A eleição passou, Dilma Rousseff foi reeleita presidente do Brasil e terá mais quatro anos de mandato, de 2015 a 2018. Terá mais uma chance de lidar com diversas questões, como a econômica, uma das áreas mais questionadas do seu governo, além de outras tantas. Uma delas é o esporte – o Brasil terá as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro – e tem que gerir o legado da Copa do Mundo realizada em 2014, para que o dinheiro gasto tenha tido uma razão. Uma das questões dentro da área esportiva é o futebol e a CBF, algo que a presidente já teve que lidar nos seus primeiros quatro anos de mandato, até por causa da Copa do Mundo que o Brasil organizou, mas que pouco fez para avançar. Ela tem mais quatro anos para dar os passos necessários a exigir mudanças. E tem uma oportunidade que muitos governos desperdiçaram. Como em tantas áreas do governo, há muito trabalho a fazer. Um bom caminho para começar é mudar a relação com a CBF, a entidade máxima do futebol. O governo tem poder e influencia para fazer com que o futebol seja mais rentável, do ponto de vista do próprio governo, como indústria que paga impostos e gera dividendos, e como cultura nacional, pela importância que o futebol tem.

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Dilma Roussef nunca foi muito próxima da CBF. Desde que assumiu o governo, em 2011, Dilma manteve uma distância estratégica dos chefões do futebol brasileiro, o que parecia ser uma postura claramente contrária à entidade e ao seu modo de operação. Nunca se reuniu com Ricardo Teixeira enquanto este esteve no cargo. Ele saiu da presidência da CBF, em março de 2012, sem ter diálogo com a presidente. José Maria Marin também não teve apoio da presidente do país, mas, ao contrário de Teixeira, se encontrou com Dilma. Ela esteve com Marin na abertura da Copa das Confederações, em 2013, e também na Copa do Mundo, em 2014 – na abertura e na final. Nos dois encontros, a presidente foi protocolar e não quis estreitar laços.

Na Copa das Confederações, Dilma esteve presente à abertura, em Brasília. Foi clicada junto com Marin, sorrindo. A foto de Ricardo Stuckbert, causou constrangimento na estadista.

A equipe de Dilma afirma que a presidente, vítima de tortura no regime militar, ficou extremamente constrangida ao assistir à partida ao lado do dirigente. Em sua época de deputado, o presidente do COL (Comitê Organizador Local) e da CBF elogiou Sérgio Fleury, considerado um dos principais torturadores do período da ditadura.

Tal constrangimento teria feito com que Dilma mantivesse a decisão de conservar a maior distância possível do cartola, encontrando-se com ele apenas quando for inevitável, como na abertura da Copa das Confederações, no último sábado, em Brasilia.

Por sua vez, funcionários da CBF comemoraram a foto e até as vaias direcionadas para Dilma antes do jogo. “O Marin fez dois gols. Foi pé quente assistindo à vitória da seleção e ouvindo as vaias para ela”, disse à reportagem um dos integrantes do estafe do presidente, que pediu para não ser identificado.
(‘Foto da paz’ de Dilma e Marin aumenta crise entre Governo e CBF, UOL, 17/06/2013)

O site “Muda Mais”, que é ligado à campanha de Dilma à reeleição, publicou um texto com severas críticas à CBF. O texto é uma porrada desde o título: “Teixeira, Marin, a CBF e a necessidade de modernizar nosso futebol”. E as críticas são à instituição, mas também àquelas pessoas que a comandam e a comandaram. Logo no segundo parágrafo, o texto critica Ricardo Teixeira e José Maria Marin de uma só vez. E diz que a CBF e o futebol brasileiro precisam mudar mais:

Por infindáveis 23 anos, a CBF esteve nas mãos de Ricardo Teixeira, ex-genro de João Havelange, que coordenou por 17 anos a Confederação e por outros 24 a FIFA. Depois disso, passou, em 2012, para o comando de José Maria Marin. Marin foi deputado estadual pela ARENA e em 1975 proferiu um discurso contra a TV Cultura, que por muitos é visto como um dos desencadeadores da morte de Vladimir Herzog, ex-diretor de telejornalismo da Cultura, encontrado morto 16 dias depois. Depois disso, Marin ainda foi governador biônico do estado de São Paulo, em 1982. Ah, e bem depois, quando era vice-presidente da CBF, furtou uma medalha na premiação da Copa São Paulo de Futebol Júnior.

O texto faz ainda mais crítica à João Havelange e sua relação de proximidade com a ditadura militar, fala sobre a CPI da CBF-Nike, que investigava o contrato da marca esportiva americana com a entidade e termina falando em modernizar e organizar o futebol, citando, como bom exemplo, o Bom Senso FC. As críticas causaram impacto mesmo dentro da campanha de Dilma. A própria presidente e o seu coordenador de campanha na internet, Franklin Martins, teriam discutido por conta do teor das críticas. A presidente, agora reeleita, teria pedido que o texto fosse tirado do ar, por achar o tom da crítica pesado demais. O texto não saiu do ar.

Se o contato com a CBF nunca foi apreciado por Dilma, ela fez questão de ouvir o que o movimento Bom Senso FC tinha a dizer. Reuniu-se duas vezes com os integrantes, em maio e em julho de 2014 – antes e depois da Copa do Mundo, portanto. Nas duas, ouviu as propostas e teve uma reação positiva do Bom Senso. É um começo, mas há muito mais a fazer. O futebol desemprega milhares de jogadores pelo Brasil porque a grande maioria dos times vive de campeonatos curtos, de poucos meses, enquanto os grandes times jogam em um calendário inchado. O futebol pode gerar empregos, o que é sempre uma alavanca para todo governo e, por isso, tem tudo para interessar. Também é uma questão social: é preciso tratar de um problema que assola a maioria dos trabalhadores do futebol, que ganham salários baixos e ficam desempregados por muito tempo. O Brasil é um país tão grande que pode gerar muitas potências locais, com campeonatos locais que tenham sustentação. Mas isso não surge do dia para a noite, é preciso trabalhar para isso.

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Mas e aí, o que fazer?

Na primeira reunião com o Bom Senso, a presidente se comprometeu com quatro pontos principais, segundo relatados pelo próprio movimento: auxiliar no fortalecimento da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte — LRFE (em tramitação na câmara), uma questão, aliás, que ainda trataremos por aqui; apoiar medidas que garantam a democratização da Estrutura Política do Esporte; apoiar medidas preventivas e punitivas que garantam maior segurança nos estádios; criação de Grupo de Trabalho para desenvolvimento de um Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol. Todas medidas muito importantes para tudo que já citamos.

A CBF é a gestora do futebol brasileiro e dos campeonatos nacionais daqui. É ela que determinada quase tudo relacionado ao futebol nacional. Nós sabemos que a CBF precisa de mudanças, mas que é uma entidade privada e, por isso, deve ser respeitada nesse sentido. Mas nós, na Trivela, acreditamos sim que o governo tem um papel importante a executar em relação ao principal entidade de futebol do Brasil. E tem trunfos para isso. Não faz sentido cobrar uma intervenção estatal, como o atrapalhado Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, chegou a, digamos, dar a entender que era a favor. A CBF é privada e faz questão de manter o governo longe desde que Ricardo Teixeira assumiu – claro, não quer ser fiscalizado. Isso quer dizer que o governo não tem nada o que fazer para melhorar o futebol brasileiro? Não, não quer dizer. O governo tem muito que pode fazer para agir em favor do futebol brasileiro e, inclusive, tem um grande trunfo para fazer isso: é o principal credor de grande parte dos clubes.

Isso significa que o governo não precisa ser intervencionista para promover mudanças no futebol. Mas precisará mudar a sua relação com a CBF. E o governo já sabe que essa é uma missão difícil, porque a força política da CBF é intensa, inclusive com deputados do próprio PT e da bancada governista defendendo interesses da entidade. Por outro lado, há quem possa se tornar séria opositor da CBF e usar do seu capital político para fazer força por isso. Romário, por exemplo. Foi o senador mais bem votado da história do Rio de Janeiro, ganhou força por sua atuação como parlamentar e, bom prestígio é o que não falta ao baixinho desde os tempos de jogador. E já mostrou ser contrário à gestão da CBF de forma contundente.

Como já falamos por aqui, o governo precisa renegociar as dívidas dos clubes, porque é uma questão de sobrevivência. Ou renegocia, ou os clubes não terão condição de pagar. É ponto pacífico que a negociação precisa acontecer; a questão é quais serão os termos exigidos. Um deles deve ser exigir que os clubes façam da CBF uma entidade mais transparente e democrática. Mas esse é só um lado. A relação com a CBF deve ser pautada pelas mudanças que o futebol precisa e Dilma, e o seu governo, tem obrigação de falar grosso com a entidade que, atualmente, faz do futebol um esporte deficitário, ao invés de uma indústria produtiva.

A sinalização de Dilma durante o seu primeiro mandato foi de uma relação mais dura com a CBF, mas isso nunca se concretizou. Na campanha, novamente a presidente colocou em termos duros as suas críticas à CBF. Resta saber se, agora, reeleita, ela fará as mudanças que são necessárias. O futebol não é uma prioridade do governo de Dilma, como nunca deveria ser em governo algum. Mas é uma questão que precisa, sim ser tratada, e há uma chance história para isso. Nos países onde há os melhores exemplos, o futebol de tornou um forte setor de geração de emprego e riqueza. Basta lembrar, por exemplo, da Inglaterra, onde os impostos são altos para quem tem renda alta como os jogadores de elite do futebol do país, um campeonato que gera atração e dinheiro para TVs do mundo todo. O futebol no Brasil tem potencial e força para isso. Mas é preciso lidar com a CBF e seus cartolas que parecem não ver o que é óbvio para candidatos da situação e da oposição ao governo federal. Passou da hora de agir. Dilma Rousseff tem a pauta de mudança, incluindo um dos motes da sua campanha, o “Muda Mais”. Tá na hora de fazer o futebol mudar mais. Como a campanha chamou, em todos os lados.