Foram seis temporadas muito bem vividas no Mestalla. Diego Alves sai do Valencia sabendo que está entre os grandes ídolos do clube nos últimos anos. Atravessou um período decadente dos Ches, em que a equipe deixou de disputar as competições europeias para figurar na metade inferior da tabela do Campeonato Espanhol. Não por sua culpa. Aliás, muito pelo contrário. O arqueiro segurou as pontas da equipe em vários momentos. Todavia, como num romance, apesar do amor, a relação já estava desgastada. E chegou a um fim com a saída do veterano para o Flamengo.  Os torcedores certamente guardarão com carinho as várias lembranças.

Diego Alves foi contratado pelo Valencia já bem experimentado no futebol espanhol, e por um preço módico, considerando a quantidade de milagres que colecionava no pequenino Almería. Começou no banco de Vicente Guaita, promissor goleiro formado pelos Ches, e disputava majoritariamente as copas. No entanto, ganhou a primeira chance no Espanhol justamente contra o Real Madrid. Não evitou a derrota, mas pegou muito. Conquistou a confiança de Unai Emery naquele momento. Já no segundo turno daquela temporada 2011/12, Guaita voltaria aos jogos da liga. Diego Alves era o titular na Liga Europa, na qual os Ches cairiam apenas nas semifinais, para o campeão Atlético de Madrid.

A partir da temporada seguinte, já não existiam dúvidas sobre quem deveria ser o titular absoluto. Mauricio Pellegrino bancou Diego Alves, com Guaita limitado às copas. E o goleiro brasileiro logo se colocou entre os melhores de La Liga. O Valencia não era a mesma potência de antes, mas continuava rondando a zona de classificação à Champions. E tinha no goleiro um de seus esteios. Permaneceu assim com os diferentes técnicos que passaram com o Mestalla. Já no seu melhor momento, em 2014/15, o camisa 1 colocaria o clube novamente na Liga dos Campeões. Deixou marcada a atuação impecável no empate por 2 a 2 contra o Real Madrid no Estádio Santiago Bernabéu, valiosíssimo para a campanha. Uma das maiores exibições de um arqueiro pela Liga nesta década.

Todavia, justamente quando Diego Alves parecia pronto a saltos maiores, convocado para a Copa América de 2015, ele sofreu o golpe mais duro da carreira. Rompeu os ligamentos do joelho e passou oito meses afastado dos gramados. A volta aconteceria apenas em fevereiro de 2015, com o Valencia eliminado da Champions e mal no Campeonato Espanhol. Retornou já fechando o gol, apesar de uma falha, durante a vitória sobre o Espanyol. Se a torcida temia o pior, o paredão se agigantou para manter a segurança e evitar qualquer risco.

Já na temporada passada, novas penúrias. As vaias ecoavam no Mestalla em quase todos os jogos. Diego Alves fazia o seu trabalho, mas também dava sinais de irritação pelas críticas. Continuava como um dos protagonistas. Porém, sem gozar do mesmo prestígio de outrora. Nas últimas três rodadas do Espanhol, o ótimo Jaume Doménech, seu substituo na época da lesão no joelho, assumiu a posição e se saiu muito bem. Era a deixa para que a renovação no elenco se encaminhasse. Para que o brasileiro seguisse novos rumos, como ficou bem claro após a contratação de Neto, junto à Juventus.

Ao longo desses seis anos, Diego Alves não foi o goleiro perfeito. Por vezes oscilou, embora não demorasse a dar a volta por cima. Seu grande mérito era se tornar um verdadeiro monstro em diversas partidas importantes, sobretudo contra os gigantes espanhóis. É difícil encontrar um embate contra Barcelona ou Real Madrid sem uma defesa espetacular do brasileiro. E são muitas as suas atuações fabulosas contra blaugranas e merengues. Que a vitória não viesse, às vezes nem mesmo o empate, era o paredão quem mantinha as esperanças vivíssimas.

Além do mais, há, claro, a sua enorme capacidade nas cobranças de pênaltis. Diego Alves transformava cada duelo na marca da cal em uma guerra psicológica. E, à medida que a sua fama crescia, mais os batedores entravam na pilha. Até os mais experientes. Até mesmo Messi e Cristiano Ronaldo. Apenas pelo Valencia, foram 14 pênaltis defendidos, 11 apenas pelo Campeonato Espanhol, e cinco na temporada passada. Somando as defesas pelo Almería, quebrou o recorde histórico da competição. Virou o pesadelo dos adversários e, merecidamente, passou a ser reconhecido como um dos melhores do mundo na arte.

O Flamengo ganha demais com a chegada de Diego Alves. E não apenas pela atual lacuna no elenco de Zé Ricardo. Sem medo de cometer exageros, dá para dizer que o veterano é o goleiro mais confiável a pintar na Gávea desde os últimos anos de Júlio César, quando este já tinha se firmado como uma realidade – porque, mesmo ignorando seu histórico hediondo, Bruno não era de transmitir confiança plena, apesar das grandes defesas e do histórico vitorioso. Por sua experiência e por tudo o que construiu na Espanha, o novo camisa 1 vem como um gigante. Para, como sempre se disse nos últimos anos, ratificar que está entre os melhores de sua posição no país. Vai deixar saudades no Mestalla, depois de fazer tantos olhos brilharem com seus lances impossíveis.

Abaixo, selecionamos 10 partidas marcantes de Diego Alves pelo Valencia:

Abril de 2017 – 3×0 sobre o Deportivo de La Coruña

Outubro de 2016 – 2×0 para o Atlético de Madrid (dois pênaltis defendidos)

Abril de 2016 – 2×1 sobre o Barcelona

Fevereiro de 2016 – 2×1 sobre o Espanyol

Maio de 2015 – 2×2 contra o Real Madrid

Janeiro de 2015 – 1×1 contra o Celta

Maio de 2014 – 2×2 contra o Real Madrid

Fevereiro de 2014 – 3×2 sobre o Barcelona

Setembro de 2013 – 3×2 para o Barcelona

Setembro de 2012 – 1×1 contra o Real Madrid

Bônus – Os pênaltis defendidos e os milagres pelo Almería