Grana ou independência? Levante negou milhões de americano para seguir dono do próprio destino

Clube espanhol recusou a proposta de compra de 70% de suas ações por um banqueiro americano, dono do Phoenix Suns

O futebol está cheio de aventureiros. Magnatas que se dispõem em tornar um clube o seu brinquedo real, investindo muito dinheiro. Transformar a paixão de uma torcida e a tradição de uma região em seu Football Manager da vida real. Iniciativas que podem muito certo, como o próprio exemplo do Chelsea, mas que quase sempre terminam à mercê do humor destes ricaços. A bonança pode durar apenas poucos anos, deixando um futuro nebuloso. Aconteceu de maneira pesada com o Málaga, que viveu um sonho fugaz, ou com o Monaco, que tem contornado bem a crise. E, diante da possibilidade, o Levante preferiu manter as rédeas de seu próprio destino. Seguir como um negócio humilde, mas com os pés no chão.

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Durante os últimos meses, o clube espanhol tinha uma proposta tentadora. Robert Sarver é um banqueiro e empresário americano cujas propriedades estão avaliadas em centenas de bilhões de dólares. E não é exatamente um aventureiro de primeira viagem. Em 2004, ele desembolsou US$ 400 milhões para comprar o Phoenix Suns, franquia da NBA. Logo em seus primeiros anos, inclusive, o time de Arizona viveu alguns dos melhores momentos de sua história, chegando às finais da Conferência Oeste e emplacando Steve Nash como MVP. Só que nas últimas temporadas os resultados dos Suns não têm sido muito bons. E então Sarver passou a se interessar mais por futebol.

Em janeiro, o americano tentou por duas vezes se tornar acionista majoritário do Rangers. As propostas, no entanto, acabaram recusadas pelos escoceses, que querem evitar riscos e estão mesmo determinados a deixar o clube nas mãos de seus torcedores. Já a partir de junho é que Sarver se voltou ao Levantes, quase triplicando o montante prometido anteriormente ao Rangers. Ele viajou várias vezes a Valencia entre junho e julho, prometendo injetar € 56 milhões para comprar 70% das ações. Pagaria as dívidas do clube com metade deste valor e o resto investiria no elenco. Além disso, a médio prazo, também planejava modernizar o estádio Ciutat de València, transformando-o também como centro de lazer além dos jogos aos torcedores.

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O Levante, porém, não se seduziu pelas ideias de Sarver. A fundação que é proprietária do clube não quis ser refém do dinheiro do banqueiro. Até iniciou as negociações, defendendo pontos importantes como a cláusula que impedia a mudança de cidade e de símbolos, bem como a opção de recompra pelos próprios torcedores. Mas, no fim das contas, preferiram escrever o seu próprio destino, modesto, mas bem menos incerto. O objetivo é se manter na primeira divisão do Campeonato Espanhol gastando pouco e realizando um trabalho consistente. Nos últimos anos, o sucesso na missão foi tão grande que os granotas se classificaram para a Liga Europa em 2011/12. Mais um prêmio do que um ideal, consequência do que estava sendo bem feito internamente.

Aliás, a segurança financeira do Levante é tanta atualmente que, para 2015/16, o clube até mudou sua política de transferências. Antes acostumado a caçar jogadores a custo zero, desta vez se deu ao luxo de gastar € 1,8 milhões na contratação do atacante Deyverson, do Belenenses. Entre os outros destaques do elenco estão o argelino Ghilas e o zagueiro Juanfran. Nomes que não saltam aos olhos, mas mantém as contas do clube sustentáveis.

O Levante sabe o preço de uma crise. Em 2008, o clube atrasou salários e sofreu com as ameaças de greve dos jogadores, além de correr o risco de ser rebaixado à terceira divisão justamente por questões administrativas. A transformação veio com a saída de Pedro Villarroel, acionista majoritário por mais de uma década, e a compra por uma fundação organizada por torcedores notáveis e dirigentes acostumados ao cotidiano do clube.

A presidência passou a Quico Catalán, que tinha 33 anos quando assumiu o cargo e experiência administrativa apenas no próprio Levante, mas conseguiu contornar os problemas. Bem relacionado na política da Comunidade Valenciana, ganhou a confiança dos credores e reduziu a dívida pública de € 90 milhões para € 30 milhões, afastando os atrasos e os riscos de queda. Os salários começaram a ser pagos em dia, com as contratações sem sobressaltos. E os reflexos de tudo isso vieram em campo, com a conquista do acesso logo em seu primeiro ano no cargo e no período mais duradouro do clube na primeira divisão.

Dentro do futebol espanhol especialmente, onde as dívidas públicas costumam ser enormes e acabam matando os clubes, o exemplo do Levante é importante. Controlando os seus gastos, os granotas passam longe da situação do Elche, por exemplo, que acabou na segundona por causa de suas dívidas. Embora também estejam distantes de competir com seus maiores rivais, o Valencia, que deu um salto desde a última temporada justamente por conta da chegada de um ricaço, o cingapuriano Peter Lim. Mas, enquanto os Ches permanecem à mercê do asiático, os vizinhos se sentem bem mais seguros de si na situação atual. Para quem correu o risco até de se tornar amador não faz muito tempo, a recusa dos milhões é bastante compreensível.