira um tanto quanto inexplicável por Albertosi, um goleiro oposto em características e personalidade. Não se abalou. Após o vice-campeonato, Dino tornou-se praticamente intocável na meta azzurra. O talento se complementava com a ótima fase na Juventus, para a qual se transferiu em 1972. Em um timaço bianconero, quebrava recordes de invencibilidade. Realizava defesas antológicas. Conquistou o primeiro scudetto em 1973, além de ter sido vice da Copa dos Campeões na mesma temporada, derrotado pelo Ajax de Cruyff.

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Em 1974, Zoff disputou a sua segunda Copa do Mundo, a primeira como titular. Estava voando baixo. Quando desembarcou na Alemanha Ocidental, acumulava 12 partidas sem sofrer gols, incluindo neste período atuações marcantes contra Inglaterra e Brasil. Era apontado como um dos protagonistas do Mundial. Porém, o gol sofrido na vitória para o Haiti na estreia, em virada por 3 a 1, encerrou o recorde e o encanto. Com o elenco rachado, os italianos foram eliminados ainda na primeira fase.

O fracasso não afetou a reputação de Zoff. Continuava empilhando taças com a Juventus, incluindo a Copa da Uefa em 1977. Continuava absoluto na meta da seleção. Até a terceira chance no Mundial. Aquela que parecia marcar em definitivo a relação negativa do goleiro com a competição. Desta vez, a Itália chegou longe. Caiu para a Holanda na chave semifinal e perdeu a decisão do terceiro lugar para o Brasil. Entretanto, para a imprensa italiana, o tetra poderia ter acontecido, não fosse o arqueiro de 36 anos. Muitos botaram culpa em sua idade pelos gols de longa distância que sofreu – quatro, de Haan, Brandts, Nelinho e Dirceu. Diziam que estava ultrapassado. Diziam que era hora de dar espaço aos mais jovens. Não só na equipe nacional, mas também na Velha Senhora.

Então, a frieza de Zoff se fez mais necessária do que nunca. E o silêncio. Seu desejo era responder. Mas não com palavras, e sim em campo. Passou mais de um ano sem falar com a imprensa. “Comecei o silêncio porque nunca tive o caráter aberto, preferindo a solidão às palavras vazias. Depois, em certo ponto, comecei a me cansar das pessoas ambiciosas, que tentavam me menosprezar. Pessoas que não dizem nada sério, criticando sem conhecer. Consequentemente, decidi não falar mais. Contestava um sistema hipócrita e falso, que tentava se passar por honesto. E te garanto que sempre fui gentil e disposto com as pessoas, mas certas coisas têm limites. Com meu protesto, quis mostrar algo. Não falava por medo das histórias inventadas. Quantas vezes fui deturpado pelos jornais, pensei. Era justo? Ficando quieto, eu evitei problemas. Sou só um profissional que sempre tenta fazer o seu melhor. Um homem, acima de tudo, que busca a verdade, não a mentira”, declarou, em 1979.

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Após quebrar o silêncio, Zoff mudou a sua postura. Passou a ser mais aberto, assumindo a linha de frente. Seu sucesso na Juventus era incontestável, liderando um novo grande time, bicampeão nacional em 1981 e 1982. Grande fase que se complementou na seleção. O goleiro foi um dos grandes responsáveis pela classificação à Copa do Mundo, especialmente nos duelos com a Iugoslávia, pelas Eliminatórias. Já na Espanha, sua liderança valeu muito, em tempos conturbados para o time de Enzo Bearzot, envolto por críticas. Durante a primeira fase, quando o time não vinha bem, todos também resolveram fazer greve de silêncio com a imprensa local. A união preponderou. E os azzurri deslancharam rumo a conquista do tricampeonato.

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Zoff, sobretudo, brilhou em um momento em especial. No jogo decisivo contra o Brasil, que valia vaga na semifinal, ele voou para defender em cima da linha um arremate de Oscar. Aquela bola poderia ter classificado o time de Telê Santana, com o empate por 3 a 3. Parou nas mãos seguras do goleiro. “Eu estava com medo. Um medo tremendo. Um episódio de dez anos antes apareceu na minha mente. Nós jogávamos contra a Romênia. Eu fiz uma defesa em cima da linha e o árbitro marcou o gol. Então, contra o Brasil, enquanto eu estava caído no chão com a bola, eu revi toda a cena e temi que se repetisse”. Apenas um devaneio. A Itália eliminaria os favoritos, antes de passar pela Polônia e enfrentar a Alemanha Ocidental na decisão. Uma atuação perfeita dos comandados de Enzo Bearzot.

“Quem nunca viveu um sucesso esportivo dificilmente pode entender o que se sente em certos momentos. Só o esporte pode te dar sensações tão fortes. Nenhuma outra vitória se compara com o Mundial, porque aconteceu em tantas condições particulares: eu tinha uma idade avançada, portava a braçadeira, estava em um time que cresceu de maneira entusiasmante. Para mim, foi verdadeiramente a consagração de toda uma carreira”. A imagem com a taça nas mãos ficou, mas a história não parou por aí. Zoff ainda disputaria mais uma temporada. Pela Juventus, conquistou a Copa da Itália e foi vice da Champions, derrotado pelo Hamburgo. Já o último jogo com a seleção aconteceu em maio de 1983, pelas eliminatórias da Euro. O último de seus 112, que ainda o mantém como o quinto que mais vestiu a camisa azzurra.

Luvas penduradas, Zoff ainda seria campeão da Copa da Uefa e da Copa da Itália como técnico da Juventus, além de ter sido vice da Eurocopa em 2000, no comando da seleção. Passou as últimas três décadas reverenciado como um dos maiores goleiros da história. E, ainda assim, humilde o suficiente para exaltar os seus sucessores. Admitiu que Gianluigi Buffon o superou. Nos últimos dias, declarou até que Gianluigi Donnarumma tem mais qualidades. Caráter e verdade sempre foram as chaves de seu sucesso. Por isso mesmo, ao completar 75 anos nesta terça, permanece tão reverenciado. O trabalho intenso ficou, ao contrário das palavras ao vento em seus tropeços.