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Há 20 anos, o Deportivo de La Coruña atravessava o momento mais importante de sua história. O timaço encabeçado por Djalminha e Mauro Silva arrasava seus adversários no Campeonato Espanhol, prestes a conquistar seu primeiro (e ainda único) título nacional na Liga. As memórias seguem vivas no Estádio Riazor, mas parecem um tanto quanto adormecidas, quando o presente traz tantos motivos a se preocupar. O Depor atravessa agora a pior crise de sua história. Afundado na segunda divisão, passou 12 rodadas consecutivas na lanterna e sofre um risco palpável de cair à terceirona após 45 anos. Nas últimas três rodadas, ao menos, os branquiazuis emendaram três vitórias consecutivas para encurtar as distâncias. Deixaram a última colocação e criaram uma pontinha de esperança em meio ao caos.

Rebaixado na elite há duas temporadas, quando ainda tentou uma arrancada no final, o Deportivo quase subiu na última campanha. Os galegos alcançaram os playoffs da segundona em 2018/19 e perderam a vaga com uma virada inacreditável do Mallorca na final da repescagem. O Depor havia saído com o triunfo por 2 a 0 na partida de ida, dentro do Riazor, e cedeu os 3 a 0 na volta, durante a visita às Ilhas Baleares. E o ambiente na Galícia se degradava cada vez mais. Os branquiazuis se encolheram como raríssimos clubes ao longo da década.

Augusto César Lendoiro foi o presidente que elevou o Deportivo como uma potência nacional a partir dos anos 1990, mas também aumentou exorbitantemente as dívidas e deixou um rombo financeiro difícil de ser contornado a partir desta década. Lá se vão 11 anos desde a última campanha do Depor na parte de cima da tabela do Campeonato Espanhol, bem como da última participação continental na Copa da Uefa. Sofrendo com seus débitos, o clube viveu uma gangorra a partir do rebaixamento em 2011. Desde então, são três descensos à segunda divisão, dois acessos à primeira e três salvações na elite que vieram, no máximo, na penúltima rodada da Liga.

Após 25 anos, a era Lendoiro terminou no Riazor em 2014, com o Deportivo à beira do precipício. Um ano antes, o clube cogitou entrar em concordata e só não foi rebaixado à terceirona porque quitou débitos de €10 milhões com os jogadores no último dia possível. Naquele momento, as dívidas chegavam na casa dos €160 milhões (um recorde na Espanha) e o temor só não era maior pela postura benevolente da justiça espanhola, que costuma aliviar bastante aos clubes de futebol do país.

O empresário Tino Fernández, dono de 6% das ações do Deportivo, substituiu o antigo manda-chuva a partir de 2014. Ele até ia conseguindo contornar a crise financeira, reduzindo as dívidas para €80 milhões, mas os maus resultados dentro de campo e os atritos com a torcida provocaram sua queda em maio de 2019 – meses depois de vencer a reeleição e com cinco anos de mandato pela frente. Mesmo assim, Fernández conseguiu colocar um sucessor que mantivesse sua política. A insatisfação no Riazor prevalecia sob as ordens do ex-defensor Paco Zas – que atuou pelo clube justamente nos tempos de vacas magras e não tinha experiências prévias como dirigente.

Na atual temporada, o Deportivo fez um planejamento arriscado ao desmanchar o elenco que perdeu para o Mallorca nos playoffs e trazer uma penca de reposições. Ao todo, apenas oito atletas permaneceram no grupo, com 17 adições para 2019/20 – a maioria absoluta, contratada por empréstimo. Entre estes reforços, alguns nomes um pouco mais rodados, como o atacante Samuele Longo, o ponta Sasa Jovanovic, o volante Gaku Shibasaki e o zagueiro Vasilios Lampropoulos. Todavia, se o lamaçal econômico mantém o Depor em uma situação complicada, pior ainda quando as coisas não acontecem em campo e a equipe protagoniza um verdadeiro fiasco na segundona.

O Deportivo até começou com vitória, ao derrotar o Oviedo no Riazor durante a primeira rodada. A partir de então, veio uma série de três derrotas, antes de quatro empates consecutivos. A situação claudicante ficava escancarada, e piorava com a ansiedade para retomar os triunfos. Alternando tropeços, os galegos não sabiam mais como vencer. Passaram 19 partidas consecutivas em jejum, engolindo sobretudo dolorosas derrotas dentro de sua casa. Extremamente abatidos, os jogadores não davam sinais de reação e sucumbiam facilmente aos adversários. O elenco frágil e desequilibrado não ajudava. Ao mesmo tempo, a cobrança da torcida aumentou, pedindo a cabeça da diretoria.

O Deportivo demitiu dois técnicos na temporada. Juan Antonio Anquela durou até a décima rodada, quando o time ainda não tinha chegado à lanterna, e Luis César Sampedro passou os 11 compromissos seguintes na última colocação. A bomba estourou de vez em dezembro. A derrota para o Zaragoza em casa, que mantinha o time com míseros 12 pontos em 19 rodadas, a oito de sair do Z-4, culminou na renúncia do Conselho de Administração. Paco Zas abria o caminho a novos dirigentes em janeiro. Além disso, também ficava claro que Carmelo del Pozo não ficaria. O diretor esportivo, criticado desde a temporada passada, tornou-se um pária após a renovação mal feita. Mesmo com 17 reforços, algumas posições seguiam desguarnecidas.

E, em meio ao esforço para mudar a diretoria, o Deportivo passou a viver um pequeno milagre. Sampedro encerrou o jejum de vitórias em 20 de dezembro, quando derrotou o Tenerife com um gol aos 50 do segundo tempo no Riazor. O triunfo não foi suficiente para manter o treinador, mas Fernando Vázquez aproveitou o embalo. O terceiro comandante do Depor na segundona venceu as duas partidas seguintes, contra Numancia e Racing de Santander. A vitória desta quinta na Galícia, aliás, também seria emblemática. O placar de 2 a 1 nasceu a partir de uma virada, com gols de dois reforços trazidos já nesta janela de inverno. O resultado tirou os galegos da lanterna e relegou os próprios racinguistas à última colocação.

A distância para o Deportivo sair da zona de rebaixamento agora é pequena. Com a arrancada recente, os branquiazuis estão a um ponto de respirar fora do Z-4. A fé será testada no próximo domingo, quando a equipe recebe o líder Cádiz no Riazor. Mas, sem muitas dúvidas, os céus começam a se abrir em La Coruña. O diretor Carmelo del Pozzo teve seu contrato rescindo nessa semana e foi substituído por Richard Barral, seu antecessor, que havia abandonado o cargo em janeiro de 2018 por desentendimentos com o presidente Fernández. O mercado de inverno permite buscar soluções aos problemas da equipe, com a injeção de dinheiro concedida por um dos principais credores. E as novas eleições prometem arejar os corredores do clube.

Em sua segunda passagem pelo Riazor, o técnico Fernando Vázquez se torna o timoneiro ao menos por ora. Nascido na cidade, ele foi o responsável por conquistar o acesso à primeira divisão em 2013/14, mas acabou demitido na pré-temporada por problemas com seus superiores. Segue com moral junto à torcida e tem o apoio das arquibancadas. Mesmo com uma encrenca nas mãos durante esta volta, já conseguiu melhorar o rendimento da defesa (o calcanhar de Aquiles até então) e arrancou os resultados necessários para aliviar o sufoco. Além disso, também começa a renovar a confiança de seus jogadores.

Os dois reforços do momento são importantes. O experiente Emre Çolak voltou ao Deportivo após um ano e meio longe, aceitando até mesmo um salário mais baixo para tentar salvar o clube e declarando se sentir em casa. Já ao ataque, Sabin Merino veio graças à boa relação com a diretoria do Leganés e parece disposto a recuperar certa reputação que tinha em seus tempos de Athletic Bilbao. Também ajuda o retorno de Gaku Shibasaki, que se recuperou de lesão e é um jogador com talento suficiente para orquestrar o meio-campo. Os três devem ser protagonistas ao lado do capitão Álex Bergantiños, remanescente de tempos bem mais relevantes do Depor, e do goleiro Dani Giménez.

E, se o time começa a corresponder dentro de campo, os efeitos positivos tendem a se refletir em outros cantos. Em especial, em uma torcida cansada das desilusões e furiosa com os desmandos, mas ainda assim fanática. Nesta quinta, 18,6 mil estiveram presentes no Riazor, o melhor público desde a estreia e mais que o dobro dos 8,3 mil fiéis que tinham visto a seca de vitórias acabar contra o Tenerife num sábado. Resta se agarrar às esperanças, diante de um cenário que segue sem alentar muito. A caminhada do Deportivo será bastante longa. De qualquer forma, um rebaixamento à semi-profissional terceira divisão poderia significar a falência aos branquiazuis ou, no mínimo, um buraco muito mais fundo.

O futuro dependerá bastante de quais serão os próximos passos. O novo conselho administrativo assumiu nesta semana e o presidente do momento, o empresário Fernando Vidal, foca sua estratégia nas dívidas com os bancos. É uma importante maneira de pensar no longo prazo. Dentro de campo, o Deportivo precisa se concentrar em evitar o risco imediato, para tentar se restabelecer na segunda divisão – tendo consciência das dificuldades enfrentadas por outros clubes tradicionais do país que vagam por ali. A partir de então, superando o legado penoso do Super Depor nos cofres, será possível mirar uma nova ascensão. Mas, neste momento, a mera sobrevivência é um afago ao sofrimento no Riazor.