Aos 40 anos, Diego Forlán apenas aproveitava as últimas benesses que o futebol profissional ainda poderia lhe render. Desde a passagem pelo Peñarol entre 2015 e 2016, quando finalmente vestiu a camisa do clube de infância, onde o pai havia sido ídolo, é que o veterano não encarava um grande desafio. Nos últimos três anos, valeu-se da fama para aumentar seu pé de meia, ao jogar na Índia e em Hong Kong. Contudo, não atuava em partidas oficiais desde maio de 2018 e, neste intervalo, serviu-se do tempo livre para concluir um curso de técnico na Argentina. Assim, nesta semana, o uruguaio aproveitou a participação em um programa de televisão para confirmar aquilo que se notava: aposentou-se oficialmente dos gramados, pronto para seguir uma nova trajetória no esporte, agora como treinador.

Forlán não é um craque incontestável, mas fez por merecer a reputação que construiu, como um dos jogadores mais importantes de sua geração. O filho de Pablo Forlán chegou a flertar com o tênis durante a infância, antes de se dedicar ao futebol. E o Independiente foi o primeiro clube que genuinamente viu o talento do garoto. Pelo time de Avellaneda, o atacante surgiu como uma grande promessa e acumulou gols pelo Campeonato Argentino. Estava evidente que havia uma aposta ali e a Premier League surgiu como destino. Depois de duas temporadas e meia se destacando no Rojo, fez as malas para a Europa quando tinha 22 anos.

O Middlesbrough quase acertou a contratação de Forlán. O Manchester United, entretanto, acabou se metendo na jogada e levou o jovem. Uma decisão que acabou se tornando um passo maior do que as pernas. O uruguaio até chegou a disputar sua primeira Copa do Mundo como jogador dos Red Devils, presente com a Celeste em 2002. O problema é que sua progressão em Old Trafford não seguiu o esperado. Até aproximou-se dos 100 jogos pelo time de Sir Alex Ferguson, mas distante do impacto prometido. Teve alguns brilhos, como em um clássico contra o Liverpool no qual anotou dois gols e ganhou música da torcida. Ainda assim, ficou distante de disputar posição com Ruud van Nistelrooy no ataque e caiu no esquecimento quando contrataram Wayne Rooney. Seria o primeiro dos altos e baixos que o atacante encararia em sua jornada.

A melhor decisão da carreira de Forlán, por sua vez, aconteceu pouco depois. Descendente de espanhóis, mudou-se ao Villarreal em 2004. Virou uma das faces principais no momento mais reluzente do clube. Cansou-se de marcar gols, consagrou-se como artilheiro do Campeonato Espanhol, faturou a Chuteira de Ouro – tudo isso logo na primeira temporada. Já na segunda, ao lado de Juan Román Riquelme, ajudaria o Submarino Amarelo a alcançar uma impensável semifinal de Champions League. Inquestionavelmente, era um dos melhores atacantes da Espanha, o que preenchia sua lacuna pela ausência na Copa de 2006 com a Celeste – quando, lesionado, não pôde evitar a derrocada na repescagem contra a Austrália. Já em 2007, o uruguaio aceitou a proposta do Atlético de Madrid.

Em conjunto, os colchoneros também viram o melhor de Forlán. Afinal, a fome de gols do atacante técnico e voraz não se interrompeu naquele momento. Seria importante não apenas para a reconstrução do clube, como também para colocá-lo de volta às glórias. Compondo uma dupla ofensiva inesquecível ao lado de Sergio Agüero, Forlán arrebentou na conquista da Liga Europa em 2010, especialmente na final contra o Fulham. Também seria novamente artilheiro do Espanhol pelo Atleti. Em 2008/09, anotou impressionantes 32 gols em 33 partidas pela Liga, deixando para trás uma concorrência pesada que incluía Samuel Eto’o, David Villa e Lionel Messi. E, ao classificar o Uruguai para a Copa de 2010, tratou o torneio como seu grande objetivo. Chegou a treinar em três turnos para desembarcar na África do Sul na melhor forma. Esforço que logo se notou em campo.

A fase exuberante de Forlán o impulsionou naquele Mundial e realmente marcou o ápice do atacante. O Uruguai sempre será grato por tudo aquilo que o camisa 10 jogou na África do Sul e pela maneira como liderou a Celeste de volta a uma semifinal, fazendo o país redescobrir seu máximo orgulho. Pode-se até discutir os méritos de Forlán ao receber a Bola de Ouro da competição, em corrida parelha com outros craques. Não se nega, porém, que o veterano de 31 anos gastou a bola, grande referência no time de Óscar Tabárez. Foi um verdadeiro líder aos charruas e correspondeu com cinco gols. Marcou definitivamente a sua história.

O melhor de Forlán, por mais pontual que tenha sido, apresentou um atacante completo. Além da capacidade na definição, unia isso também à sua criatividade para auxiliar os companheiros. Não à toa, combinou-se muito bem com outros jogadores de igual qualidade técnica, oferecendo velocidade e senso de posicionamento para transitar além da área. Apto para entrar em diferentes posições da linha de frente, inclusive como armador, deixou sua melhor impressão durante a Copa do Mundo. Estava longe de ser perfeito, mas o seu melhor foi suficiente para colocá-lo entre os grandes ícones da Celeste – algo que somava, ainda, ao seu empenho e sua liderança. Sua influência no futebol uruguaio é imensa, sobretudo por esse instante.

O auge, contudo, culminaria também na queda repentina de Forlán. A Copa América de 2011, recolocando o Uruguai no topo do continente, foi seu último grande ato. Parceiro de Luis Suárez naquela campanha, passaria o bastão ao seu principal sucessor, após sobrar na decisão contra o Paraguai. Mas não que tenha se distanciado da Celeste. O atacante teve tempo de disputar a Copa das Confederações de 2013 e a Copa do Mundo de 2014. Despediu-se da equipe pouco depois, em 2015. Naquele momento, era o recordista em jogos e em gols pela seleção uruguaia, embora tenha sido superado por outros companheiros em ambas as estatísticas.

Já por clubes, o final começou até antes. Forlán não viveu uma boa temporada em seu retorno da Copa de 2010, o que não o impediu de arranjar um contrato com a Internazionale ao deixar o Atlético de Madrid. Ficou a decepção pela apagada estadia em Milão. Também não teve o destaque esperado no Internacional, passando pelo Beira-Rio entre 2012 e 2013. Foi quando optou pelos mercados mais alternativos, parando no Cerezo Osaka. Permaneceu por dois anos no Japão, mesmo depois do rebaixamento de sua equipe.

Em 2015, aos 36 anos, Forlán cumpriu a promessa de defender o Peñarol – seu clube do coração. Ovacionado pela torcida no Centenario logo em sua estreia com a camisa aurinegra, também teve o gosto de marcar o primeiro gol do Estádio Campeón del Siglo durante a partida inaugural contra o River Plate. Se não foi exatamente avassalador, a conquista do Campeonato Uruguaio representa bastante. Até que, sem entrar em acordo com a diretoria, desgarrou-se pelo mundo no segundo semestre de 2016. Vestiu as cores de Mumbai City e Kitchee, e já estava sem atuar desde maio de 2018, quando definiu o fim de sua carreira.

Os anos posteriores à Copa de 2010 e à Copa América de 2011 foram custosos a Forlán. Acabaram manchando um pouco a imagem do atacante pelas expectativas não atendidas, quando já entrava em um momento de declínio físico. Todavia, não podem apagar as temporadas excepcionais que viveu antes disso, sobretudo na Espanha. Alcançou os seus feitos, tornando-se ídolo de dois clubes. E ganhou uma aura de libertador ao Uruguai, por conduzir os desejos antes remotos nas principais competições do futebol internacional. A reafirmação da Celeste como uma potência dependeu muito de Forlán. Foi o talento do atacante que abriu esse caminho. Há uma gratidão que permanece. Seu brilho na África do Sul é uma memória inabalável.