Imagine você que o melhor jogador de seu time receba uma proposta para sair. Deixará o bom momento do clube para ir a outro em séria crise, mas em uma divisão acima. E ganhando aproximadamente o triplo do salário. Trocando um contrato de cinco meses por outro de três temporadas, muito para que já tem 31 anos. Perda na certa? Não foi o que aconteceu no Brasil de Pelotas. Leandrão recusou a oferta financeiramente tentadora do Ceará para permanecer no Xavante. Um voto de confiança à grande campanha do time na Série C, candidato ao acesso. E também ao enorme carinho da apaixonada torcida rubro-negra, sobretudo à memória de um torcedor que ganhou seu coração.

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A chegada de Leandrão ao Bento de Freitas já tinha sido um grande negócio do clube. O atacante disputou o Campeonato Gaúcho pelo Novo Hamburgo e era cobiçado por outros dois clubes da Terceirona, Juventude e Caxias. Optou pelo Brasil e justificou a confiança com gols. Mesmo reserva no início da campanha, determinou uma virada sensacional por 3 a 1 contra o Londrina, saindo do banco e marcando três gols depois dos 43 minutos do segundo tempo. Valeu para ganhar a posição. Depois, ainda foi decisivo contra Madureira e Guarani. E, neste final de semana, marcou dois gols na virada por 3 a 2 sobre o Juventude fora de casa. Em nove jogos, Leandrão fez nove gols e assumiu a artilharia da Série C. Em média, balançou as redes uma vez a cada 48 minutos em campo, uma média excepcional.

Diante do ótimo momento, o interesse do Ceará não é nada surpreendente, com o time amargando a lanterna na Série B. Contudo, Leandrão preferiu seguir no Brasil, que assumiu a liderança do Grupo B da Terceirona. “Eu acreditei no trabalho do técnico, no grupo de jogadores, no clube e em mim também. Que eu possa continuar jogando tão bem e fique ainda mais valorizado no final do ano. Minha saída hoje seria muito boa financeiramente, ficaria tranquilo pelos próximos dois ou três anos, mas não sei se me arrependeria mais na frente. Já passei por situações parecidas e, com a experiência que eu tenho, acho que fiz a escolha certa”, declara o veterano.

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A recusa de Leandrão não significou um novo contrato com o Brasil. Ele segue acertado com o clube até o final do ano, apenas. Pesou bem mais a sua própria trajetória, quando trocou o ABC pela Ponte Preta em 2012 e não manteve a mesma fase. Agora, espera que o seu exemplo sirva também para fortalecer a campanha do Brasil. “A proposta pode vir para qualquer um. Mas, a partir de agora, acho que eles vão pensar diferente. Se eu tivesse tomado a decisão de sair, outro poderia pensar a mesma coisa. Eles também vão ter essa clareza de pensar e apostar no trabalho que eles vêm fazendo no Brasil”, analisa o centroavante.

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No entanto, a história não estaria sendo contada agora se não fosse a apaixonada torcida do Brasil. O fanatismo pelo Xavante não vem de hoje, e teve provas irrefutáveis nos últimos tempos, com o duelo contra o Flamengo na Copa do Brasil e com o acesso na Série D – que, pela mobilização da cidade na comemoração, valeu até mesmo o Prêmio Trivela 2015. E esse engajamento se repetiu, em forma de carinho com Leandrão e pedidos para que ficasse, especialmente nas redes sociais.

“A mobilização dos torcedores me espantou. Isso é o mais gratificante, a valorização e o carinho que você recebe. Essa manifestação me fez acreditar ainda mais no projeto que o Brasil tem de chegar até a Série B. É claro que em alguns clubes que eu passei, eu tive um carinho do torcedor. Mas você vê que aqui no Brasil é diferente. Eu e minha família ficamos felizes, mandaram mensagens até para a minha esposa. Já sabia da força dessa torcida, mas não imaginava, nunca tinha passado por isso”, ressalta.

Uma mensagem especial tocou Leandrão, recebida antes mesmo da oferta do Ceará. Torcedor Xavante há 30 anos por influência do pai, Marcelo Borges enviou uma carta ao artilheiro antes do jogo contra o Juventude. Justamente por aqueles três gols que marcou contra o Londrina. Muito mais emocionantes que supunha:

“Vou te contar algo que pode parecer pequeno, mas é bastante importante pra mim. Faz 30 anos que sou Xavante e isso graças a meu pai. Ele, faz alguns dias, teve um problema cardíaco e agora está na UTI, não vai sobreviver. O último jogo que vimos juntos foi o que tu, em um dia glorioso, fez três gols. Eu te escrevo, então, pra que tu saibas que não foi só um simples jogo. Naquele dia, tu fez com que eu tivesse com meu pai a última alegria dele com o Brasil! Ele gritava teu nome, e acreditava no nosso Xavante! Parece uma história boba, mas queria te agradecer pela entrega e pela felicidade que você deu a mim e ao meu velho, que deve assistir aos jogos do céu dentro das próximas horas!”.

Celso Borges, de fato, não resistiu. Fez Leandrão declarar luto. E também certamente pesou na escolha em ficar no Bento de Freitas. “Não imaginava, porém, que em pouco tempo pudesse corresponder com alegrias a eles. Reconhecimento, salários, estruturas, tudo isso é importante para um atleta, mas nada é maior do que o carinho do torcedor”, escreveu em seu Instagram. Agora, honrar a memória da família será uma missão para o artilheiro.

Em entrevista à Trivela, Leandrão ainda reafirmou o peso que a carta teve em sua própria vida: “Eu me coloquei no lugar dele e me imaginei naquela situação. Isso faz a gente parar e perceber o quanto é importante para as pessoas, o quanto um jogador de futebol representa. Eu conversei com o Marcelo depois, desejei conforto a ele e a família. Espero que ele esteja no estádio segunda e que a gente vença, porque será um jogo difícil. A responsabilidade aumenta depois de ficar, mas estou confiante e tenho tranquilidade”. Na próxima segunda, o Brasil recebe a Portuguesa no Bento de Freitas, tentando fechar a 11ª rodada na liderança do Grupo B.

Pode até ser que o acesso à Série B não venha. De qualquer forma, o clube já ganhou novos ídolos. Leandrão, Celso e Marcelo, pela forma como representam a paixão xavante, mais valiosa do que qualquer taça.

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A sugestão da pauta veio do amigo Daniel Cassol, jornalista e dono do blog Futebol e Outras Guerras. Valeu!