O Bolton Wanderers atravessa a maior crise de sua história. Durante a última temporada, o clube terminou rebaixado à terceira divisão do Campeonato Inglês, embora seus problemas fossem bem mais profundos que isso. O centro de treinamentos foi fechado temporariamente, alguns jogos estiveram sob ameaça por falta de certificado de segurança do estádio e os jogadores entraram em greve pelos salários atrasados, resultando em derrota por W.O. ao final da campanha. Em meio às tentativas de vender o clube, os Whites precisaram decretar sua bancarrota em maio. E, diante das péssimas condições, a mera presença em campo na League One já se torna um ato heroico. O empate por 0 a 0 contra o Coventry City neste sábado marcou as dificuldades enfrentadas internamente.

Por conta de uma dívida de £1,2 milhão em impostos, o Bolton entrou em administração externa a partir de maio. A questão gerou uma punição de 12 pontos negativos logo de cara na terceirona. Já o elenco, sem receber salários, se desmanchou gradativamente durante a pré-temporada. Até denúncia de que o CT estava sem água potável surgiu. Vários jogadores deixaram a agremiação a custo zero e os Whites tinham apenas sete jogadores inscritos na semana anterior à estreia na League One. Assim, precisaram montar um time cheio de garotos da base para encarar o Wycombe. E a própria derrota por 2 a 0 já era um lucro, considerando que o duelo correu sérios riscos de ser cancelado diante das dificuldades do Bolton em provar sua viabilidade financeira. Pois os entraves se repetiram antes do embate com o Coventry.

Desta vez, o time atuaria no Estádio Universidade de Bolton e, ante o risco de outro cancelamento, os ingressos só começaram a ser vendidos 28 horas antes do pontapé inicial. Mesmo assim, nove mil torcedores compraram os bilhetes e estiveram presentes para oferecer seu apoio. Já em campo, o time escalado tinha média de 19 anos de idade. O capitão não passava dos 20, enquanto quatro de seus companheiros tinham 17. Surpreendentemente, conseguiram segurar o resultado. O empate por 0 a 0 está distante de resolver a situação, mas garantiu uma ponta de orgulho. Os Whites não estão mais na lanterna. Com -11 pontos, aparecem acima do Bury, penalizado por insolvência.

A torcida do Bolton sabe que dificilmente o clube escapará do rebaixamento nesta temporada. A principal preocupação é colocar ordem na casa e contornar as dívidas, diante de um intrincado processo de venda. O grupo Football Ventures assumiria o comando no lugar de Ken Anderson, dono do clube. Porém, a compra praticamente fechada foi barrada pela justiça na última quinta-feira. Laurence Bassini, antigo dono do Watford e que tentou adquirir o Bolton em abril, foi o responsável pelo pedido, alegando ter prioridade no negócio. A própria Football League criticou a medida judicial e afirmou que é necessário ter um compromisso com o longo prazo, o que seria oferecido pela Football Ventures após longa negociação. Bassini havia sido negado anteriormente por não dar garantias financeiras suficientes.

“O futebol ficou em segundo plano, você nem pensa em qual jogo vai disputar ou o que vai acontecer. Todas as notícias que você busca são sobre o que está acontecendo com a administração. Você se esquece completamente das partidas. A dúvida é se o clube vai continuar existindo, não se vai entrar em campo ou qual será a pontuação. É um pensamento realmente incomum, de que você não terá um estádio para ir aos sábados, de que você não terá um clube para apoiar. Essa é a nossa principal preocupação. O que passa pela sua cabeça é que parte de sua própria identidade pode desaparecer com o fim do clube”, declarou Alec Rigby, torcedor do Bolton, à BBC.

Já o técnico Phil Parkinson segue à frente do Bolton desde 2016, mesmo passando os últimos cinco meses sem receber salários. Espera que os entraves no comando tenham uma solução em breve. “Cabe às pessoas nos bastidores fazerem sua parte. Chega de brincadeiras. Resolvam essa bagunça, porque todo mundo está absolutamente doente e cansado disso. Senhor Bassini, nos deixe sozinhos. Deixe esse grande clube em paz para continuar construindo o seu futuro. Mesmo sem recebermos nossos salários, todos nós, funcionários, fazemos nossa parte. Agora as pessoas na diretoria, os administradores, os novos compradores, quem quer que seja, eles precisam resolver essa confusão rapidamente”, disse, à Rádio BBC Manchester.

O Bolton precisa viver dia após dia, enquanto não encontra uma solução para o impasse. A venda do clube é fundamental para pensar em longo prazo e, ao menos, evitar a extinção da agremiação. Neste momento, no entanto, não resta outra alternativa a não ser esperar. E, com as parcas armas em mãos, lutar por um pouco de dignidade. Um empate sem gols já vira um resultado gigantesco, neste cenário.

Você sabia que a Trivela agora está no YouTube? Inscreva-se no canal e nos acompanhe por mais um meio e em mais um formato! Confira o vídeo mais recente: