Capacidade técnica e organização. Dois pré-requisitos para qualquer time que quer se candidatar a títulos. Mas o que prepondera quando duas equipes de bom nível técnico travam uma batalha parelha, ataque contra defesa? O jogo no Beira-Rio viveu uma situação dessas. E preponderou a personalidade do Internacional, para buscar a classificação nas semifinais. Nos mais diferentes sentidos: pela maestria de D’Alessandro, pelas escolhas de Diego Aguirre, pelo comportamento de Valdívia e Rodrigo Dourado apesar da idade. Protagonistas em uma classificação suada, mas que veio graças à vitória por 2 a 0 em Porto Alegre, revertendo o 1 a 0 do Independiente do Santa Fe em Bogotá.

A classificação do Inter teve uma pitada de sorte no gol contra, assim como deu margem à contestação por uma decisão da arbitragem que se tornou capital. Não é isso, porém, que tira os méritos dos colorados pela maneira como se portou no Beira-Rio. E também por sua superioridade. As duas expulsões do outro lado facilitaram o caminho, mas o time da casa bem que corria o risco de não aproveitá-las e jogar a sorte nos pênaltis. Não precisaram de tanto, com o gol cardíaco que saiu aos 42 do segundo tempo.

Os colorados já se acostumaram com as escolhas nem sempre justificáveis de Diego Aguirre no time titular. Quase sempre, elas dão certo. Mas o treinador teria que se explicar bastante pela opção de deixar Valdívia no banco, com o retorno de Nilmar ao 11 inicial, especialmente diante da excelente fase vivida pelo garoto. Sorte do treinador que não houve sequer tempo para chiados das arquibancadas. Em outra marca de seu trabalho, o forte início de jogo, o Inter abriu o placar logo aos dois minutos. Em um escanteio cobrado por D’Alessandro, Eduardo Sasha desviou e Juan completou na primeira trave, estufando as redes.

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Até parecia providencial. Porque Sasha não fez muito mais do que aquilo enquanto esteve em campo. Logo aos 15 minutos, o jovem sentiu lesão e precisou dar lugar a Valdívia. Justo ele, que também não demorou muito para mostrar que as desconfianças sobre a escalação tinham fundamento. Em uma partida de muita imposição dos dois lados, ainda que sem tantas chances de gol, o camisa 29 aparecia muito bem no ataque do Inter.

A partida seguia com algumas faltas duras, ataques apostando mais na força do que na técnica, defesas bem montadas e raros sustos. Dependente da lucidez de Omar Pérez, o Santa Fe criava muito pouco, especialmente com o meio-campo trancado de maneira excelente por Rodrigo Dourado e Aránguiz. E, se passasse dos cabeças de área, Juan se mantinha soberano na zaga, especialmente nas jogadas aéreas exploradas pelas pontas. Enquanto isso, do outro lado, o Internacional corria muito, mas não pensava tanto na criação. Pouco para romper a solidez defensiva dos colombianos.

No segundo tempo, o nível técnico do jogo melhorou consideravelmente. O Santa Fe começou assustando em sua principal arma, a bola que parte dos pés de Pérez. Durou pouco tempo, até que o Inter tomasse as rédeas da partida. Com Valdívia e D’Alessandro chamando a responsabilidade, os colorados começaram a trabalhar mais a bola e encontrar as brechas, especialmente nas costas dos laterais. A partir de então, quem cresceu foi o goleiro Castellanos. Reserva até o ano passado, teve a responsabilidade de substituir Camilo Vargas, reserva da seleção colombiana na Copa de 2014, que fora vendido ao Atlético Nacional. Mostrou bastante o seu valor nesta quarta.

Quando o Inter insistia no jogo aéreo, o Santa Fe se safava. Mas as tabelinhas é que perturbavam os cardenales, com Valdívia exigindo a primeira grande defesa de Castellanos, após enfiada de Lisandro López. Além disso, o goleiro também voou para espalmar boa falta cobrada por D’Alessandro. E a situação dos colombianos piorou aos 22 minutos. Em um encontrão com Nilmar, que os visitantes contestaram a marcação, Mosquera recebeu o segundo amarelo e foi expulso. Só que os colorados também perderam o atacante no lance.

A entrada de Alex deixava o jogo do Internacional bem mais claro: com os colombianos cometendo muitas faltas e afastando várias bolas para a linha de fundo, melhorar a qualidade no passe era um caminho. Quando o time de Diego Aguirre tentava correr um pouco mais, Valdívia aparecia. Enquanto isso, o Santa Fe demonstrava poucas alternativas ofensivas. Omar Pérez pouco aparecia, enquanto as arrancadas de seus companheiros aconteciam a esmo, sem incomodar Alisson.

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Castellanos permanecia segurando o resultado, em uma sequência de escanteios do Inter. E o Santa Fe acuaria ainda mais aos 37, Anchico também recebeu o segundo amarelo. Com dois a mais, Aguirre mandou a campo Rafael Moura. Em partes, iluminado diante da classificação do Inter. Em um lance contestado pelos colombianos, o árbitro marcou escanteio equivocadamente. Jogada fatal, aos 42 minutos. D’Alessandro cobrou e, embora o He-Man tenha comemorado demais, a zaga do Santa Fe mandou contra as próprias redes. O gol que os colorados tanto precisavam, e que tinham obrigação de anotar naquelas condições.

A partir de então, o jogo estava morto. Omar Pérez saiu pouco antes e a bola parada não tinha a mesma efetividade. Já do outro lado, com a zaga se abrindo, Lisandro López só não fez o terceiro por pura incompetência, em um lance cara a cara com Castellanos. Até tirou a bola do goleiro, mas parou na trave e mandou para fora logo depois. Não fez falta. Ainda que pudesse diminuir as reclamações do Santa Fe, que partiu para cima do árbitro no apito final. Logo depois, a vaga nas semifinais valeu uma bela festa nas arquibancadas do Beira-Rio, com 44 mil presentes, no maior público desde a reforma do estádio.

Classificado, o Inter terá boas semanas até o fim da Copa América para se preparar ao Tigres. Neste momento, de qualquer maneira, os colorados mostram suas credenciais para ao conquista do terceiro título continental. Passar por um adversário cascudo como o Santa Fe, que tem seu jogo muito bem desenhado, tem grandes méritos. Ainda que o time de Diego Aguirre tenha deixado a desejar em alguns pontos.

Falta segurança do Inter nas bolas altas, o que atrapalhou no jogo em Bogotá. Da mesma forma que os problemas na organização fizeram a equipe perder tempo durante os 45 minutos iniciais. Ao menos, a personalidade de partir para cima nos momentos decisivos sobra aos colorados, o que valeu demais nesta quarta. Com uma pitada de sorte e com a ajuda das circunstâncias, permitiu a passagem às semifinais.