Competir com o Paris Saint-Germain pelo topo da Ligue 1 sempre foi o objetivo do Monaco, desde que Dmitry Rybolovlev se tornou acionista majoritário do clube, em dezembro de 2011. Os investimentos jorraram, os monegascos retornaram à primeira divisão e ameaçaram os parisienses em seu primeiro ano de volta à elite. Contudo, também enfrentaram suas dificuldades. O divórcio bilionário do magnata russo brecou alguns planos e deixou os pés dos alvirrubros no chão. Leonardo Jardim veio para encabeçar um projeto ainda endinheirado, mas não tão megalomaníaco como o visto no PSG. Apostando em jogadores menos badalados, principalmente em jovens, o clube buscaria seu lugar ao sol.

VEJA TAMBÉM: Avassalador e irrepreensível: Monaco 2016/17, um campeão que ficará na memória

Durante as duas primeiras campanhas sob as ordens do português, até deu para se classificar à Liga dos Campeões, mas não para competir com a força hegemônica da França. Além disso, o Monaco passou a lidar com as investidas suntuosas por seus melhores jogadores. Saíram James Rodríguez, Anthony Martial, Geoffrey Kondogbia, Layvin Kurzawa, Yannick Ferreira-Carrasco, Aymen Abdennour. Nem de longe chegaram jogadores tão caros. Independentemente disso, os alvirrubros se reinventaram. Revolucionaram, derrubando o reinado de Paris.

O Monaco conquistou a Ligue 1 2016/17 de maneira irrepreensível. De um jeito que não se apagará tão fácil na memória de quem viu esse time jogar, primando pela intensidade e pela ofensividade. Superou não só o PSG nesta temporada, mas também o aproveitamento do PSG na maioria de suas campanhas do tetra. Acumulou vitórias, goleadas, verdadeiros shows. Inclusive na Liga dos Campeões, caindo apenas nas semifinais para a fortíssima Juventus. Mas o que mudou no Estádio Louis II para tamanha revolução? É o que tentamos explicar a partir dos 10 tópicos abaixo. Dez pontos-chave para a façanha dos monegascos.

O voto de confiança a Leonardo Jardim

Leonardo Jardim, técnico do Monaco (Foto: Getty Images)

Se hoje aparece entre os técnicos mais desejados da Europa, Leonardo Jardim vivia um momento bastante diferente na última temporada. A permanência do português no Estádio Louis II chegou a ser colocada em dúvida. Levado ao principado em 2014, após dirigir Olympiacos e Sporting, o comandante por duas vezes terminou na terceira posição da Ligue 1. E sua segunda temporada acabou de forma turbulenta, perdendo a vice-liderança (e a vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões) para o Lyon, com direito a uma vexatória derrota por 6 a 1 para os Gones na penúltima rodada. Apesar dos rumores, a diretoria respaldou o treinador. O que não demoraria a se provar um acerto gigantesco.

O mercado certeiro para a defesa

glik

Na temporada passada, o Monaco gastou bastante no mercado de transferências. E o investimento pesado de € 96 milhões gerou pouco retorno. Vários dos reforços não se encaixaram, e alguns deles até já deixaram o principado. No início desta campanha, os alvirrubros foram mais contidos nos negócios. Desembolsaram metade do montante em agosto, acreditando em três nomes principais: Kamil Glik, Benjamin Mendy e Djibril Sidibé – custando juntos € 39 milhões. O trio tornou o sistema defensivo bem mais sólido, acompanhado por Jemerson, outro relativamente novo no elenco, contratado em janeiro de 2016. Atrás deles, o goleiro Danijel Subasic, homem de confiança desde os tempos de segunda divisão. A dupla de zaga teve os seus momentos de oscilação, sobretudo na Liga dos Campeões, mas em consequência de um estilo de jogo ofensivo do time. Já os laterais tornaram as investidas pelos lados um dos trunfos da equipe, principalmente pela esquerda. Não à toa, acabaram convocados à seleção principal da França.

Fabinho, o protagonista redescoberto

fabinho

Com as compras para as laterais, Leonardo Jardim pôde concretizar uma mudança em suas peças que já vinha ensaiando anteriormente. Fabinho deixou de jogar na defesa, transformando definitivamente em um meio-campista. Pois o volante conseguiu se sobressair ainda mais na nova função, se tornando o grande motor da equipe. Mantinha a consistência à frente da zaga, enquanto acelerava na saída de jogo e oferecia muita precisão nos passes. O estilo vertical do Monaco passou a depender bastante da eficiência do brasileiro. Pois ele voou nos últimos meses, também pela resistência, sendo o terceiro com mais minutos em campo na Ligue 1. Ao seu lado na maior parte dos jogos, Tiemoué Bakayoko também auxiliou demais nessa mudança.

Os meias que deslancharam

Bernardo Silva, um dos destaques do Monaco (Foto: Getty Images)

Bernardo Silva e Thomas Lemar foram essenciais para o sucesso do Monaco. Dois meias de enorme capacidade no ataque, mas que não deixaram de se entregar sem a bola. Se o time funciona tão bem, a versatilidade de ambos ajuda a explicar. O português, aposta alta vinda do Benfica em 2015, deslumbrou principalmente por suas jogadas de efeito, os dribles estonteante em curtos espaços. Já o francês, mais direto em suas ações, afunilou e abriu espaços para as subidas de Mendy. Grande acerto, após chegar sem grande badalação do Caen, por apenas €4 milhões.

A redescoberta de Falcao García

falcao-garcia

El Tigre parecia condenado à decadência. De um bom período no Monaco, passou a ser perseguido pelas lesões. Ainda assim, ganhou a chance de jogar na Inglaterra. Fracassou no Manchester United e no Chelsea. Parecia que faltava confiança, uma virtude tão importante a um homem que vive de gols. E sua atitude mudou completamente no retorno ao principado. Com um posicionamento impecável e muita precisão nos arremates, desandou a marcar gols, especialmente no primeiro turno, quando a equipe arrancou à liderança.

A descoberta de Kylian Mbappé

mbappe

Certamente os monegascos tinham consciência do talento que surgia nas categorias de base. Mas tamanho impacto de Mbappé não podia ser previsto. Chegando devagar no time, o garoto então de 17 anos passou a ser utilizado com frequência no primeiro turno. Até que ninguém duvidasse mais de seu potencial. A partir de fevereiro, conquistou a posição no 11 inicial, anotando 18 gols desde então. A frieza impressiona, assim como tantas outras virtudes – a inteligência para ocupar espaços, a aceleração, a qualidade técnica. Quebrou recordes de precocidade de outras lendas, como Thierry Henry. Firmou-se como um verdadeiro fenômeno.

Os abnegados do elenco

germain

Valère Germain resume melhor do que qualquer outro o espírito que impera no Monaco. O atacante é o membro mais antigo do elenco, alçado da base em 2011, quando os alvirrubros naufragaram em sua primeira tentativa de voltar à Ligue 1. Entrega-se como poucos e não demonstra qualquer vaidade. E, mesmo menos badalado que Falcao, mesmo perdendo a posição para Mbappé, não deixou de ser utilíssimo. Somou minutos em campo e acabou premiado justamente com o gol do título. Como ele, outros atletas souberam muito bem integrar o elenco, abrindo o leque de possibilidades a Leonardo Jardim. Neste sentido, João Moutinho também ajudou demais, saindo do banco em boa parte das vezes. Guido Carrillo, Nabil Dirar, Gabriel Boschilia e Andrea Raggi engrossam a lista de “peões” funcionais aos monegascos.

A mudança tática

monaco

Durante as suas duas primeiras temporadas no Louis II, Leonardo Jardim variou entre o 4-2-3-1 e o 4-3-3. Desta vez, contudo, resolveu alterar o padrão da equipe a partir dos jogadores à disposição. Com pontas empenhados para recompor na marcação e opções variadas ao ataque, o comandante passou a apostar no 4-4-2. E a mudança potencializou o coletivo monegasco. As linhas compactas reforçavam a marcação. Além disso, a liberdade aos homens de frente contribuiu para o jogo vertical e de muita velocidade, com os quatro homens de lado se lançando à frente, bem como Fabinho como elemento extra.

A precisão e as bolas paradas

Moutinho, Fabinho e Bernardo Silva comemoram classificação (Foto: Getty Images)

O Monaco possui um dos três melhores ataques das grandes ligas europeias, igualado com o Real Madrid e só atrás do Barcelona. Ainda assim, não está nem entre os 20 que mais finalizam nos cinco principais campeonatos. A diferença? A precisão. Ao todo, 43,75% dos chutes vão em direção à meta adversária e 19,5% terminam nas redes, percentuais bastante altos. O trabalho cirúrgico de Falcao e Mbappé auxilia bastante. Além disso, os alvirrubros possuem outra grande arma: a bola parada. São 22 tentos nascidos em cobranças de falta ou escanteios, mais do que qualquer outra equipe nas cinco grandes ligas. Isso sem contar as 11 penalidades convertidas.

A confiança, a fome de gols e a vitalidade

Falcao García ergue o troféu no Louis II

Desde as primeiras semanas da temporada, o Monaco demonstrou seu potencial. E a participação nas preliminares da Liga dos Campeões, que poderia ser penosa, ajudou neste sentido. Os alvirrubros superaram verdadeiras pedreiras contra Fenerbahçe e Villarreal. Sentiam que dava para sonhar. Mais do que isso, venceram o Paris Saint-Germain na terceira rodada da Ligue 1 e o Tottenham na estreia da fase de grupos da Champions. Quanto moral, não? Natural que nada abalasse a confiança dos comandados de Leonardo Jardim, nem mesmo a goleada do Nice por 4 a 0 em meados de setembro. Encadeando goleada após goleada, com uma voracidade imensa no ataque, os monegascos iam perseguindo o topo do Francês, ao mesmo tempo em que caminhavam a passos firmes no torneio continental. Isso permitiu ao time pegar embalo para o segundo turno. Então, o elenco composto por muitos jogadores polivalentes e jovens prontos para aguentar a jornada dobrada se superou. Eliminou medalhões na Champions, caindo honrosamente nas semifinais, e atingiu seu melhor momento na liga. São 19 rodadas sem derrotas, sendo 17 vitórias. São 11 triunfos consecutivos, sem deixar pedra sobre pedra. Culminaram em uma conquista inegável e inesquecível.