O nome de Harry Kane é imprescindível quando se reconta o sucesso do Tottenham nos últimos anos. E deverá ser assim por muito tempo, ao se olhar para um período que ainda não é vitorioso aos Spurs, mas se mostra extremamente consistente. O centroavante protagoniza o time por seus gols e pela maneira como é fundamental ao seu funcionamento coletivo. Os números sempre vão referendar o camisa 10. Porém, é preciso ter consciência que outros nomes marcantes no norte de Londres também constroem a história da agremiação. Algo que se evidenciou durante a excelente vitória sobre o Manchester City na Liga dos Campeões.

A lesão de Kane foi motivo de grande preocupação ao Tottenham e o próprio time pareceu sentir a notícia, ao ver seu craque saindo diretamente aos vestiários, com dores no tornozelo durante o início do segundo tempo. Em meados desta temporada, a equipe até se virou bem sem o artilheiro, quando ele também havia contundido o tornozelo, mas sua ausência força outro tipo de comportamento do ataque. De qualquer maneira, os londrinos têm outros caminhos para resolver seus problemas, independentemente das limitações do elenco. E resolveram rapidamente a questão, o que deu a vantagem sobre o City nesta terça.

Antes mesmo que Kane saísse contundido, o primeiro protagonista a ascender foi Hugo Lloris. Apesar da grande Copa do Mundo e dos anos em alto nível, o francês costuma ser um goleiro um tanto quanto subestimado. Os torcedores do Tottenham sabem o seu valor e mais uma vez puderam agradecê-lo, quando a situação poderia ter se tornado extremamente difícil. Logo durante os primeiros minutos, que Sergio Agüero não tenha cobrado bem seu pênalti, há também muitos méritos do camisa 1. Agigantou-se diante do matador adversário e evitou uma complicação enorme aos Spurs.

Já na segunda etapa, o herói foi Son Heung-min. Jogadores como Christian Eriksen e Dele Alli podem até ser mais badalados, mas, quando o Tottenham realmente precisa, o sul-coreano é quem mais se aproxima de Kane por seu poder de decisão. Se há um homem no qual a torcida confia ante a ausência de seu principal craque, este é o camisa 7. E ele respalda este respeito sempre que possível, como foi nesta terça-feira. O ponta causou preocupação, ao sentir dores e precisar de atendimento médico em meados do segundo tempo. Minutos depois, voltou com tudo para resolver o jogo. Combinou oportunismo ao receber a enfiada de bola, vontade para não permitir que ela saísse, qualidade para limpar a marcação e capacidade para definir contra Ederson. Explodiu na comemoração de gol, merecida por sua persistência. Persistência, aliás, que faz de Son daqueles caras necessários em qualquer time. Deixa em campo cada gota de suor, com um talento que amplifica essa entrega. Também é um ídolo e um propenso símbolo a esta era dos Spurs.

E se há alguém capaz de liderar este processo, Mauricio Pochettino merece os seus créditos. Nem sempre os resultados são os melhores, mas, até pelas limitações nos investimentos, não há dúvidas que o argentino supera limites neste seu trabalho com o Tottenham. Desta vez, aproveitando-se também dos equívocos do adversário, venceu o jogo de estratégia contra Pep Guardiola. No duelo entre dois times propensos ao ataque, ter a segurança na defesa fez a diferença. A eficácia preponderou aos Spurs, seja pela superioridade numérica na maioria absoluta das jogadas atrás, seja pela intensidade da pressão sem a bola na frente. Ideias cumpridas à risca por um conjunto sólido, com menções especiais à fortaleza de Toby Alderweireld no miolo da zaga e o embate proporcionado pelos cabeças de área da vez, Harry Winks e Moussa Sissoko. Soldados nas trincheiras, foram outros heróis.

Por fim, vale destacar ainda a torcida do Tottenham. Por mais que o time tenha se acostumado a jogar em Wembley, aquela não era a sua casa e muito menos oferecia o melhor espaço para os torcedores proporcionarem o seu calor. As dificuldades para lotar o gigante e as distâncias do campo dificultavam uma atmosfera mais calorosa. Um jogo de Champions bastou para os Spurs apresentarem o potencial do substituto de White Hart Lane, com uma linda recepção e uma festa marcante ao longo da vitória. Quem sabe, outro protagonista que chega para mudar os rumos do clube no norte de Londres.