A Confederação Africana de Futebol iniciará a Copa Africana de Nações em completo caos político. Os problemas à entidade já eram consideráveis, sobretudo pela mudança de sede meses antes do início do torneio e pela patifaria ocorrida na decisão da Liga dos Campeões da África. Os entraves, no fim das contas, são apenas reflexos de uma entidade de má gestão arraigada. Presidente da CAF, o malgaxe Ahmad Ahmad chegou a ser detido na França durante o início do mês para averiguação, mas terminou solto, sem acusações formais. Já nesta quinta-feira, a Fifa anunciou sua intervenção. A secretária-geral Fatma Samoura irá assumir a confederação continental por seis meses, a partir de agosto, para colocar ordem na casa. Dois dias antes, a Fifa havia suspendido o apoio financeiro à CAF.

Nesta quarta-feira, o Comitê Executivo da CAF se reuniu no Cairo, às vésperas da Copa Africana de Nações. Segundo o comunicado oficial da Fifa, Ahmad Ahmad “propôs que a expertise da Fifa avaliasse a atual situação da confederação e ajudasse a acelerar a implementação do atual processo de reforma em prol da transparência e da eficiência”. A realidade, porém, não indica uma atitude de bom grado do presidente, pressionado pelas acusações e pelos claros entraves da CAF nos últimos meses. Além do mais, o próprio regimento da Fifa não permitiria uma intervenção direta em qualquer confederação, sendo a “solicitação” um jeitinho encontrado para realizar a ação. De qualquer maneira, o Comitê Executivo aprovou de forma unânime. Em ato sem precedentes, Fatma Samoura será a “Alta Comissária da Fifa para a África”, na tentativa de tirar a entidade regional da lama.

Samoura chegou à secretaria-geral da Fifa por seu currículo em âmbito internacional, com trabalhos reconhecidos na ONU e em empresas multinacionais. Liderou o Programa Mundial de Alimentação em seis países africanos, bem como possui doutorado em relações internacionais e comércio anterior. Agora, assume sua maior tarefa, após a participação na criticada gestão de Gianni Infantino. A senegalesa possuí peso para tomar as rédeas na ação que se planeja dentro da CAF. A maior dúvida se concentra sobre o trato que terá com os velhos cartolas da entidade, muitas vezes protegidos pelas autoridades políticas de suas nações.

Como parte do processo, haverá uma auditoria sobre a CAF. Além disso, Samoura terá o apoio de um grupo de especialistas e ainda trabalhará em parceria com Ahmad Ahmad. Entre suas incumbências, estará a supervisão da gestão da CAF; as garantias de organização profissional sobre as competições da CAF; e o apoio ao desenvolvimento do esporte no continente. A intervenção da secretária-geral é prevista para seis meses, mas pode ser renovada. A Fifa aprovou que ela acumule cargos, se mantendo também como secretária-geral durante o período.

Às vésperas da Copa Africana, a chegada de Samoura é importante por indicar um norte à CAF. Entretanto, isso não impede que o caos instaurado por Ahmad Ahmad também afete a competição no Egito. As fagulhas não precisam ser muito grandes e a própria arbitragem na decisão da Champions Africana demonstrou como a corrupção pode ser bem mais ampla, colocando os árbitros em xeque. Garantir a lisura do torneio é o básico, mas já um grande desafio ao momento conturbado do futebol africano. A figura do presidente atrapalha.

Ahmad Ahmad é investigado pelo Comitê de Ética da Fifa diante das várias alegações contra si, que vão desde a má gestão financeira a casos de assédio sexual. Em abril, o dirigente demitiu o secretário-geral da CAF, Amr Fahmy, após documentos internos terem vazado. Historicamente, a confederação africana sempre esteve envolvida em processos discutíveis. Contudo, consegue superar os precedentes e vira uma dor de cabeça a Infantino. O presidente da Fifa apoiou Ahmad Ahmad em sua campanha para chegar à CAF. Agora, teme que as penúrias na entidade africana respiguem com força na Suíça.