Diego Alves ainda tem um longo caminho para marcar o seu nome no Flamengo, mas é justo dizer que sua contratação foi uma das mais importantes do clube neste século, independentemente dos feitos esportivos. O veterano traz uma segurança para a meta rubro-negra que a equipe não desfrutava desde os tempos de Júlio César. Neste intervalo, o Fla teve uma coleção de arqueiros superestimados, presepeiros e pouco confiáveis. O pegador de pênaltis experiente representava uma quebra nesta escrita. E que tenha vivido altos e baixos ao longo dos últimos meses, é uma salto aos flamenguistas. Algo que se tornou decisivo nesta terça-feira de Libertadores. Diego Alves se agigantou em Oruro e assegurou os primeiros três pontos ao seu time na fase de grupos. Conteve a insistência do San José e terminou como melhor em campo na vitória por 1 a 0, que teve a participação também essencial de Gabigol e Bruno Henrique na frente.

A compra de Diego Alves era uma resposta do Flamengo ao terror experimentado com Alex Muralha. O antigo ídolo do Valencia demorou um pouco a pegar uma boa sequência com os rubro-negros, o que gerou certos receios sobre a aposta do clube. Quando começava a engrenar, veio a lesão diante do Junior de Barranquilla nas semifinais da Sul-Americana de 2017. Todavia, a preparação rumo a 2018 ajudou o veterano a recuperar seu nível. Começou muito bem o Brasileirão, entre os melhores de sua posição, fundamental para levar o Fla à liderança no primeiro turno. A nova contusão sofrida em setembro voltou a atrapalhar a sua afirmação. E o imbróglio com Dorival Júnior, diante da manutenção de César, parecia capaz até mesmo de colocar um ponto final na passagem do camisa 1 pela Gávea. Rusgas superadas, pelas mudanças no comando e até na direção do clube, Diego tratou de se empenhar no recomeço com Abel Braga. O voto de confiança do novo treinador também é importante nesta reconciliação.

Afinal, Diego Alves não é apenas um grande goleiro à disposição do Flamengo. É uma clara liderança. Uma voz ativa, algo que o clube careceu em diversos momentos nos últimos anos. O veterano sabe como chamar a atenção dos companheiros e controlar o termômetro das partidas. Abel Braga sabe o peso disso e, neste sentido, fez a sua escolha pela titularidade. A grande aparição contra o Ajax pela Flórida Cup passou uma borracha sobre os entraves do ano anterior. E apesar de alguns deslizes no Campeonato Carioca, sobretudo pelo gol sofrido na semifinal contra o Fluminense, o camisa 1 teve a sua melhor exibição pelo clube justamente na estreia da Libertadores.

Não seria uma partida tão fácil ao Flamengo. O San José tinha ordem explícita para arriscar bastante a gol e se aproveitar da baixa resistência do ar rarefeito sobre a bola. Se os chutes ficam mais rápidos na altitude, Diego Alves não demorou a perceber. Os rubro-negros encontravam dificuldades para impor o seu jogo no campo de ataque e enfrentavam um adversário muito direto em suas ações. Os orureños tentavam se aproveitar de suas armas e incomodavam a defesa carioca, que se desdobrava para afastar o perigo. A partir dos 20 minutos, Diego Alves começou a ser mais exigido, em bolas de longe e cruzamentos fechados. Ia mantendo a segurança. Seu principal milagre aconteceu aos 38 minutos. O artilheiro Carlos Saucedo não pegou em cheio na bola, mas ia mandando no cantinho. O camisa 1 se esticou todo para espalmar o chute à queima-roupa.

Enquanto isso, o Flamengo tinha dificuldades na criação. Pouco ameaçou a meta de Carlos Lampe, sem se aproximar da área adversária. Bruno Henrique era quem mais aparecia para fazer o trabalho na transição, mas não conseguia se conectar com os companheiros. De Arrascaeta, em especial, sentia as consequências da altitude e acabou substituído logo na volta do intervalo, por Éverton Ribeiro. Apesar da superioridade técnica, os rubro-negros não tinham controle do jogo. Independentemente dos problemas em Oruro, esperava-se uma postura bem mais propositiva do time de Abel Braga – o que não acontece neste início de temporada. De positivo, ao menos, a bravura para encarar as situações adversárias. Os flamenguistas estavam distantes da apatia exibida em outros jogos importantes, com uma atitude aguerrida.

No início do segundo tempo, outro jogador a se sobressair foi Rodrigo Caio. O zagueiro fez uma partida muito boa e conseguia evitar os perigos dentro da área. Suas intervenções foram vitais para conter o San José e permitir que o gol da vitória saísse aos 15 minutos. Bruno Henrique mais uma vez seria o responsável, avançando para o meio e descolando um passe na medida entre os marcadores. Deixou Gabigol de frente para o gol e o centroavante definiu com categoria, dando um tapa na saída de Lampe. Quando a velocidade do ataque funcionou, o caminho se abriu ao Fla. O entrosamento entre os dois santistas também é algo vital.

Ainda assim, a vitória dependeu de Diego Alves. Logo na sequência, Marcelo Gomes disparou um míssil de fora da área e o goleiro fez outra defesa difícil, espalmando para fora. O San José tentava pressionar, seja com os arremates de média distância ou com as bolas alçadas. O camisa 1 seguia atento, parando uma cabeçada perigosa de Saucedo. Vez ou outra, o Flamengo escapulia ao ataque. Everton Ribeiro chegou a fazer Lampe trabalhar e Gabigol poderia ter matado a partida, em contra-ataque no qual saiu no mano a mano com o goleiro da seleção boliviana, mas chutou em suas pernas. No fim, quando se temia que o desgaste da atitude atrapalhasse os rubro-negros, os visitantes administraram bem a situação. Conseguiram se defender bem e esfriaram os minutos finais até que o apito soasse, decretando o resultado positivo.

O Flamengo tem um grupo difícil na Libertadores. Pega três times que conquistaram seus campeonatos nacionais e vinham em boa forma no segundo semestre. A vitória sobre o San José, superando a altitude, é uma ótima maneira de abrir a campanha. Na sequência, os rubro-negros se aproveitam da tabela sem nexo elaborada pela Conmebol e disputam os seus três próximos compromissos em casa. Chance de já encaminhar a classificação para os mata-matas, longe do sufoco recorrente dos últimos anos. O time de Abel Braga possui muitos pontos a melhorar coletivamente, mesmo que as individualidades segurem as pontas. O resultado favorável em Oruro alivia qualquer pressão.