O sentimento desde a última semana é o de que a própria entidade que rege o futebol sul-americano desconhece a história do esporte no continente. A Conmebol negou essa memória ao decidir transferir a decisão da Copa Libertadores ao exterior. Um passado rico que deveria ser mais valorizado, não apenas pela confederação, mas também por clubes e pelos próprios torcedores que compõem esta paixão. Algo aprofundado pelo livro “Uma breve História do Futebol Sul-Americano”, de Tiago Silveira, publicado pela Editoria Anjo.

Ao longo de suas 365 páginas, a obra faz um breve apanhado sobre a expansão do futebol no mundo, mas se debruça mesmo naquilo que se viveu na América do Sul. Traz detalhes de todos os países, sem sequer negligenciar as Guianas e o Suriname. Conteúdo excepcional e diverso, que serve como uma excelente introdução a quem desejar uma visão ampla sobre o cenário continental. Para complementar, o prefácio é escrito por Douglas Ceconello, dono do blog Meia Encarnada e um dos mentores do antigo Impedimento.

O maior mérito de Tiago Silveira no livro, aliás, é o caráter enciclopedista que atribuiu ao material. Há uma compilação hercúlea de dados e curiosidades. Mais do que isso, o autor conta como o esporte se consolidou em cada um dos países, dando uma atenção especial aos primórdios, além de trazer outros fatos relevantes das décadas passadas. Fala dos episódios principais, mas também de pérolas pouco conhecidas. E aborda tanto o futebol de clubes quanto o de seleções, relembrando um punhado de competições já empoeiradas. Grande abrangência, que configura a riqueza da obra.

Abaixo, o prefácio do livro, escrito por Douglas Ceconello. A obra está disponível, inclusive, pelo sistema Kindle Unlimited na Amazon.

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A fogueira que ilumina as noites ao sul do Equador

Há um par de anos, em viagem a Buenos Aires, me ocorreu a única ideia possível quando estamos em outro país: assistir a um jogo de futebol qualquer. No caso, uma partida decisiva da terceira divisão. E assim me fui à cancha do Atlanta, tradicional clube do bairro de Villa Crespo, que disputava contra o Almagro uma vaga na segundona.

O jogo transcorreu morno como uma lágrima FUGAZ até seu desfecho, quando serviu de palco a um avassalador turbilhão de eventos. Um jogador se lesionou gravemente e precisou ser removido de ambulância, mas como se tratava do único veículo disponível para prestar socorro resultou necessário ESPERAR para que levasse o convalescente ao hospital e depois voltasse ao campo. Passados alguns minutos, era possível ouvir a sirene aproximando-se do estádio e a torcida elevando-se num murmúrio de comemoração.

A participação da ambulância era uma espécie de gatilho para mostrar que até ali tudo fora prólogo – festa boa acaba na delegacia ou no hospital, já diria algum Platão fronteiriço. Porque, depois que o bólido retornou de sua frenética incursão pela noite porteña, o atrevido time visitante marcou o gol que o classificava, levou o empate que o eliminava e voltou a ficar na frente do placar, desta vez de forma irreversível. Tudo isso em um recorte de mais ou menos dez minutos, suficiente para que os pacíficos velhos que apoiavam seus guarda-chuvas no muro da arquibancada, cordiais moradores de um bairro de classe média, assumissem feições bélicas.

A tensão varreu o acanhado estádio como uma impiedosa sudestada cuspida pelo Rio da Prata e, quando o jogo findava, o que era modorra transformou-se em Gomorra. Antes do apito final já se ouvia uma série de explosões na rua, pois a barra-brava bohemia investia contra a polícia para tentar o gol de empate. Outros torcedores, que até cinco minutos pareciam estar numa quermesse, agora jogavam MESAS de metal do segundo piso do estádio em direção às viaturas. Uma diminuta, mas contundente batalha campal havia se formado a poucos metros da emblemática Avenida Corrientes.

Desde o momento em que consegui ser expelido para a rua fiquei com a sensação de que naquela noite me foi apresentado um panorama abrangente e visceral de como se vive o futebol na América do Sul, em várias de suas representações. A cultura do estádio, a noção de pertencimento, o sentimento que emerge como deleite ou fúria, os descalabros sociais – tudo estava ali. O futebol enquanto uma força da natureza que se alimenta de sangue e do concreto – da arquibancada ou da urbe.

No século XIX, os britânicos acreditaram que estavam acendendo a centelha capitalista quando, na verdade, armavam a base de uma fogueira que dali em diante permaneceria incendiando com o voleio de suas labaredas as noites ao sul do Equador: não foram os empresários que acabaram eternizados, mas os marinheiros que jogavam uma pelota marota em cada porto que paravam, e assim disseminaram o mais entorpecente dos esportes pela maioria dos países sul-americanos.

O fogo se alastrou e o futebol passou a ser representado por diferentes matizes em cada esquina de Sudamerica, da verticalidade dos Andes ao horizonte inalcançável da Pampa, do sertão pernambucano aos lagos de Puerto Montt. Desde já muitas décadas apontar-lhe como “esporte” é quase um EUFEMISMO, pois o futebol, da forma como se vive em território sul-americano, escorre cultura, política e história. Sem perder seu caráter de celebração, evidente em cada liturgia mínima nos arredores destes coliseus pagãos de quinhentos ou 50 mil lugares.

Fruto de uma pesquisa de grosso calibre, evidentemente motivada pelo torpor que o futebol nos provoca desde memórias pré-colombianas, Breve História do Futebol Sul-Americano é uma obra fundamental para se compreender a forma como o futebol se dissipou pelos diversos pontos do continente.