Didi 90: Uma coleção de histórias sobre a lenda do futebol

“Era como se tudo ainda parecesse um sonho. Ao qual a gente tinha de ir se acostumando aos poucos, bem devagarinho, para acreditar mesmo que era verdade”

A serenidade de Didi, em meio à comemoração aflorada pela conquista do primeiro título mundial brasileiro, se explica em suas palavras. Não estava entre aqueles que soluçavam de tanto chorar ou que se embrenhavam para abraçar a multidão. Como disse anos depois, em entrevista ao biógrafo Péris Ribeiro, o meio-campista tentava saborear o momento. Tentava se dar conta de como a sua vida se transformava por completo.

Assim era a personalidade de Didi. O negro esguio e de cabeça altiva, elegante em seus passos largos, em seus gestos meticulosamente calculados, em sua cadência sábia. O Príncipe Etíope, como bem definiu Nelson Rodrigues, um daqueles que mais soube poetizar o maestro. A calma inerente nem de longe significava uma fraqueza de espírito. Tinha ideias fortes e, segundo alguns, uma dose de vaidade. O talento do craque o permitia ser assim. Casamento perfeito entre ser e fazer, um fazer que sempre se cumpria no mais alto nível do futebol. A reverência, por uma imponência que não se perdia apenas como aparência.

Didi encontrou dificuldades em sua carreira. Foi menosprezado por um estilo de jogo visto como desinteressado por alguns. Foi boicotado por quem não apreciava seu ritmo. Foi acusado de vedetismo. Também não era santo, a bem da verdade, homem de mistérios e entraves como qualquer outro, ainda mais como aqueles que prendem nossa atenção. O mais importante é que Didi, independente de tudo, foi. E foi muito. Por isso que sua história costuma ser recontada tantas vezes. Por isso sua figura é engrandecida.

Ídolo no Fluminense e no Botafogo. Membro do maior Real Madrid da história. Treinador de sucesso em diferentes países. Campeão, muitas vezes campeão. E nada se compara àquelas duas participações mundialistas com a seleção brasileira. Nem sempre o mais incensado. Mas fundamental em ambas as conquistas. Em 1962, a experiência em conduzir uma trajetória de percalços. Em 1958, o talento magnânimo e, sobretudo, a calma que ganhou ares de lenda. A participação decisiva na final contra a Suécia, tanto na bola quanto na mente.

“Acabou a sopa deles. Agora é a nossa vez. Vamos encher a caçapa desses gringos de gols!”, foi a frase proferida por Didi, bola em seus braços, após os suecos abrirem o placar na decisão. A segurança do meio-campista valeu para manter o ânimo dos companheiros e o brio pela virada. Resposta imediata, logo na saída de jogo, o maestro dá um lançamento de mais de 50 metros para Garrincha na ponta direita, quase rendendo o empate. A postura do craque, em partes, transformou a história da Seleção. É daqueles momentos que representam a mudança de curso e que, depois dos 5 a 2 no placar, falam por si. O camisa 6 acabou considerado o melhor do torneio, coroado pelo próprio rei sueco como o “Senhor Futebol”.

Se o episódio na final de 1958 é o mais famoso na carreira de Didi, aproveitamos a ocasião para lembrar outros momentos de sua vida. Na última segunda-feira, se ainda estivesse vivo, o Príncipe Etíope completaria 90 anos. Por isso mesmo, nas linhas abaixos, dedicamos alguns episódios que rememoram sua maestria. Salve, gênio!

A carreira que quase não aconteceu

Didi nasceu em 8 de outubro de 1928, na cidade interiorana de Campos, filho de Arthur e Maria da Penha. Não tardou para os terrenos da cidade se transformarem no palco de seu talento arrebatador. A terra batida na Rua Aquidaban virava o seu Maracanã particular no início dos anos 1940. Além das costumeiras peladas, também atuava na escolhinha do São Cristovão, famosa na cidade por fornecer prodígios aos principais clubes locais. O pequeno Waldir já se tornava um dos mais cobiçados. Logo depois passou a defender o Industrial.

O garoto tinha 14 anos e, em um desses bate-bolas com rapazes mais velhos, irritou um defensor troncudo com seus dribles secos. O zagueiro maldoso foi direto na perna direita de Didi, numa pancada só que já prostrou o craque entre os gritos e a dor. Durante as semanas seguintes, o menino passou em diferentes médicos e não se notavam grandes sinais de melhora, com o joelho inchado e roxo. Sob a suspeita de gangrena, até mesmo a possibilidade de amputar a perna foi cogitada.

A salvação de Didi veio através das mãos carinhosas de dona Creusolina, sua avó materna e responsável pelo célebre apelido de Waldir. Entre as rezas e suas soluções caseiras, com preparados de sebo de rim de carneiro, o joelho desinchou. Quase um milagre, que permitiu ao adolescente voltar a andar, primeiro com a ajuda de muletas. Por conta do acidente, a perna direita do meio-campista ficou um centímetro mais curta do que a outra.

Além do mais, o medo da amputação também influenciou o jogo de Didi. Os dribles atrevidos carregando a bola se tornaram menos frequentes. Preferiu recuar ao meio-campo, com jogadas mais limpas e passes certeiros. Aprimorou os seus lançamentos e os chutes de longa distância, desde sempre perigosos. Eclodia, obra da cura, o maestro.

O Madureira queria Dodô, não Didi

O Industrial foi o primeiro clube de Didi, graças ao qual também ganhou um emprego na fábrica de tecidos ligada à agremiação. Em amistosos contra as equipes da capital, vestiu também as camisas de Goytacaz e Americano. Depois, assinou com o Rio Branco local. E desde já sonhava em defender os grandes do Rio de Janeiro. Tinha simpatia pelo America, mas o Vasco logo se tornou seu objeto de desejo, como de tantos outros garotos admirados com o Expresso da Vitória. Contudo, precisava galgar degraus.

Diretor do Madureira, Benedito Rosa era um dos que se encantou com o ataque do Rio Branco nas visitas a Campos. Antes de Didi, entretanto, o observador cresceu os olhos em Dodô – o outro filho de seu Arthur e dona Maria da Penha, que atuava como ponta esquerda. O dirigente foi até a casa da família, tentar convencer os pais a permitirem a mudança do atacante rumo ao Tricolor Suburbano. Por imposição da família, só ganharia o sim se aceitasse levar o irmão Didi como companhia.

O dirigente não respondeu de imediato e Didi, empolgado com a ideia de mudar de ares, foi parar no interior de São Paulo, disputando a segundona paulista pelo Lençoense. O Rio Branco exigiu sua volta, entrando na justiça. O clima não era bom em Campos, diante do natural desgaste. O jovem conciliava sua carreira com o trabalho em uma oficina mecânica, para complementar a renda. Veria a solução ao entrave apenas quando Benedito Rosa retornou à casa da família Pereira e concordou em levar Didi justamente com Dodô, mesmo sem oferecer garantia alguma sobre a permanência do maestro no Estádio da Rua Conselheiro Galvão.

Nem precisava. O futebol de Didi já o garantiu. Destaque em uma excursão a São Paulo, o garoto tomou conta da meia direita já a partir do Campeonato Carioca de 1947, se colocando como herdeiro de Jair da Rosa Pinto – antigo craque do Madureira que, anos antes, havia se transferido ao Vasco. Dodô não teve a mesma sorte. Apesar do impacto inicial, logo perdeu a titularidade na ponta esquerda e acabou retornando a Campos, onde se sagrou campeão com o Goytacaz.

O Maracanã não poderia ser inaugurado de melhor maneira

Didi trocou de tricolor em 1949. O sucesso no Madureira levou o Fluminense a pagar caro em sua contratação e logo o meia passou a brilhar. O sucesso era tamanho que, em junho de 1950, ganhou uma convocação à seleção carioca de novos. E não era para uma ocasião qualquer. O time enfrentaria um selecionado paulista em teste grandioso: ali seria inaugurado o Maracanã.

As arquibancadas se encheram para o evento. O estádio não estava completamente pronto, com vigas de madeira e outras estruturas expostas, mas precisava ser avaliado às vésperas da Copa do Mundo. Assim, milhares e milhares de pessoas aceitaram ser feitas de cobaias dentro da maravilha da engenharia. Antes da partida, que teve a presença de Jules Rimet e do presidente Eurico Gaspar Dutra entre os espectadores, o prefeito Mendes de Morais realizou um discurso pomposo. Era enorme o frenesi. “Desde cedo, a romaria da população com destino ao Estádio Municipal emprestava à cidade aspecto fora do comum. De todos os bairros desciam verdadeiras massas humanas, dando impressão de que se tratava de êxodo. E de fato era, rumo ao Maracanã, onde se ergue o colossal estádio municipal”, descrevia o Jornal dos Sports, no dia seguinte.

A festa só se tornou completa, de qualquer forma, quando a bola rolou. E os paulistas dominaram o amistoso, em vitória por 3 a 1 estrelada por Brandãozinho. Contudo, o primeiro gol da história do Maracanã precisava ser simbólico. Seria responsabilidade daquele garoto esbelto de 21 anos, com a camisa dos cariocas. Um chute cheio de curva, da entrada da grande área, entrou à meia altura e não deu qualquer chance ao goleiro Oswaldo Topete. Estava inaugurada a contagem do “Maior do Mundo”. Justo por aquele que, várias e várias vezes depois, se consagraria naquele pedaço de grama.

O craque do Timinho

Quando Didi chegou ao Fluminense, o Vasco era o time a ser batido no Rio de Janeiro. A equipe treinada era bicampeã estadual, além de ter faturado o Campeonato Sul-Americano de Campeões em 1948. O Bangu também começava a despontar, especialmente após a contratação de Zizinho em 1950, naquela que se tornou na época a maior transação já feita no futebol brasileiro. O Tricolor corria por fora e era desdenhado pela imprensa, por contar com uma equipe basicamente formada por jovens sem muita reputação. Ficou conhecido como “Timinho”.

Sob as ordens do técnico Zezé Moreira, o Fluminense fez os jornalistas engolirem suas palavras a partir do Campeonato Carioca de 1951. Exibiu um futebol ofensivo e de muitos talentos, como Pinheiro, Carlyle e Telê, além do veterano Orlando Pingo de Ouro e do já aclamado Castilho. Diante de uma campanha decepcionante do Vasco, os tricolores disputaram a taça sobretudo com os alvirrubros, terminando empatados com os mesmos 31 pontos – com direito a jogos muito disputados nos dois turnos, especialmente os 5 a 3 do Flu comandados por Didi. A igualdade no topo da tabela forçou a realização de dois jogos extras no Maracanã. Uma espécie de passagem de bastão em que o camisa 8 comandou o Fluminense, para derrotar o Bangu do Mestre Ziza e ficar com a taça. O Timinho providenciou a afirmação do jovem meio-campista, e não pararia por aí.

Pelo sucesso com o Fluminense, Zezé Moreira foi convidado a dirigir a Seleção no Campeonato Pan-Americano de 1952. Zizinho acabou barrado justamente por sua indisciplina. Didi ganhou a camisa 8 e liderou a conquista, que o tornou nacionalmente reverenciado. Brilhou especialmente na vitória sobre o Uruguai por 4 a 2 – no primeiro encontro desde o Maracanazo, e com boa parte da base celeste campeã do outro lado. Justamente no duelo, aliás, o meia anotou seu primeiro tento pela equipe nacional: recortou dois defensores charruas, antes de acertar um chute venenoso, ludibriando o goleiro Roque Máspoli. E o gênio ainda daria duas assistências para abrir o caminho ao título, durante a vitória por 3 a 0 sobre o Chile na decisão, contrariando a calorosa torcida que encheu o Estádio Nacional de Santiago. Na volta ao país, os campeões foram recepcionados pelo presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Já com o Fluminense, naquele mesmo ano faturou a Taça Rio, considerado o melhor jogador do importante torneio internacional.

Em 1954, Didi também teria o gosto de disputar a sua primeira Copa do Mundo. O camisa 8 comandou a campanha do Brasil na primeira fase, anotando gols na vitória sobre o México e no empate com a Iugoslávia. Só não conseguiria fazer a diferença na famosa Batalha de Berna, contra a Hungria, em duelo de violência muito além dos gramados que terminou com a classificação dos Mágicos Magiares por 4 a 2. Conta-se também que a relação do craque nos bastidores não foi das melhores, independentemente da presença de Zezé Moreira. Irritou-se com a proibição de entrar em contato com a esposa Guiomar (segundo algumas versões, por telefone e, em outras, de receber sua visita na concentração) e ameaçou uma greve de fome. Nílton Santos seria o seu cúmplice, levando comida às escondidas ao companheiro.

Uns trocados para tirá-lo do Fluminense

A vida pessoal de Didi, aliás, era um entrave. Quando ainda morava em Campos, apaixonou-se por Maria Luíza e com ela se casou depois da chegada ao Madureira, em pomposa cerimônia na igreja da Lapa. Do matrimônio nasceu Adilson, seu primogênito, que viraria jogador de futebol e faria parte do elenco do Atlético Mineiro campeão brasileiro em 1971. Todavia, logo a relação se rompeu, quando o menino tinha apenas quatro anos. Separou-se de María Luíza e logo o craque engatou seu relacionamento com Guiomar, cantora na Era de Ouro do rádio e também atriz na nascente televisão.

Além do noticiário esportivo, o nome de Didi passou a frequentar as colunas sociais, o que gerou atritos em sua relação com a torcida do Fluminense. Era acusado de desinteresse e de não dar o seu máximo em campo, por conta do estilo de jogo cadenciado e sem tanta intensidade. O meia também passou a travar disputas com a diretoria tricolor, por conta da pensão destinada a Maria Luíza e Adilson. O ídolo recusava-se a participar de excursões com a equipe. As rusgas acumuladas principalmente em 1955 culminaram em sua venda no ano seguinte. O Flu pedia uma fortuna nunca antes vista no futebol brasileiro para negociá-lo: 1,85 milhão de cruzeiros. Ainda assim, o Botafogo aceitou pagar.

Para acertar o negócio, os botafoguenses dependeram de um grande esforço de seus dirigentes. Entretanto, os alvinegros também foram à forra: entregaram uma mala cheia de notas, inclusive de pequenos valores, de cinco ou dez cruzeiros, só para complicar os rivais. O tesoureiro do Fluminense precisou varar a madrugada com sua equipe contando o dinheiro. Enquanto isso, os botafoguenses comemoravam a contratação em uma boate de Copacabana. Chegava outro dos craques que mudariam os rumos em General Severiano. Logo em 1957, a equipe conquistou o Campeonato Carioca, encerrando o jejum de nove anos do clube. Na decisão, diante de 150 mil no Maracanã, o time da Estrela Solitária goleou justamente o Flu por 6 a 2. Didi foi o responsável por um lançamento magistral a Paulinho Valentim, no tento que abriu o placar logo aos quatro minutos.

Nasce a folha seca

Observador, Didi sempre gostou de aprender como os grandes do futebol batiam na bola e colocavam efeito sobre ela. Foi algo que aprimorou desde os tempos em Campos e rendeu gols importantíssimos no início de sua carreira. A folha seca, a autêntica, só surgiria nos tempos de inferno astral com o Fluminense. Em 1955, durante o duelo com o America pelo Campeonato Carioca, o meia tomou uma pancada no tornozelo direito e passou semanas no departamento médico.

Voltando aos treinos, mas ainda convivendo com a dor no pé, Didi tentou encontrar uma forma de bater na bola que não impactasse no tornozelo. E em meio aos testes, percebeu que não sentia dor ao fatiar a pelota bem no meio, batendo com a região dos três dedos, num movimento de fora para dentro. Mais do que isso, percebeu também que a esfera fazia movimentos insinuantes, de cima para baixo, que enganavam qualquer goleiro. Era como uma folha de outono caindo da árvore. Uma folha seca, como teria comparado brilhantemente o narrador Oduwaldo Cozzi, creditado por nomear o deslumbramento.

Suas cobaias foram os goleiros do Fluminense, que na época contava com monstros do nível de Castilho e Veludo. Nem eles conseguiam parar aquele chute. Já o teste final aconteceu numa partida sem tanta repercussão, em seu retorno ao Flu, encarando o Bonsucesso. No Estádio da Rua Teixeira de Castro, fatiou a bola e viu a curva espantosa tomar o rumo das redes. Sua marca registrada era patenteada.

E definiu o destino do Brasil, apenas dois anos depois. Em abril de 1957, o Maracanã abarrotado recebeu o jogo decisivo das Eliminatórias para a Copa de 1958. Depois do empate por 1 a 1 em Lima, a Seleção precisava derrotar o Peru para se confirmar no Mundial. Jogo parelho, que seria resolvido em uma cobrança de falta certeira no primeiro tempo. Da intermediária, Didi arriscou a folha seca e encontrou o caminho das redes, levando a equipe nacional à Suécia. “Não deu para esboçar qualquer gesto. Apenas assisti. Foi a coisa mais estranha… Quando olhei para trás, a bola estava no fundo das redes. Foi como se alguém a tivesse colocado ali com as mãos”, definiu o goleiro Asca.

A folha seca, aliás, também seria preponderante na Copa do Mundo. O Brasil fazia uma semifinal duríssima contra a França, quando o chute indefensável de Didi serviu para desempatar o placar em 2 a 1, antes que a goleada se alargasse para 5 a 2. Pobre goleiro Claude Abbes, impotente diante do arremate fatal. “No momento do chute, não deu para pensar em mais nada. Apenas perdi a noção de tudo. Quando acordei, estava fora do gol, o rosto colado à trave. Só entendi aquele chute incrível quando pude assisti-lo várias vezes pela televisão”, contaria, tempos depois, o francês.

A promessa de Didi

Didi chegou ao Botafogo para ser treinado, mais uma vez, por Zezé Moreira. O técnico não resistiu aos maus resultados e seria substituído por seu auxiliar, Geninho, ídolo do clube nos anos 1940. Mas a relação turbulenta com a diretoria abreviou sua passagem. Rumo a 1957, os alvinegros buscavam um novo comandante. E encontraram uma solução caseira no jovem diretor de futebol de 41 anos, um rapaz de personalidade forte e arrojado, que já tinha auxiliado bastante na contratação do meio-campista. Um tal de João Saldanha.

O Botafogo deslanchou em 1957 sob as ordens do novo treinador. Foi ele o responsável por acomodar o potente ataque formado por Garrincha, Quarentinha, Paulinho Valentim e Edson, todos sempre bem municiados por Didi. Sobretudo, o comandante tem méritos por realmente apostar em Mané e oferecê-lo a maneira mais livre de atuar. Mas, além das ideias, Saldanha se diferenciava também na relação com o elenco. Não adotava o militarismo das concentrações, deixando o time permanecer em um hotel à beira-mar em Ipanema. Divertiam-se todos, desde que mantivessem sua dose de responsabilidade com o time. Era mais um amigo de tantos craques, a ponto de sair com eles para beber umas batidas “como aperitivo” e ser levado por seus comandados para jantar fora.

Sob as ordens de Saldanha, o Botafogo conquistou o referido título carioca de 1957, atropelando o Fluminense por 6 a 2. E com o treinador é que Didi recuperou o seu melhor futebol, novamente confiante para deslanchar na Seleção. O camisa 8 foi eleito o craque da competição. Como promessa, andou de General Severiano até seu apartamento na Rua Coelho Neto, cerca de três quilômetros de peregrinação, todo vestido com o uniforme botafoguense. Provocação ou não, a residência ficava exatamente ao lado do Estádio das Laranjeiras, casa dos vice-campeões e onde trabalhavam seus antigos patrões.

Depois de sua passagem pelo Real Madrid entre 1959 e 1960, Didi voltaria a ser campeão carioca em 1961. Garrincha e Nilton Santos seguiam como parceiros inseparáveis, em equipe que ainda ganhou Zagallo, Manga, Rildo e Amarildo. No ano seguinte, faturariam o Rio São-Paulo. E, no segundo semestre, o camisa 8 participou do início da campanha no bi estadual, antes de aceitar uma proposta do Sporting Cristal. A sala de troféus do Botafogo possui uma enorme contribuição da lenda.

O herdeiro Gérson

Didi tinha um famoso olho clínico para identificar bons jogadores e reconhecer jovens talentos. Quando voltou do Real Madrid, se encantou com Gérson e o imaginou como seu sucessor na Seleção. Dito e feito, com o prodígio logo despontando no Flamengo e passando a dividir o meio-campo da equipe nacional com o veterano. Em 1961, atuaram juntos em torneios amistosos com o Brasil. E nos descaminhos da vida, o jovem chegaria ao Botafogo em 1963, podendo reencontrar o mestre meses depois, quando encerrou sua passagem pelo Peru e retornou a General Severiano. Dividiram a cancha em alguns jogos pelo Campeonato Carioca e em uma excursão por diferentes países das Américas.

“Foi uma maravilha aquela viagem! Ainda mais porque eu enfiava um passe de curva com o pé direito e o Gérson lançava com a canhota. Era de morrer de rir, pois os caras ficavam tontos. Não sabiam pra quem olhar, pra que lado correr”, relembrou Didi, em sua biografia, a Péris Ribeiro. “Gérson era falador, respirando autoconfiança, o tipo de craque que mandava no jogo. Chamava sempre a responsabilidade para si. Apesar da facilidade para o drible, só driblava o necessário. E quando lançava com aquele pé esquerdo… Que beleza! Quando retornei da Espanha e vi aquele garoto abusado no Flamengo, falei cá comigo: ‘Acabaram-se os problemas. Quando eu parar, está aí quem vai vestir a camisa 8”.

Reverência compartilhada pelo Canhotinha de Ouro: “Suceder o Didi foi uma honra. Jamais esquecerei os momentos em que via meu eterno mestre lançar e chutar, ali tive a melhor de todas as escolas. A folha seca não deu para fazer igual, pois ela é insuperável. Mas, de lançamentos, acho que entendo um pouquinho. Afinal, estive ao lado do maior lançador de todos os tempos”.

As atuações que deslumbraram Madri

Didi atraía as atenções do futebol europeu desde antes da Copa de 1958. O Valencia tentou contratá-lo, mas o craque preferiu seguir no Botafogo, depois de um polpudo aumento salarial. No entanto, o sucesso no Mundial seria irremediável para sua permanência em General Severiano. O Barcelona até cresceu os olhos, mas quem levou o maestro foi o Real Madrid, então tetracampeão europeu, abrigando uma constelação em seu elenco. Cercado por jornalistas e fãs, o meio-campista se despediu do Rio de Janeiro com um sorriso no rosto, em agosto de 1959. Outra multidão o aguardava na Espanha.

Como se sabe, a estadia de Didi em Chamartín esteve distante de ter um final feliz. A presença do técnico Manuel Fleitas Solich, de tantos sucessos com o Flamengo, ajudava em sua adaptação. Canário era outro amigo que encontrou, enquanto se aproximou dos sul-americanos Domínguez e Santamaría, além da lenda Puskás – com quem fazia animadas disputas de cobranças de falta durante os treinos, valendo jantares ou o que mais desse na telha. O problema se concentrou mesmo no gênio intempestivo de Alfredo Di Stéfano. A badalação pela contratação de Didi incomodava o craque do time, da mesma forma como ele se queixava do estilo cadenciado do meio-campista, bem diferente da velocidade imposta pelo futebol espanhol. Não demorou aos jornais entrarem na onda da Flecha Loira, botando em xeque a validade da contratação do camisa 8. Além disso, a situação também incomodava Santiago Bernabéu, presidente do clube, especialmente pela repercussão negativa de que seu novo astro estava insatisfeito.

Didi participou de 19 jogos do Campeonato Espanhol pelo Real Madrid, escanteado a partir de janeiro, vendo o Barcelona terminar com o troféu. Da mesma maneira, não participou do pentacampeonato na Copa dos Campeões. Seu grande momento no clube aconteceu na pré-temporada, em tempos nos quais o Troféu Ramón de Carranza era bastante valorizado. O camisa 8 simplesmente arrebentou na competição, eleito o melhor jogador do torneio de verão. Nas semifinais, contra o Milan, os merengues aplicaram uma impiedosa goleada por 6 a 3. Além das assistências, o maestro anotou um golaço de falta. Já na decisão, virada por 4 a 3 sobre o Barcelona, na qual o brasileiro chegou ao seu ápice depois de driblar três e dar um passe açucarado a Puskás decidir. Adorado pelas crianças e ajudando os madridistas a serem ainda mais requisitados a amistosos, Didi chegou a ter seu rosto impresso em camisas e bottons vendidos pelo clube.

“Didi, presente em todo o gramado, cobre a sua zona de movimentação com uma ascendência notável. Tal foi a fabulosa atividade de Didi, que o brasileiro passou a ser considerado outro Di Stéfano. A partida do Real com o Milan mostrou que Didi é um verdadeiro maestro de orquestra bem afinada, dando um concerto não de música, mas de futebol. Como armador, seu melhor estilo de jogo mudou completamente o curso das jogadas. Tanto que o Real funcionou com todas as suas peças bem lubrificadas, como uma máquina em andamento uniforme”, definiu o Marca. Teria sido aí a origem da cisão com Di Stéfano, insatisfeito ao ver os holofotes apontados para outro craque.

O retorno de Didi ao Rio de Janeiro aconteceu em outubro de 1960, com o Botafogo oferecendo a renda de dois amistosos com o Real Madrid para selar o negócio. Seria recebido pelos velhos fãs, apinhados no aeroporto. O respeito, ao menos, prevaleceu depois disso. Em sua biografia, Di Stéfano afirma que nunca viu ninguém chutar como o brasileiro e que não teve sucesso ao tentar copiar a folha seca. Ao que o maestro respondeu com elegância, a Péris Ribeiro: “Soube que ele guardou alguns elogios para mim. E para falar a verdade, o que passou, passou. Tudo aquilo que ocorreu entre nós foi há muito tempo. Não dá para guardar ressentimentos a vida inteira. Quanto ao Di Stéfano jogador, o mínimo que posso dizer é que era extraordinário”.

A passagem pelo São Paulo

A carreira de Didi se empreendeu majoritariamente entre Fluminense e Botafogo. O que nem todos sabem é que o Príncipe Etíope encerrou a trajetória nos gramados em outro gigante do país: o São Paulo. De volta de um trabalho no México em 1966, o meio-campista teve a sua quarta passagem por General Severiano. O contrato com os botafoguenses terminava em agosto e o veterano estava reticente se abraçava de vez a carreira como técnico. Entretanto, Paulo Machado de Carvalho o convenceu a se mudar ao Morumbi. A ideia do técnico Aymoré Moreira, seu comandante na Copa de 1962, era repetir o sucesso que Zizinho teve no Tricolor em 1957, quando orquestrou o time e conquistou o Campeonato Paulista.

Didi chegou ao São Paulo em setembro de 1966. Por conta da documentação, sua estreia demorou a acontecer e ele se ausentou de alguns clássicos. O período modesto do clube, sem grandes jogadores, se somou às condições já precárias do velho craque. Estreou em uma amistoso contra a Ferroviária, em Araçatuba. E os maus resultados do time no Campeonato Paulista minaram seu espaço. Existia uma ladainha que falava sobre “trabalhos ocultos” para que os tricolores não triunfassem com o veterano, papo este comentado pelos próprios dirigentes. Fato é que as condições físicas não ajudavam e suas atuações não satisfizeram. Na virada do ano, com a demissão de Aimoré Moreira, Didi ganhou carta branca para deixar o São Paulo. Ainda estudou propostas do exterior para continuar jogando, sobretudo do Junior de Barranquilla, mas acabou retornando ao Peru e abraçando a carreira como treinador.

O homem mais amado do Peru

Se o Peru representa um épico na carreira de Didi como jogador, naquela folha seca do Maracanã, ele também guarda alguns dos momentos mais representativos de sua história como técnico. No segundo semestre de 1962, após se separar e lidar com os litígios por conta da pensão a Adílson, o veterano aceitou uma proposta do Sporting Cristal para se tornar treinador no país andino. Em um clube recém-fundado, a experiência do craque valeu demais. Era tratado como sumidade e suas sugestões valeram para desenvolver o futebol peruano. Foi duas vezes vice-campeão nacional com o clube, antes de sentir saudades do Brasil e retornar meses depois ao Botafogo. No entanto, logo após se despedir do São Paulo e pendurar as chuteiras, o maestro aceitou nova oferta para comandar os celestes. Conquistou o título peruano em 1968 e se tornou praticamente unanimidade.

Às vésperas da Copa de 1970, os peruanos buscavam um treinador para assumir a Blanquirroja. Foram atrás de Didi e não poderiam tomar decisão melhor. O maestro pediu liberdades totais para conduzir seu trabalho, e ganhou. Proporcionou uma revolução à frente dos Incas. Trabalhou principalmente para afastar qualquer complexo de inferioridade, adotando táticas que ofereciam um futebol solto. Além disso, focava seus esforços sobre o trato psicológico dos jogadores. Apesar de disciplinador, seus regimes de concentração e treinamentos ajudavam a fortalecer o grupo.

A primeira missão de Didi aconteceu nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970. Os Incas eram vistos como azarões em uma chave que tinha Argentina e Bolívia. Terminaram com a vaga no México. O emblemático jogo da classificação aconteceu em Buenos Aires. Os dois gols de Oswaldo Ramírez garantiram o empate por 2 a 2 e confirmaram a classificação. A preparação à Copa do Mundo teve as suas turbulências. Didi não viu pedidos atendidos pela federação, o que gerou atritos. Da mesma maneira, a rigidez insistente de seus métodos começou a gerar incômodo. Entretanto, quando a Copa do Mundo chegou, os resultados vieram. O Peru venceu Bulgária e Marrocos, apesar da derrota para a Alemanha Ocidental. Conquistou a classificação às quartas de final. O problema? Passar ao outro lado da história e enfrentar justamente o Brasil.

Antes do duelo, Didi demonstrava confiança à imprensa. Reiterava seu profissionalismo e acreditava que seus jogadores pudessem surpreender os brasileiros. Quando a partida começou, porém, os nervos do maestro ficaram evidentes. Fumava um cigarro atrás do outro, sem parar. Gesticulava como um louco, quase entrando em campo para resolver a situação ao seu time. E vestia um casaco de lã pesadíssimo, mesmo sob um calor escaldante em Guadalajara. Tomou um calor também em campo, derrotado por 4 a 2. “O pior momento daquela partida foi a hora em que o hino nacional foi executado. Eu fiquei paralisado, com a boca seca, imaginando que estava com a camisa 8 do Brasil. Pensava se os brasileiros iriam me chamar de traidor, caso o Peru vencesse, e os peruanos poderiam pensar que eu facilitaria a vitória do Brasil”, contou Didi, anos depois.

Independentemente da queda, os peruanos festejaram a campanha histórica. Uma multidão recebeu Didi e seus jogadores no aeroporto. Diante do presidente da república, o General Alvarado, o treinador ouviu um pedido para que rasgasse o passaporte e assumisse a nacionalidade peruana. O mar de rosas, todavia, não duraria tanto. Os atritos com os dirigentes abreviaram sua passagem pela seleção. Logo deixaria a Blanquirroja. No país, ainda conquistou mais um título nacional com o Sporting Cristal em 1970.

Se nenhum trabalho se equipara ao que fez no Peru, Didi ainda teve outras boas passagens na carreira à beira do campo. Entre 1970 e 1972, treinou o River Plate. Não conseguiu encerrar o jejum vivido em Núñez, mas comandou um time célebre, recheado de garotos. Entre aqueles que ascenderam com Didi, estava o futuro ídolo Beto Alonso. Depois, aceitou uma proposta da Turquia e assumiu o Fenerbahçe. Ganhou seis títulos pelos Canários, incluindo duas ligas nacionais, ainda hoje venerado pelos fanáticos torcedores. E teria uma estadia expressiva no Al Ahli, da Arábia Saudita, onde também foi campeão.

Uma pena que o treinador Didi nunca tenha dado certo no Brasil. Seu grande desejo era assumir a seleção brasileira, mas a continuidade de Zagallo e as mudanças na CBD depois da Copa de 1974 barraram seu desejo. Além disso, nunca deu certo nos clubes daqui, mesmo trabalhando no Botafogo e no Fluminense. A imagem eternizada é mesmo a do meio-campista elegante. Do bicampeão do mundo.

O amigo de Neruda no Chile de tantas lembranças

O Chile representa o início e o fim da história de Didi na seleção brasileira. O craque desabrochou no país com suas atuações irresistíveis durante a conquista do Campeonato Pan-Americano de 1952. Voltaria por lá algumas vezes. Até que a despedida acontece dez anos depois, na Copa do Mundo de 1962. E com o veterano se tornando uma das peças essenciais na conquista do bicampeonato.

O ciclo foi conturbado a Didi, especialmente por sua transferência ao Real Madrid. Permaneceu ausente das convocações por quase dois anos, até retornar em abril de 1961. Já na Copa do Mundo, o meio-campista voltou a exibir o melhor de sua forma, aos 33 anos. Vinha conquistando vários títulos com o Botafogo e era uma das referências na equipe de Aymoré Moreira, compondo a meia-cancha ao lado de Zito. Não foi tão preponderante quanto em 1958. Mesmo assim, os companheiros sempre esperavam um algo a mais de seus passes e ainda viam o exemplo do craque, se desdobrando para ajudar a marcação.

Didi não se saiu tão bem no encontro com a Espanha, na última rodada da fase de grupos, quando tinha sede de vingança. Por muito pouco a campanha não se encerrou ali. Em compensação, teria a oportunidade de se redimir nos mata-matas, sobretudo diante da Inglaterra nas quartas de final, exibindo toda a sua classe. Ninguém poderia mais questionar o camisa 8. A final contra a Tchecoslováquia foi a última de suas 75 partidas pelo Brasil, 68 oficiais. Anotou 21 gols.

A paixão pelo Chile ia além. Era um amante dos vinhos do país. E teria a honra de conhecer, certa vez, Pablo Neruda, Nobel de Literatura em 1971. Ambos se encontraram em Santiago e, fã do escritor, Didi pôde compartilhar uma longa conversa, entre tantos assuntos possíveis a dois apreciadores da vida e gênios em suas artes.

“Treino é treino, jogo é jogo”

O clichê do futebol ganha as bocas como frase de efeito pensada por um autor desconhecido. Mas se tornou célebre mesmo através de Didi, às vésperas da Copa do Mundo de 1958. Durante a preparação ao Mundial, Moacir vinha comendo a bola. O jovem do Flamengo encantava por sua ascensão meteórica no clube e também dava energia ao meio-campo da Seleção. Durante os treinos preparatórios em Minas Gerais, era um dos principais destaques do time. E começaram a surgir discussões se ele poderia tirar o lugar de Didi no time. Foi quando o discurso simples e marcante foi proferido pelo craque, botando panos quentes na situação.

De fato, Didi permaneceu no time quando os amistosos começaram a acontecer. Mais do que isso, jogava o fino, mantendo a ótima forma vista com o Botafogo. Uma cotovelada na costela tomada contra o Paraguai, que gerou uma suspeita de fratura, o deixou no estaleiro por alguns dias. Entretanto, nada suficiente para que Moacir mudasse o pensamento de Vicente Feola e sacasse o Príncipe Etíope do time. Voltou ainda no ciclo de preparação e lá estava o camisa 6 em campo na estreia do Mundial, contra a Áustria.

Foi quando Didi se consagrou. Para começo de conversa, deu assistência para Mazzola na vitória por 3 a 0 sobre os austríacos. Depois, veio o empate por 0 a 0 contra a Inglaterra e o meio-campista teria sido um dos jogadores que intercederam junto a Feola, para que Garrincha enfrentasse a União Soviética. O Mané simplesmente assombrou os temidos adversários, num jogo de vida ou morte para os brasileiros. A vitória, de qualquer forma, se abriu a partir dos pés de Didi. Marcado de perto por Igor Netto, capitão soviético e um dos mais renomados jogadores do país, o camisa 6 passou a atuar mais recuado, para abrir a defesa adversária. Logo aos três minutos, entortou as cadeiras do adversário com um corte seco e, com a parte de fora do pé, lançou Vavá magistralmente. O centroavante passou pela marcação e anotou o primeiro tento. Após o triunfo por 2 a 0, tamanho era o alívio na delegação que Paulo Machado de Carvalho convidou secretamente o craque para tomar um gole de uísque, em comemoração.

Nas quartas de final, mais Didi. Sua exibição grandiosa contra Gales foi coroada com a jogada do gol, no triunfo por 1 a 0. Passou por dois e tocou para Mazzola. Recebeu de volta e, então, emendou uma rara cabeçada a Pelé, dentro da área. Foi quando o garoto anotou uma pintura para se desvencilhar do zagueiro e balançar as redes. Na etapa seguinte, um confronto de peso diante da França. Havia um duelo particular do Príncipe Etíope com Raymond Kopa, grande articulador dos Bleus. Só um prevaleceu. Didi começou a aprontar das suas aos três minutos, com mais uma assistência a Vavá. O artilheiro Just Fontaine empatou e o camisa 6 trataria de desafogar a Canarinho, com uma tremenda folha seca da intermediária, para vencer o goleiro Claude Abbes. No segundo tempo, Pelé tratou de tomar as rédeas, anotando três gols e fechando o triunfo de 5 a 2. Na saída de campo, os cumprimentos de Kopa serviram como sinal à excelência de Didi.

Então, veio a decisão no Estádio Rasunda. A bola nas mãos e os passos lentos depois que Nils Liedholm abriu o placar, logo aos quatro minutos. A liderança que fez o tal “complexo de vira-latas” ser enterrado e o Brasil ser campeão mundial. Didi não ficou só nisso, claro. O camisa 6 coordenava o time com seus passes longos e sua inteligência para organizar o jogo. A virada aconteceu antes do intervalo, em roteiro parecido, graças a duas jogadas de Garrincha pela direita que Vavá completou na área. Já no segundo tempo, o melhor do maestro. Seus lançamentos saíam com a facilidade de quem faz algo banal. Limpava os marcadores e abria clarões. A goleada por 5 a 2 se concretizou. Imortalizou o gênio.

Durante a comemoração, Didi mantinha a sua calma. Voz ouvida por todos no grupo, era ele quem consolava em seus ombros o menino Pelé. E a maior reverência viria do próprio Rei da Suécia, maravilhado com aquele jogador inigualável. Os jornais de todo o mundo contavam as proezas do camisa 6. “Na realidade, nunca o vi jogar tanto. Nos treinos e na concentração, ele parecia sempre calcular nosso poder de fogo e dos adversários. No campo, usava todo o seu futebol e tudo o que havia planejado para fazer nosso time impor o seu ritmo e chegar com determinação à vitória. Não há mais o que dizer: o crioulo foi o máximo nessa Copa”, analisou Nílton Santos, à biografia de Didi.

Ou como bem definiu Gabriel Hanot, o jornalista francês responsável por idealizar a Bola de Ouro e a Copa dos Campeões: “Não é muito comum aparecer um jogador com tais virtudes, em qualquer parte do mundo que seja. Didi é a um só tempo artista, malabarista e jogador de futebol. Um passe seu de 50 metros equivale a meio gol. E quando chuta, suas bolas fazem como o próprio mundo: giram, giram, giram… Este homem é, na verdade, uma pérola negra muito rara e valiosa, que todo amante do bom futebol deve procurar ver e relembrar para todo o sempre”. A profecia de Hanot ainda se cumprirá por muito tempo, muito além de 2001, ano em que o velho príncipe altivo partiu. Didi é inesquecível e sua obra, insubstituível.

* Além de revistas e jornais, a principal fonte para o texto foi a biografia “Didi, o gênio da Folha Seca”, de Péris Ribeiro. Fica a sugestão de leitura complementar, a quem quiser saber ainda mais sobre o Príncipe Etíope.


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