Desde que chegou ao Flamengo, Diego Ribas se transformou em um dos porta-vozes do elenco. A experiência do meia sempre o deixou em evidência, assim como a sua capacidade de comunicação. Em diferentes momentos, o media training não ajudou Diego. Era mais um jogador polido que não reconhecia os problemas vividos pelo clube. No entanto, o camisa 10 merece ser parabenizado pelo que fez além dos gramados após a conquista da Libertadores. Ao relembrar os dez garotos que faleceram no incêndio do Ninho do Urubu, suas palavras ganharam força, diante do mar de gente que tomou as ruas do Rio de Janeiro neste domingo.

Diego fez aquilo que deveria estar na mente dos rubro-negros sempre que possível: resgatar a lembrança sobre o que aconteceu com os meninos. “Eu sei que é um momento de festa, mas eu gostaria de relembrar nossos dez garotos do Ninho, que fazem parte de toda essa conquista. Então vou começar pedindo uma forte salva de palmas para os dez garotos. Depois, eu começo e vocês terminam…”, falou o camisa 10, antes de iniciar a canção da torcida que homenageia os pratas da casa, inspirada em ‘Azul da cor do mar’, de Tim Maia.

Mencionar os dez jovens é, sobretudo, um reconhecimento ao que aconteceu dentro do Flamengo em 8 de fevereiro de 2019. As famílias dos mortos possuem necessidades além da questão financeira – que também deve ser prioritária, claro. Os meninos precisam ser relembrados o máximo de vezes possível, como um sinal perene da dor e do significado que esta tragédia possui à própria identidade do rubro-negro. Como disse o jornalista Mauro Cézar Pereira, o que ocorreu no Ninho do Urubu tem que se transformar numa versão flamenguista de Hillsborough – um exemplo no qual o respeito às vidas é um exercício diário em Anfield. Duas histórias que podem se cruzar em Doha.

Manter constante esse tributo não apenas destaca o fato ocorrido há nove meses. O ato honra a dedicação daqueles dez garotos em vestir a camisa do Flamengo e atuar nas categorias de base; ele reforça o sonho que se encerrou de maneira tão precoce; ele oferece conforto aos demais garotos do Ninho, especialmente aqueles que conviveram com as vítimas; e, mais importante, o ele consola os familiares que não possuem outro caminho a não ser conviver com a tristeza, a saudade, a dor e todos os sentimentos ao redor da tragédia. Muitos dos afetados pela perda também são rubro-negros, afinal, e conciliam suas emoções com o vazio que prevalece. Distinguem o que significa a instituição e sua batalha diária.

Obviamente, a mera menção não é suficiente, embora ajude a explicitar os desdobramentos do desastre. Há respostas essenciais que devem ser dadas às famílias, com a determinação dos responsáveis pela negligência no alojamento. As investigações seguem em frente. Além disso, os dirigentes do Flamengo precisam ser cobrados por uma solução urgente às indenizações que faltam, enquanto pagam uma ajuda de custo aos familiares com os quais não chegaram a um acordo. É papel da imprensa seguir com a fiscalização. E é papel dos torcedores exigirem uma postura digna da diretoria no trato com aqueles que permanecem em luto – como já fazem alguns grupos da torcida, a exemplo do Flamengo da Gente. A lembrança é sempre o primeiro passo do que não pode depender da morosidade da justiça.

Durante a conquista da Libertadores, o Flamengo lembrou dos Garotos do Ninho em suas redes sociais – embora pudesse fazer mais, talvez com uma menção expressa na entrega do troféu ou com a doação de parte das premiações. Os torcedores entoaram nas arquibancadas do Estádio Monumental “U” a música em homenagem. Já dentro de campo, alguns jogadores ofereceram sua dedicatória. O goleiro Gabriel Batista levou uma faixa mencionando as vítimas, enquanto Berrío e Reinier prestaram tributo nas redes sociais. Por fim, Diego abordou o doloroso assunto diante do maior público possível no Rio. Os rubro-negros não podem se dar por satisfeitos, independentemente do que já foi feito. As 48 horas de comemoração necessitam de alguns minutos de silêncio.

Bem-sucedidos ou não, dirigentes passam. Jogadores também passam, assim como técnicos. O que realmente fica para sempre a um clube é a sua história e a sua torcida. A tragédia no Ninho do Urubu seguirá como uma parte indissociável do vivido pelo Flamengo num ano de intensa alegria, mas também de profundo luto. Indenizar as famílias devidamente é uma parte do processo. Preservar a memória será uma obrigação eterna aos rubro-negros, para que nada se torne em vão. É o que muitos torcedores desejam, e que empurra as diferentes lutas que persistem às famílias.