Quem via aquele rapaz esguio entrar na zaga do Flamengo, durante o final da década de 1990, já conseguia vislumbrar que dali sairia um grande jogador. No entanto, a carreira que Juan viveu no futebol vai além do que se poderia prever. Saiu um grande jogador, de fato, não só para os rubro-negros, mas também para a seleção brasileira e para o futebol europeu. Só que isso é apenas parte daquilo que o zagueiro construiu ao longo de sua trajetória. Há também detalhes de bola nos pés e personalidade que superam o mero currículo, tornando-se também fundamentais para recontar o respeito que recebe. Muita gente além dos flamenguistas reverenciou a despedida do veterano, realizada numa noite de Maracanã.

Aproveitando o momento, relembramos um pouco do que foi Juan – na bola, mas principalmente além dela. Daqueles personagens que acabam fazendo falta ao futebol, por tudo o que agregam ao seu redor. Mas que certamente permanece muito presente na memória de cada torcedor que pôde admirá-lo.

– Porque ele colocou o time do coração acima de tudo

“Eu comecei a gostar de futebol porque gostava do Flamengo”. As palavras de Juan, em sua carta de despedida à torcida rubro-negra, escancaram a sua relação com o clube. O Flamengo não é apenas o time de coração, que deu a oportunidade para o garoto se profissionalizar e ao qual voltou, já veterano, para pendurar as chuteiras. Desde o início, tornar-se jogador foi também um ato de amor à camisa, cultivado nas arquibancadas do Maracanã. E a frase contundente valoriza ainda mais a maneira como construiu sua relação com a Gávea, passando num teste durante a pré-adolescência e logo iniciando sua trajetória nas categorias de base. Assim como a tantos garotos, o Fla foi uma extensão de sua família. “Sempre digo que meu pai me passou a paixão pelo futebol, mas minha mãe foi quem me ajudou a me tornar um profissional. Meu pai me fez torcedor. Minha mãe me fez jogador. Ela me levava aos treinos, jogos, perto ou longe. Minha mãe foi minha grande companheira na busca por esse sonho”, complementou o veterano.

– Porque são raros os que representam tão bem um clube de massa

Com o tempo, Juan se tornou uma das grandes promessas das categorias de base do Flamengo. E não demorou a despontar como profissional, estreando aos 17 anos. Quando o zagueiro entrava em campo, a torcida não via apenas um prata da casa. Via um de seus representantes mais fiéis, que sabia o peso da camisa e como era importante honrá-la. Logo passaram a torcer também pelo garoto do Humaitá, na esperança de vê-lo triunfar e de alçar voos altos, como outras crias do Ninho. “Quando penso nesse clube, a primeira coisa que me vem à cabeça não é o tempo em que joguei bola. A memória mais forte sempre será quando, ainda na época de torcedor, eu ia ao Maracanã com o meu pai. […] Fui, sou e sempre serei parte da Nação Rubro-Negra com todo o meu coração. Eu também sofria muito e vivia intensamente Flamengo na minha época de arquibancada – emoções que tiveram que se adaptar durante a vida de jogador. Essa torcida é única. Minha ligação com tudo isso é muito forte”, resumiu o defensor, em outro belo trecho de sua carta de despedida.

– Porque suas passagens pelo Flamengo serão repletas de gratas lembranças

Juan não conquistou os maiores títulos possíveis pelo Flamengo. O início de sua carreira se deu no momento em que o clube atravessava sua seca no Brasileirão, com campanhas medíocres. Ainda assim, ele esteve presente em alguns feitos de memória afetiva inegável. O tricampeonato carioca, de 1999 a 2001, moldou o caráter de muitos rubro-negros – sempre confiando no zagueiro-menino, extremamente eficiente e elegante. O mesmo para a Copa Mercosul, uma conquista internacional que serviu de desafogo aos torcedores, ou até pela Copa dos Campeões, ampliando as alegrias naquele período. Já nesta volta, apesar das expectativas, uma nova seca persistiu nas principais competições. Nada que diminua o gigantismo de Juan em muitas de suas atuações. Se o Fla chegou tão longe, o veterano cumpria seu papel. E mesmo em derrotas, como na final da Copa do Brasil, ele foi um dos poucos a manter o orgulho no peito dos rubro-negros. Uma segurança dificilmente quebrada.

– Porque, nas últimas décadas, poucos zagueiros brasileiros foram tão técnicos

Pense bem: quais os zagueiros brasileiros mais técnicos deste século? É impossível encher os dedos de uma mão e não citar Juan em pelo menos um deles. O veterano foi um dos melhores exemplos de refinamento na posição. Nunca precisou ser o mais forte, apesar da velocidade e da impulsão. O seu diferencial sempre foi na inteligência, no bom posicionamento, no tempo apurado para dar o bote e vencer pelo alto. Sobretudo, na maneira como tratava a bola, sempre de cabeça erguida, seja para conduzi-la ou para disputá-la em uma dividida. Assistir ao defensor em seu auge era um deleite, porque poucos em sua posição atuam com tamanha elegância. Seu reconhecimento, mais do que pelas conquistas, é pelas impressões que deixou.

– Porque nunca precisou de grito para estar entre os melhores

A personalidade de Juan foge dos padrões no futebol. É um sujeito mais tímido e introspectivo, o que não necessariamente atrapalhou a sua ascensão no futebol. Pelo contrário, a seriedade é uma marca perene do veterano e que também valeu a sua reputação. Não precisou ser o zagueiro que intimidava os adversários no grito. Lealdade é uma palavra importante no dicionário do veterano. Lealdade com os torcedores que pagam o ingresso, lealdade com os adversários que encarava dentro de campo, lealdade com a própria bola que garantiu o seu sucesso. Um exemplo de jogador que deixou o futebol falar por si.

– Porque não precisou vencer a Copa para se marcar na Seleção

Juan poderia ter disputado a Copa do Mundo de 2002. Não foi por uma preferência de Felipão, embora tivesse atuado nas Eliminatórias e em partidas anteriores ao Mundial. Ser reserva no penta daria um status diferente ao zagueiro, claro. Mas não é algo que diminui o seu peso à Seleção ao longo da década passada. Juan disputou duas Copas em altíssimo nível, em 2006 e 2010. Se a conquista não veio, a zaga não teve grande culpa nisso, em parceira grandiosa ao lado de Lúcio. Os dois antigos companheiros de Bayer Leverkusen eram o complemento perfeito entre ferocidade e serenidade, explosão e calmaria, mas sem perder a firmeza e a qualidade. Merecem a exaltação além das taças. Até porque os títulos também não faltaram ao carioca. Foram dois na Copa América e dois na Copa das Confederações. Talvez sejam insuficientes para muita gente, mas não para ressaltar sua passagem de 79 jogos pela equipe nacional.

– Porque não fugia da responsabilidade e das grandes ocasiões

O alto nível de Juan em duas Copas do Mundo, por si, já demonstra a maneira como o zagueiro lidava com a pressão. Cresceu fazendo parte do Maracanã abarrotado e certamente isso guiou o seu temperamento dentro de campo. Foi um jogador que quase sempre correspondeu em ocasiões grandiosas, como há alguns exemplos ao longo da carreira. Anotou gols decisivos pelo Flamengo, com a lembrança primordial à final da Copa Mercosul de 1999. E não há como ignorar o que fez na decisão da Copa América de 2004. Outras crias do Fla brilharam. Adriano marcando o gol que reverteu o improvável, Júlio César defendendo o pênalti de D’Alessandro. Coube a Juan, dono da braçadeira de capitão, pegar a bola para a cobrança decisiva. No quarto chute brasileiro, deslocou Pato Abbondanzieri e correu para o braço. A explosão por uma das vitórias mais emocionantes da seleção também é do camisa 4.

– Porque recebeu o carinho não apenas de suas torcidas

O mais bacana é que, por tudo o que construiu, dificilmente Juan é alvo de críticos. Podem até não concordar com alguns elogios rasgados ao zagueiro, mas não vão faltar com o respeito. A própria postura de Juan não permitia isso. Não deu motivos para criar inimigos ou indisposições. Pelo contrário, se concentrou em fazer o seu trabalho ao máximo. Por isso, os aplausos no último sábado não eram apenas dos rubro-negros no Maracanã. Eram de todos aqueles que aprenderam a admirar o veterano e compartilharam ao menos um pouco do gosto de vê-lo jogar com a Seleção. O beque foi um felizardo por não depender do clubismo para ser querido, ainda que o talento seja sempre mais ressaltado pelos torcedores dos times que defendeu. Mesmo os colorados, em uma passagem curta e sem grandes títulos para se tornar expressiva, possuem uma relação especial com o defensor.

– Porque seguiu em frente, para não se despedir de um jeito triste

As lesões marcaram os últimos anos de carreira de Juan. Fez parte de momentos importantes da Roma e atuou por quatro temporadas em alto nível, mas os problemas físicos abreviaram sua passagem pelo Estádio Olímpico. Era um sinal das dificuldades que enfrentaria nas temporadas seguintes. Também foi menos do que poderia no Inter pelas contusões. Um lamento recorrente, que, em contrapartida, sublinha o profissionalismo do veterano. No Flamengo, quando se esperava sua aposentadoria, outra lesão parecia apressar o seu adeus. Mesmo assim, o ídolo trabalhou sem vaidades para retornar a breves aparições em campo e fazer sua despedida jogando. É um esforço que merece tremendo reconhecimento.

– Porque demonstrou valores imensos além da bola

Juan parecia sentir mais a despedida de Júlio César que o próprio goleiro, amigo desde os tempos de futsal e de Maracanã. Chorou copiosamente e dedicou bonitas palavras ao velho parceiro. E se estava até mais contido em seu adeus, o zagueiro também deixou sua emoção mais expressa no abraço dado em Júlio, que viajou ao Rio de Janeiro especialmente para aquele momento. O futebol é um dos ambientes que mais ajudam a amizade florescer, seja dentro de campo, seja nas arquibancadas. Torcer se compartilha, assim como jogar. E essa é uma lição que os velhos companheiros deixam de legado, por elevarem a outro patamar. A carreira em alto nível fica para os livros. O sentimento de fraternidade é algo que levam dentro do peito, que continuará. Junta-se com o respeito, a lealdade, o senso de responsabilidade e outros valores que Juan simbolizou nestes 23 anos como profissional.