Diego Simeone é a face inescapável da revolução atravessada pelo Atlético de Madrid ao longo desta década. O treinador chegou em um momento de dúvidas no clube e resgatou o seu espírito para empilhar taças logo nos primeiros meses. No entanto, se for para escolher um jogador que simbolize o período vitorioso dos colchoneros, é difícil encontrar alguém que supere Diego Godín. Entre a sua liderança e a sua excelência, o uruguaio ajudou a elevar as ambições do Atleti. Deu seu sangue em campo (por vezes, literalmente, inclusive os dentes) e foi o coração de uma das melhores defesas da década. Mais do que isso, ainda anotou gols importantes, sobretudo o que valeu o título do Campeonato Espanhol em 2013/14. O adeus de Godín, já esperado, mas confirmado nesta terça-feira, representa uma página virada no Wanda Metropolitano. Uma página cheia de histórias grandiosas e orgulho pelo que se construiu.

O Godín impassível e raçudo dentro de campo, desta vez, sucumbiu na sala de imprensa. Diante dos microfones, o zagueiraço não conteve as lágrimas ao anunciar que o seu ciclo no Atlético chegou ao fim: “Estou nervoso, mais do que em uma partida. Quero agradecer a presença de todos. Precisava de vocês aqui, são meus últimos dias com o Atlético e queria comunicar isso da minha boca, em primeira pessoa, pelo carinho que tenho a esse clube e a esse escudo. Sou um torcedor a mais pelo carinho que me deram. Não é um clube, é uma família, uma forma de viver, minha casa. Por isso, é difícil me despedir. Quero agradecer e recordar os momentos vividos. Foram maravilhosos”.

O coração que pulsa dentro de Godín é expresso em seus atos em campo. O zagueiro que não desiste das jogadas, que parece sempre pronto a um sacrifício a mais, que valoriza a camisa. A liderança do uruguaio, além do mais, é algo que não se limita às quatro linhas. Ela se escancara em seus atos, desde a amizade com os companheiros à luta por condições melhores de trabalho aos seus colegas de profissão. Ainda assim, o Godín emotivo e de belas palavras não é conhecido do grande público. Outro exemplo de seu caráter, pelo sentimento despejado durante o anúncio do adeus.

“Aproveitei e cresci muitíssimo, sobretudo como pessoa. Aqui, me educaram com os melhores valores e são os que eu tentei transmitir: humildade, sacrifício, trabalho e principalmente respeito – ao companheiro, ao rival, à profissão e a todos que circundam este esporte. Não imaginam o que significa ver todos vocês, que viveram o dia a dia comigo, aqui nesta sala. Tudo deu certo dentro e fora de campo. Obrigado a todos”, complementou.”Sou o capitão desta equipe, tenho muitos anos, conversamos mil vezes, nos reunimos com o clube. Está claro que chegamos a um acordo no final e aí está. Para mim, se encerra uma etapa, um ciclo, o mais bonito da minha carreira esportiva e da minha vida também. Estou orgulhoso por ter formado parte desta fase tão bonita, de contribuir para esta história grandiosa e sou agradecido a todos, desde o minuto em que cheguei até os últimos dias que me restam”.

Godín deve ser anunciado como reforço da Internazionale nas próximas semanas. E não se mostrou arrependido por, no início da temporada, ter recusado o Manchester United: “Eu decidi ficar, foi a minha decisão, não me arrependo. Vivemos grandes momentos e não mudou nada. Para mim, o clube sempre esteve em primeiro lugar. Eu me reuni com a diretoria muitas vezes, não vou ser hipócrita, mas não se pode chegar a um acordo e hoje acabo um lindo ciclo, do qual sou orgulhoso. Essa é a vida. Há mudanças e elas são duras, te fazem amadurecer, crescer e ver a vida de outra perspectiva. Não me arrependo de nada, gostaria de jogar até os 40 anos, mas é impossível. Como um torcedor a mais, vou recordar tudo o que vivi e seguir apoiando o time, onde quer que eu esteja”.

“Eu sinto dor por me despedir, mas com a cabeça muito erguida, porque me entreguei de corpo e alma todos os dias por este clube desde que cheguei. Eu vou com o orgulho e a tranquilidade no máximo. Eu tive ofertas, mas fiquei porque sentia e queria assim, não me arrependo de nenhuma decisão. Estou contente e feliz, criei carinho por este clube. Temos que respeitá-lo, sempre falamos para respeitar a instituição. E torço para que o Atlético siga crescendo, levantando títulos e deixando a alma em campo, o que as pessoas querem ver. Essa camisa é minha vida”, apontou Godín.

Durante a coletiva, o presidente Enrique Cerezo tomou a palavra e assinalou algo compartilhado de maneira ampla no Atlético de Madrid: “É um dia muito especial para o Atlético. O clube se junta como uma família não para se despedir de uma lenda, mas para agradecer de coração. Você nos deu tudo vestindo esta camisa. Aqui estão seus pais, sua esposa, seus companheiros e a imprensa que o acompanhou durante estes nove anos. Estamos muito orgulhosos pela maneira como você defendeu o escudo. Ninguém define melhor a coragem e o coração que representa o Atlético do que você. Foi peça-chave na melhor fase do clube, com aquele gol que deu a liga e outros momentos. Enfrentou mil batalhas e esteve nos momentos mais cruéis, mas portou com orgulho a braçadeira. Para onde você for, contaremos com um torcedor a mais. O Atlético é sua família e o Metropolitano é sua casa, digo isso de coração. Você deixa uma tristeza e um vazio enorme. Se dentro de campo é um campeão, fora é um supercampeão”.

Em nove anos de Atlético de Madrid, Godín se aproximou das 400 partidas. Conquistou o Espanhol, a Copa do Rei, dois títulos da Liga Europa e dois da Supercopa Europeia, além de amargar os vices na Champions. O currículo, porém, é insuficiente para traduzir a representatividade do zagueiro. Sua grandeza só conhece quem acompanhou o seu auge, evoluindo no Atleti e se colocando entre os melhores do mundo na posição. Poucos beques foram tão sólidos e tão imponentes ao longo deste ciclo. Além do mais, a idolatria se entende através de sua influência dentro de campo e de sua garra, tão característica. Que os últimos meses tenham guardado uma queda de nível do veterano (justamente após a ótima Copa do Mundo), ainda assim ele protagonizou atuações ímpares, como no épico contra o Athletic Bilbao ou na ida contra a Juventus. Se o final da trajetória não é o mais feliz desportivamente, o é em gratidão e carinho.

Após nove anos, Godín se coloca em uma galeria seleta de ídolos do Atlético de Madrid. Assim como Gabi, Fernando Torres ou Radamel Falcao García, deixa o Metropolitano como uma lenda. E, mesclando simbolismos dos antigos companheiros, sai como um nome inescapável na reinvenção colchonera realizada por Diego Simeone. Tal projeto não seria possível sem o uruguaio. Por isso mesmo, a torcida deve oferecer a melhor despedida no próximo domingo. O encontro com o Sevilla na capital será, na realidade, uma ode ao gigante que encarnou o espírito rojiblanco desde 2010. As lágrimas certamente voltarão a verter sobre o rosto de Godín.