David Wagner começou a Bundesliga balançando no cargo. O treinador vinha de 16 rodadas sem vitórias na edição anterior do campeonato e precisava de uma resposta imediata à frente dos Azuis Reais. A diretoria resolveu dar um crédito, considerando a maneira como o técnico começou bem a campanha passada, até o declínio, e também pela própria ligação com o clube que defendeu como jogador. Porém, duas derrotas dolorosas em 2020/21 bastaram para a demissão. Depois dos 8 a 0 para o Bayern de Munique na estreia e também dos 3 a 1 em casa diante do Werder Bremen, o Schalke destituiu Wagner neste domingo.

Colocar a crise do Schalke na conta de David Wagner não cola. O problema dos Azuis Reais é institucional, com uma gestão que deixou as contas no vermelho mesmo com um elenco deficiente e que perdeu diversos talentos de graça durante os últimos anos. O presidente Clemens Tönnies até caiu em junho, por uma série de casos deploráveis que iam de declarações racistas à exploração dos funcionários em seus negócios. No meio desse turbilhão, o Schalke precisava tocar seu futebol. E as coisas em campo também não contribuíam, tornando-se um fator a mais.

O Schalke, cabe lembrar, brigou pela classificação à Champions no início da última Bundesliga. Despencou em meio à espiral ocorrida no segundo turno, com uma série de derrotas e jogos nos quais o time sequer era capaz de balançar as redes. Foram apenas dez gols anotados desde o início da crise, aprofundando as dificuldades de um time que já não era defensivamente confiável. Wagner apresentou alguns recursos no início de seu trabalho, sobretudo pelo estilo direto e incisivo dos Azuis Reais. Algo que se perdeu desde então.

A aposta de que Wagner poderia encontrar novos caminhos, a partir da pré-temporada, até se justificava. Mas não se viu nas duas primeiras rodadas da Bundesliga, com uma equipe bastante exposta e apática. A troca de treinador indica a falta de planejamento, embora compreensível. David Wagner não parecia mais capaz de tirar algo do time, como esses dois jogos deixaram evidente. Porém, não vai ser apenas a mudança no comando técnico que deve provocar um milagre em Gelsenkirchen.

A questão ao redor do Schalke tem muito de postura e moral. A forma como o time desanimou contra o Bayern é emblemática, assim como se perdeu nos nervos diante do Werder Bremen. Mesmo sem a pressão da torcida nas arquibancadas, o ambiente não ajuda em nada e o maior trabalho na Veltins Arena tende a ser mental. Resta saber se isso será suficiente para uma temporada a salvo dos riscos de rebaixamento, com o time também expondo suas carências depois de uma janela de transferências sem grandes reforços. Não é elenco para cair, mas também não é para se esperar tanto. E, entre má fase técnica ou os problemas físicos, a equipe se perde bastante.

Não vai ser simples ao Schalke encontrar alguém que queira assumir essa bomba, considerando todas as dificuldades além do futebol em si e as próprias limitações no orçamento. Não há segurança ao redor. Ralf Rangnick até sinalizou que gostaria de trabalhar em Gelsenkirchen, mas não existe salvador da pátria. O problema dos Azuis Reais é estrutural. Que chegue alguém para evitar o rebaixamento nesta temporada, as mudanças precisam ser mais profundas para a recuperação da agremiação. O treinador é só a ponta do iceberg.